Publifolha
16/04/2008 - 20h19

Leia capítulo de "Voltar, Nem Pensar", sobre família que largou tudo para viver em sítio

da Folha Online

Quem nunca sonhou em largar a vida estressante das grandes cidades e ir morar no interior? Ou na praia? Ou...

Reprodução
"Voltar nem Pensar" traz lições sobre como tornar um sonho realidade
Livro traz a história de família que soube tornar um sonho realidade

O sonho é comum, difícil é encontrar quem tenha coragem para realizá-lo. "Voltar, Nem Pensar" é o relato autobiográfico de Martin Kirby, um jornalista que trocou emprego estável e uma vida confortável nos arredores de Londres pela chance de reescrever a história de sua família no interior da Espanha.

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Mas não pense que a decisão de Martin foi fácil. No dia em que ele e sua esposa finalmente resolveram levar o sonho adiante, a vida do casal transformou-se em um turbilhão quase fora de controle. Martin descreve esse período --"o mais enervante, atribulado e extenuante de nossa vida"-- no capítulo "Até a Hora H", que pode ser lido abaixo.

*

ATÉ A HORA H

Os três meses seguintes àquele lindo 19 de julho de 2000, dia em que nos apaixonamos pelo sítio catalão, foram o período mais enervante, atribulado e extenuante da nossa vida.

Tudo começara muito bem.

Ao voltarmos para Norfolk da nossa incursão pelo Nordeste da Espanha e o Sul da França, e com a Horta da Mamãe sobressaindo em todos os nossos pensamentos, acordados ou dormindo, sentamos à mesa da cozinha e batemos um daqueles papos de morder os lábios e sacudir o coração, como nos tempos de namoro por telefone: "Podemos? Devemos? Ahhhh... Teremos coragem?" Apesar de todos os nossos resmungos de que tínhamos de mudar de vida, não havia saída - o momento crítico, a hora de decidir. Com o estômago apertado, apresentamos uma proposta para o sítio. Então, pedimos a Mac e Conxita que nos ajudassem a achar alguém confiável que cuidasse dos trâmites legais e verificasse tudo no fim, e também alguém que fizesse uma avaliação estrutural da casa. Por fim, mas não menos importante, ligamos para uma imobiliária de Norfolk e pusemos o Barley Cottage à venda.

Nossa oferta pela Horta da Mamãe - 5 mil libras a menos que o valor pedido - foi rejeitada prontamente, de modo que capitulamos e concordamos pagar a quantia total de 25 milhões de pesetas, que eram, calculamos, quase exatas 95 mil libras. Se conseguíssemos o valor mínimo de 195 mil libras pelo chalé, ficaríamos (após os impostos espanhóis, as altas despesas da mudança, as taxas legais e a quitação da nossa hipoteca) com apenas cerca de 10 mil libras para sobreviver até fincarmos pé. Tentávamos nem pensar nisso.

A placa de venda mal tinha sido colocada à frente do Barley Cottage quando uma família numa perua Mercedes novinha em folha parou e pediu para dar uma olhada. Eram de Cambridgeshire e estavam à procura de uma segunda casa. Estremecemos, tentamos manter o sorriso e dissemos que entrassem. Foram pelos cômodos aos sussurros, disseram obrigado, acrescentaram que era tudo muito agradável e seguiram caminho. E nós dissemos que era um alento enorme. "Desse jeito, em uma semana conseguiremos um comprador." Minutos depois, eles voltaram e ofereceram o valor total, tomando café na nossa cozinha e já concordando em serem flexíveis na data de conclusão do negócio, a ponto de esperarem até dezembro enquanto eu cumpria o meu aviso prévio no trabalho. Maravilha.

Enquanto isso, confirmamos por escrito (com a incansável ajuda de Mac e Conxita) nossa oferta no valor total a Enric e Nuria, e nos disseram que aguardássemos o fax da minuta do contrato.

Maior moleza. Os patos já se aprontavam em fila perfeita para voar para o sul.Vai acontecer de verdade, dissemos a nós mesmos pulando de empolgação, e imediatamente nos pusemos a espalhar a grande notícia para os amigos íntimos, apesar da nossa frágil promessa de manter segredo até que tudo estivesse decidido, assinado e fechado.

Aí os patos se dispersaram.

Preferimos segurar a oferta pelo Barley Cottage por uma semana para ver se surgiriam lances mais altos que o valor pedido. Achamos que havíamos aprendido uma dura lição no ano anterior, quando disputamos a casa de 200 mil libras, oferecemos 215 mil e ainda assim não a conseguimos. Nosso chalé diminuto obviamente seria arrematado, e qualquer dinheiro adicional nos deixaria com mais pesetas no banco. Mas, para nossa surpresa, ninguém apareceu para vê-la e, quando liguei na manhã de segunda-feira para confirmar que aceitávamos a oferta do casal de Cambridgeshire, o corretor soltou a bomba. "Infelizmente, eles ligaram hoje de manhã e desistiram", disse o homem.

"O quê?!"

"Mudaram de idéia."

"Não podem fazer isso!"

"Podem, sim."

Eles haviam continuado a procurar um imóvel enquanto esperavam a nossa resposta e tinham encontrado um que estava disponível.

Poucos dias depois - nessa altura, começo de agosto -, o contrato chegou da Espanha. Terry, que voltara a Norfolk com Sally e as filhas após a aventura na França e na Espanha, debruçou-se sobre o contrato para nós. Ele estudara espanhol e ensinara inglês em Madri e Saragoça, mas o documento estava em catalão, o que o tornava mais complicado. Devagar, tudo ficou assustadoramente claro. Tratava-se de um "acordo de compra e venda" que detalhava a área do sítio e dos bens à venda, mas também estipulava que um depósito equivalente a 2 mil libras devia ser feito imediatamente e seria perdido se a compra não se efetivasse até 31 de agosto. Em pânico, ligamos para Mac e Conxita, que confirmaram que isso era de praxe. Não tínhamos a mínima possibilidade na face da terra de concluir a compra até 31 de agosto, porque acabáramos de perder um comprador potencial. Vimos o nosso sonho desmoronar.

Ainda não, disseram-nos, calmamente. Eles nos aconselharam a tentar uma prorrogação no prazo fatal, pois acharam que havia uma boa possibilidade de negociá-lo. Terry pegou o telefone e tudo se acertou. Se fizéssemos o depósito naquele momento, teríamos até 29 de setembro, uma sexta-feira, para pagar o valor total. Não dispúnhamos de dinheiro vivo, mas Sally e Terry nos fizeram um empréstimo e nós enviamos a quantia, suspirando de alívio e tentando não entrar em pânico. Tudo pareceu muito tranqüilo, e o jeito dos espanhóis, obviamente, não é igual ao dos ingleses. Ainda tínhamos grande parte de agosto e todo o mês de setembro para encontrar alguém que comprasse o Barley Cottage, e mesmo assim poderíamos negociar um prazo um pouco maior. Nesse ínterim, mais uma vez aceitamos o conselho de Mac e Conxita: abrimos uma conta num banco espanhol, e os deixamos tratar com o perito e o arquiteto para que examinassem os documentos e a estrutura do sítio.

Os dias e as semanas correram. Algumas pessoas foram ver o nosso chalé, mas nenhuma apresentou uma oferta, de modo que, desconcertados e cada vez mais ansiosos, decidimos mudar de imobiliária. Quando setembro chegou e já víamos as nossas 2 mil libras (ou melhor, de Sally e Terry) irem para o espaço, reatamos com a primeira imobiliária e rezamos para que uma das duas empresas - uma com enorme rede nacional de filiais e a outra, pequena e regional - conseguissem vendê-lo. Fui à financeira e negociei a maior ampliação da hipoteca que o meu salário permitia, mas isso ainda nos deixava com 30 mil libras a menos.

Foi nessa época vertiginosa que entramos em outra aventura louca. Tínhamos visto o anúncio de uma produtora de programas de TV na revista da Willing Workers on Organic Farms, dirigido a pessoas que pretendiam mudar de vida e queriam que sua história fosse filmada para um documentário do canal 44. Então, num golpe de sorte no trabalho, uma carta da produtora, também em busca de voluntários, acabou na pilha de correspondência do editor, que eu verificava todos os dias à cata de alguma publicável.

