Publifolha
12/04/2008 - 16h30

Aula de português do professor Pasquale tem Serginho Groissman e Tiririca

da Folha Online

O professor Pasquale Cipro Neto consagrou-se por ensinar o português com leveza, aproveitando de fatos do dia-a-dia para tratar de assuntos áridos --ou, em bom português, chatos de doer-- como a conjugação e o significado de alguns verbos bem complicados.

Divulgação
Professor Pasquale soluciona dúvidas mais comuns em livro da Publifolha
Professor Pasquale resolve dúvidas do dia-a-dia em livro da Publifolha

No livro "O Dia-a-Dia da Nossa Língua", da Publifolha, o professor Pasquale aproveita notícias e histórias envolvendo personagens familiares ao leitor --como o apresentador Serginho Groissman e o cantor Tiririca, em capítulo que você poderá ler abaixo-- para desvendar os segredos da língua portuguesa.

O livro traz ilustrações de Daniel Kondo, índice remissivo que leva o leitor diretamente ao assunto de interesse e exercícios em todos os capítulos, com respostas que ajudam a fixar o conteúdo apresentado.

Leia abaixo o capítulo A Provisão e a Providência, no qual o Professor Pasquale usa linguagem direta e clara para explicar as diferenças entre os verbos "prover", "prever" e "provir".

*

A PROVISÃO E A PROVIDÊNCIA
As palavras e suas terminações

Sérgio Groissman ainda apresentava o Programa Livre, no SBT, quando recebeu a visita do Tiririca. Com seu estilo característico, Serginho passou a bola para um dos garotos da platéia, que perguntou ao comediante: "Por que ninguém toma nenhuma provisão?".

Tiririca já respondia, quando se ouviram muxoxos e risos na platéia, certamente causados pelo ato falho do jovem. Tiririca percebeu e, em vez de prosseguir na resposta, passou a repetir a palavra "provisão".

Não me cabe discutir se o garoto disse "provisão" por convicção ou sem querer. Prefiro pensar que foi sem querer. Sabemos que muita gente confunde as terminações de certos substantivos que indicam "o ato de", o que é natural.

E POR QUE ISSO OCORRE?

Porque várias terminações -"são" e "mento", por exemplo- indicam o mesmo processo ("ato de"), o que certamente leva o falante, vez ou outra, a se confundir. Há até casos de dupla terminação, como "agrupamento e agrupação", ou "salvamento e salvação". A diferença entre as duas últimas é bastante sutil. Segundo o respeitável dicionário de Caldas Aulete, são até equivalentes.

O garoto que fazia a pergunta a Tiririca pode ter-se confundido. Bem, aproveitando a confusão, como bom advogado do diabo, eu pergunto:

EXISTE A PALAVRA "PROVISÃO"? E, SE EXISTE, O QUE SIGNIFICA?

É bom dizer imediatamente que a palavra existe, sim. "Provisão" é simplesmente o "ato de prover".

E DAÍ? O QUE É "PROVER"?

É "abastecer, suprir, fornecer". Então "provisão" é "abastecimento, suprimento, fornecimento".

Em talões de cheques de alguns bancos (Banco do Brasil, por exemplo), lê-se o seguinte: "Incide em crime de estelionato aquele que emite cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento".

O QUE VEM A SER "SUFICIENTE PROVISÃO DE FUNDOS"?

Ora, em termos de conta bancária, para que haja fundos, é preciso que haja dinheiro. Se "provisão" é "o ato de prover", a "provisão de fundos" nada mais é do que o abastecimento da conta com dinheiro.

Conscientemente ou não, o garoto que entrevistava Tiririca pronunciou palavra que existe, mas que não cabia no contexto. Eu adoraria perguntar à garotada que riu do jovem que disse "provisão" se a palavra existe e o que significa.

Por falar em "provisão" -ato de prover-, é bom não confundir "prover" com "prever", nem com "provir". Vamos lá.

QUAL O SIGNIFICADO DE "PREVER", "PROVIR" E "PROVER"?

"Prever" é "ver antes". Quem faz a previsão do tempo tenta prever o tempo, ou seja, tenta ver antes que tempo vai fazer.

"Provir" significa "proceder, ter origem, derivar, descender": "Ele provém de família árabe".

Por fim, o verbo "prover", o mais chato dos três. O significado você já sabe. A conjugação é maluca. Nos presentes (indicativo e subjuntivo), segue o verbo "ver": "vejo/provejo", "veja/proveja". Trocando em miúdos: "Para você passar as férias na casa de praia sem aborrecimentos, é necessário provê-la bem". Tradução: "Para passar as férias na casa de praia sem aborrecimentos, é necessário abastecê-la bem".

No pretérito perfeito, o caldo engrossa. Nesse tempo, o verbo prover NÃO é conjugado como o verbo "ver". Sua conjugação é autônoma -e regular: "provi, proveste, proveu, provemos, provestes, proveram". Portanto é perfeitamente possível dizer "Eles passaram férias ruins porque não proveram a casa". Também se pode dizer "Ele não proveu o carro". Bem, é mais fácil dizer "Eles não abasteceram a casa", ou "Ele não abasteceu o carro".

Agora que já provi você de informações lingüísticas, que provêm de anos de estudo, só me resta prever que você certamente saberá empregar com acerto os três verbos.

RELEMBRANDO

O verbo "PREVER" - Conjuga-se exatamente como o verbo "ver": "vejo/prevejo", "vi/previ", "veja/preveja", "visse/previsse". E não se esqueça do futuro do subjuntivo: "Quando você vir meu primo"/"Quando você previr os gastos".

O verbo "PROVIR" - Conjuga-se exatamente como se conjuga o verbo "vir": "venho/provenho", "vim/provim", "venha/provenha", "viesse/proviesse", "vier/provier".

"O Dia-a-Dia da Nossa Língua"
Autor: Pasquale Cipro Neto
Editora: Publifolha
Páginas: 200
Quanto: R$ 37,00
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha