Publifolha
13/10/2009 - 16h51

Veja como é feita a cobertura jornalística do governo do PT

da Folha Online

Reprodução
Livro conta histórias por trás das fotografias dos irmãos Marques
Livro conta histórias por trás das fotografias dos irmãos Marques

Cenário dos principais acontecimentos políticos do país, Brasília é o centro das informações e destino obrigatório para muitos jornalistas que se empenham na difícil tarefa de noticiar fatos da política.

Como meio de orientação, o livro "Caçadores de Luz - Histórias de Fotojornalismo", da Publifolha, pode ser visto como uma espécie de manual para fotógrafos, jornalistas, repóteres-fotográficos e editores que vivem o dia a dia das redações e trabalham diretamente com temas ligados ao Palácio do Planalto.

Em tempos de governo Lula, o repórter-fotógrafo Lula Marques esclarece como se dá a rotina jornalística destes profissionais.

Leia abaixo trecho extraído do livro.

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CELEBRIDADES DO MUNDO POLÍTICO

LULA, DELÚBIO E A CIGARRILHA - por LULA MARQUES

Na cobertura jornalística do Palácio do Planalto, a notícia não repousa apenas na figura do presidente da República. Um fotógrafo que quer acompanhar a rotina jornalística de Brasília tem de ficar atento às pessoas que rodeiam o homem mais importante do Brasil. Não é raro assessores de governantes virarem o foco da mídia. Temos o exemplo do presidente Fernando Collor, que teve a maior crise de seu governo agravada com uma denúncia de seu ex-motorista Eriberto França (de que um Fiat Elba, usado a serviço de Collor, havia sido comprado com dinheiro de fonte obscura); ou de Getúlio Vargas, que se matou devido à confusão instalada em seu governo por seu chefe da guarda pessoal, Gregório Fortunato, que se envolveu em um atentado contra a vida de Carlos Lacerda, principal inimigo político de Vargas.

Esses seres que orbitam o governo muitas vezes tentam evitar que a imprensa exerça seu papel de vigilante; em alguns momentos, agem com se fossem donos do presidente do Brasil. Pensando nisso, dá uma certa nostalgia lembrar a tranqüilidade que era cobrir a Presidência da República antes da chegada de Lula ao poder. No passado, sabíamos que, em qualquer cerimônia onde o presidente estivesse, jornalistas e fotógrafos seriam tratados como profissionais. A situação que narro a seguir se passou no primeiro mandato do presidente Lula. Dá uma amostra do que enfrentamos no dia-a-dia da cobertura do governo PT - e como é importante observar os coadjuvantes do poder.

Chegamos ao pavilhão do parque da cidade de Brasília, para uma cerimônia que o presidente Lula teria com os membros do MST. Fomos recebidos pelos líderes do Movimento dos Sem Terra com o aviso de que não poderíamos entrar. As portas estavam fechadas e pediram para esperarmos do lado de fora do pavilhão, onde aconteceria a solenidade até a chegada do presidente. A reação inicial foi de incredulidade, mas decidimos esperar com paciência a chegada da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto - que, estranhamente, ainda não tinha dado sinal de vida. Sempre que se chega para qualquer cobertura presidencial, somos recebidos pelos assessores de imprensa e seguranças do presidente, que nos levam ao detector de metal e, depois, para o "baculejo", a revista do nosso equipamento. Só então somos liberados para o espaço pré-determinado pela assessoria de imprensa, com vista privilegiada para os fotógrafos. É essa a rotina.

Passado algum tempo, finalmente chegou um assessor e falou que tão logo o presidente entrasse no prédio, entraríamos atrás. Atitude nova na cobertura presidencial. Cabe aqui um parêntese para dar contexto à situação: o presidente adora chegar atrasado nas cerimônias e deixar todo mundo esperando, como a proverbial noiva que quer criar expectativa. Esperamos quase uma hora do lado de fora do pavilhão e os ânimos começaram a esquentar. Estávamos literalmente cercados e vigiados pelos membros do MST na entrada do local e não víamos motivo para sermos tratado assim. Quando olhamos para dentro do prédio, os poucos seguranças da Presidência organizavam um corredor polonês. Até aí, tudo bem, o presidente passa por dentro do corredor e a gente da imprensa pelo lado de fora, registrando os cumprimentos do presidente aos presentes. Não é novidade acontecer esse tipo de esquema nas visitas do chefe de Estado.

Quando chegou, ficamos cercados pelos membros do MST e não conseguimos registrar o desembarque, o que é grave para o pessoal que trabalha com imagem e irritante para os demais jornalistas. Foi o estopim para uma grande confusão. Começaram a nos empurrar. Nesse momento, ficamos nas mãos dos "seguranças do MST", que agiam com truculência e tentavam nos impedir de entrar no pavilhão. Gritamos pela assessoria
de imprensa, pedindo ajuda, mas nos deram as costas. A única preocupação deles era com o presidente.

Forçamos a entrada quando Lula já estava dentro do pavilhão e nos deparamos com uma situação insólita. Começaram a barrar nossa passagem - não os seguranças da Presidência, que sempre fazem esse papel, mas os participantes do congresso dos trabalhadores Sem Terra. Foi um empurra-empurra louco. Os fotógrafos querendo registrar a chegada do presidente e os manifestantes do Movimento dos Sem Terra levantando as mãos para impedir o registro.

Fotógrafos e cinegrafistas sempre agem da mesma forma, nessas horas. Cada um corre para um lado e alguém fura o cerco. Driblamos o MST, mas caímos no meio do corredor polonês de seguranças e atrás do presidente. Quando tentamos chegar perto de Lula, que já estava cumprimentando os presentes, sentimos o desprezo com que a organização do Palácio do Planalto tratava a imprensa credenciada, ao nos deixar nas mãos dos "seguranças do MST". Parecia que tinham dado uma carta branca para os sem terra baterem o quanto quisessem e tentassem quebrar nossos equipamentos.

A gente reagiu, claro. Mas o que mais me deixou indignado foi estar naquela situação e ver os seguranças e um assessor de imprensa se divertindo à nossa custa. Não faziam nada para acabar com o tumulto, só riam da nossa cara. Passei a fotografar os colegas sendo agredidos. Só que, a cada foto que fazia, vinham três ou quatro sem terra em cima de mim para impedir. Quebraram meu flash e levei alguns safanões.

Ficamos quase cinco minutos na batalha campal. Resultado da cobertura: vários flashes quebrados e alguns cinegrafistas de olho roxo. Os que trabalham com uma pesada câmera do ombro perdem mobilidade na hora de se defender e viram alvo fácil para covardes.