Levei a carta para casa e a mostrei a Maggie. Conversamos. Um documentário seria capaz de dar à família e aos amigos um panorama muito claro e positivo da nossa aventura (e nos render um pouco de grana, embora "pouco" viesse a ser a palavra correta), então ligamos para a Ricochet Films. A explicação do que nos empolgou a assumir um risco ainda maior de humilhação e julgamento público na TV cabe a mim. Foi um exemplo clássico de ou tudo ou nada - um sujeito exageradamente prudente que perde a cabeça, tal qual uma pessoa normalmente abstêmia e frugal que tomou uma garrafa de champanhe e não vê mal nenhum em pedir ao garçom que traga outra. Depois de ficar imóvel durante anos, eu enfim corria e ganhava velocidade em ritmo alarmante. Maggie foi junto, abençoada seja, tendo engolido a minha justificativa de que o filme poderia ser divertido e frutífero. Claro que não tínhamos a mínima idéia de que viria a ser duro e fatídico.

Embora (descobrimos depois) a produtora tivesse recebido mais de mil respostas ao anúncio, os produtores gostaram dos nossos planos a ponto de mandar uma pesquisadora para o Norte de Norfolk. Disseram que não haveria cachê, mas que poderíamos pedir restituição das despesas. Mais ou menos uma semana depois, eles voltaram com todo o equipamento, e a sorte estava lançada. A nossa era uma das cinco histórias que seriam filmadas ao longo do ano e transmitidas no final de 2001 ou início de 2002 - se os nossos acalentados planos de comprar um sítio e nos mudarmos no início de 2001 não desmoronassem. Do jeito que as coisas iam, era mais provável que desmoronassem.

Certo dia, para fugir do telefone e da nuvem de preocupação que descera sobre o Barley Cottage, deixamos as crianças com parentes e saímos para passear junto ao mar em Blakeney (5), a fim de ver o pôr-do-sol e conversar calmamente sobre o que estávamos fazendo da vida e sonhar como ela deveria ser. Era um fim de tarde lindo, e olhamos para o vasto céu do entardecer, enquanto gaivotas, patos selvagens e um som parecido com o de sinetas de cabras cortavam o ar salgado. Nada se equipara a um poente no Norte de Norfolk, quando os charcos se tingem de vermelho, ao som de uma brisa cortante que faz os cabos baterem contra os mastros de metal das embarcações. Eram paisagens, sons e cheiros que eu sentira a vida inteira, e foi estranho pensar que eu estava pronto para abandoná-los. Mesmo assim, não deixei de acreditar no que procurávamos fazer.

Ao voltar para casa, demos prosseguimento aos nossos negócios na Espanha: reunimos os documentos necessários, recebemos um laudo tranqüilizador do arquiteto sobre a casa e mantivemos contato o mais constante possível com Enric e Nuria, sempre enfatizando a nossa firme intenção de fazer a compra, mas sem mencionar que ainda tínhamos de vender o nosso chalé.

Nossa ingenuidade logo se mostraria ainda maior. Achamos que, como Enric e Nuria tinham aceitado tão bem a prorrogação da data final, esperariam sem problema mais algumas semanas, por estarem certos de que concluiríamos o negócio. Já tinham embolsado a entrada e havia prova suficiente da nossa determinação. O contrato, pensamos, era uma formalidade necessária. Em face de tudo que estávamos fazendo, sem dúvida os vendedores nos dariam um pouco mais de tempo. Planejávamos ligar para eles em dois dias para deixá-los informados.

O 21 de setembro de 2000 - meu aniversário de 42 anos -, uma quinta-feira, começou bem alegre, com os meus filhos me ajudando a desembrulhar os presentes na cama, antes que Ella fosse à escola. Era um dia para tentar esquecer as tensões.Mal começara o café-da-manhã, tocou o telefone. Era Mac.

"Sinto muito, mas tenho más notícias", disse ele, do modo mais suave possível. "Parece que uma imobiliária holandesa também está interessada no sítio e ofereceu mais dinheiro. Enric não pode dar preferência a ela, é claro, porque tem um contrato com você. Mas o contrato vence em oito dias, e ele diz que, se você não vier aqui e o negócio não for concluído na próxima sexta, nada feito."

Gelei.

O fundamental era que tínhamos de decidir sem pestanejar - tirar o cavalo da chuva e dar adeus às 2 mil libras de Terry e Sally ou tentar como loucos levantar 30 mil libras na hora, além de transferir para a nossa conta na Espanha, em tempo, todos os 25 milhões de pesetas (e mais um tanto para cobrir taxas e despesas diversas). Teríamos também de chegar lá na quarta-feira, para assegurarmos que a papelada estava em ordem, passar o cheque e fechar o negócio com o tabelião na sexta-feira. Mac tentou não parecer desanimado, mas pressentia que o jogo terminara. Nós nos sentimos arrasados. Fizemos mais um pouco de café, achamos forças sei lá onde e resolvemos que, tendo chegado até ali e com 2 mil libras em jogo, devíamos ao menos batalhar. Se fizéssemos alguns telefonemas, logo saberíamos se ainda tínhamos uma chance.

O grande desafio era conseguir 30 mil libras em dinheiro vivo e enviá-las para a nossa conta na Espanha em seis dias - ou melhor, quatro dias úteis, pois o fim de semana estava chegando. Não podíamos pedir a ninguém que nos desse o dinheiro contraindo um empréstimo numa financeira ou passando um cheque para nós, porque não estaria disponível a tempo de mandá-lo à Espanha na segunda-feira. Isso já excluía a minha mãe, pois seus poucos recursos, que ela se dispusera antes a emprestar, estavam bloqueados. Só podíamos pedir a pessoas que tivessem dinheiro em conta corrente. Então, o único jeito de fazer isso era obter qualquer quantia emprestada e transferi-la eletronicamente para a nossa conta na Inglaterra na segunda-feira, e a Lloyds executar uma transferência rápida de todas as 95 mil libras (aí incluídas as 65 mil da hipoteca ampliada, que eu já depositara) para a nossa conta na Espanha, de modo que estivesse disponível no máximo até a quinta seguinte, um dia antes do prazo fatal. Tente dizer tudo isso de um fôlego só, e você vai ter uma leve noção de como nos sentíamos.

Mas a quem recorrer? A quem na face da terra você pode telefonar e pedir que mande um caminhão de dinheiro, tendo de se driblar o fato de que você não sabe bem quando poderá pagar? A primeira opção óbvia eram Liz, irmã de Maggie, e o marido dela, Gary, que moravam em Enfield. Gary dirigia uma empresa de instrumentos musicais e era capaz de conseguir a quantia, tivesse eu coragem para lhe telefonar. Usando o velho truque de trabalho com telefonemas difíceis de "ligar primeiro, pensar depois", peguei o telefone. Liz atendeu, e eu apresentei a crise em linhas gerais. "Eu talvez consiga cinco mil", disse ela prontamente. Agradecendo, perguntei se Gary estava por perto, e ela passou a ligação para o escritório dele, no andar de cima da casa. Contei mais uma vez a missão impossível, enchi cada frase de desculpas profusas, corei com o meu descaramento e, então, fechei os olhos com força, à espera da resposta. Ele tinha todo o direito de me dizer que procurasse outro e tentasse fazer um coisa humanamente impossível.

Talvez eu possa, disse ele. "Pode? Pode conseguir as vinte mil libras?", perguntei extasiado, iluminando os olhos de Maggie, que não paravam quietos, e ela imediatamente se pôs a imaginar a quem pediria as 5 mil restantes. Aconteceu de Gary estar poupando dinheiro para trocar os dois carros deles, que estavam ficando velhinhos. Ele podia adiar a troca dos carros até o final de janeiro, quando precisaria da quantia. Expliquei a enorme dificuldade de enviar o dinheiro para a Espanha em quatro dias úteis, e ele disse que ia pensar em um jeito.

"Puxa vida, continuamos no páreo!", dissemos. Depois de a mãe de Maggie ter concordado em nos emprestar as outras 5 mil libras sem titubear, passamos os dois dias seguintes ao telefone, transferindo dinheiro, dizendo aos nossos gerentes de banco na Inglaterra e na Espanha o que deviam fazer e planejando a semana que viria.

Ray, o gerente do banco de Sheringham, verificou a taxa de câmbio e nos disse na sexta-feira que naquele momento ela estava extremamente boa - 279 pesetas por libra para uma transferência volumosa. Ótimo. Ele disse que levaria dois dias para o dinheiro entrar na nossa conta na Espanha se pagássemos a remessa rápida, mas avisou que a taxa mudava a cada minuto. Garantimos que iríamos lá para fazê-lo na segunda-feira, quando todos os empréstimos da família já deveriam estar na conta.

Naquela sexta-feira, traçamos os planos. Partiríamos de avião na quarta, iríamos ao nosso banco espanhol na quinta de manhã e tiraríamos todo o dinheiro; depois, na sexta de manhã, fecharíamos o negócio no tabelionato e voltaríamos para casa no sábado. Concluímos que, por causa da correria e das dificuldades que enfrentaríamos com a língua e com as leis, Ella ia achar tudo muito chato e nós poderíamos nos distrair. Então pedimos a Sally e Terry que ficassem com ela enquanto estivéssemos no exterior. Explicamos a situação a Ella da forma mais simples possível, reiterando ao máximo a questão do tempo que gastaríamos em bancos e escritórios, e ela concordou na hora em ficar com as primas Leila e Rosa em Norfolk.

Em um dos nossos telefonemas atabalhoados, Liz fez uma sugestão: por que vocês não levam suas mães também? Ambas disseram "sim", e eu me pus a procurar passagens aéreas mais baratas para quatro adultos e um bebê de três meses, e depois aluguei um carro. Mac e Conxita continuaram dando duro por nós: reservaram quartos em uma pensão na aldeia e fizeram uma última checagem para ver se tínhamos todos os documentos, as informações e a quantia das taxas que precisaríamos dar ao tabelião.

Para aumentar ainda mais a minha pressão arterial, eu tinha de tocar o trabalho como se nada de incomum estivesse acontecendo, demonstrar o maior sangue-frio e ficar bem aceso, que era o que se esperava do meu trabalho de editor noturno de um jornal diário. A verdade era que as minhas veias gritavam de tanta cafeína e adrenalina e que a minha pálpebra esquerda começara a tremer de tensão. Eu me concentrava demais, porque a última coisa que eu queria que acontecesse, após oito anos no serviço, era fazer papel de idiota. Mas eu estava como panela de pressão prestes a explodir e era capaz de perder as estribeiras com qualquer um que me pedisse uma opinião sincera. Havia também a questão melindrosa de negociar uns dias de folga por "motivos familiares", o que felizmente correu bem, sem nenhuma pergunta incômoda. Eu havia contado o segredo a uns poucos amigos no jornal, que fizeram a gentileza de não falar da minha lida fora do trabalho, e fiquei grato quando vi um deles repassar parte do meu trabalho.

Concluímos também que deveríamos contar à Ricochet Films a respeito da correria, e eles disseram que queriam ir a Norfolk antes de partirmos para viajar conosco.

Trabalhei na tarde e na noite de domingo, e então, na manhã de segunda, depois de um sono entrecortado, telefonei para Ray, no banco, a fim de saber se as transferências de dinheiro tinham sido feitas. Duas, sim, mas ainda nos faltavam 5 mil libras. Ele disse que também havia verificado a taxa de câmbio, que despencara para 265 pesetas por libra, porque os cambistas tinham preferido dar força ao combalido euro. Talvez perdêssemos milhares de libras. Mais tarde, na mesma manhã, levamos Joe Joe ao banco, fazendo figa. Todo o dinheiro estava lá. Não podíamos protelar mais. O gerente ligou para verificar o câmbio. Subira para 274,82.

"Compre! Compre agora!", gritamos, e a remessa expressa dos 26 milhões de pesetas começou a seguir para a Catalunha.

Na terça, fiz jornada dupla, trabalhando das nove e meia da manhã à meia-noite e meia, tentando desesperadamente adiantar o serviço para ficar fora por três dias. Ainda assim, ninguém pareceu se dar conta de que só metade dos meus neurônios funcionava e que eu gastava um tempo enorme botando moedas na máquina de café.

Quando eu ainda estava na redação, verificando três vezes tudo que havia feito, o diretor Billy, da Ricochet Films, e o câmera australiano Craig chegaram à minha casa, hospedaram-se num hotelzinho e disseram a Maggie que voltariam cedo, na manhã seguinte, para filmar o café-da manhã e Ella indo para a escola.

Acho que nenhum de nós conseguiu dormir naquela noite, e se comprovou que é uma das sensações mais desagradáveis do mundo receber uma equipe de filmagem em casa quando se está um caco, ansioso, e não se consegue afastar o pensamento de que tudo vai acabar em desgraça e humilhação. Foi parecido com a única vez em que estive numa montanha-russa, na qual não há jeito de dar o fora e a longa e lenta subida até o topo dá tempo para duvidar da própria sanidade mental por ter, antes de mais nada, aceitado entrar naquilo.

(5) Vilarejo litorâneo ao Norte de Norfolk. (N.T.)

*

"Voltar, Nem Pensar"
A história da família inglesa que largou tudo para morar em um sítio na Espanha
Autor: Martin Kirby
Editora: Publifolha
Páginas: 312
Quanto: R$ 39,00
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

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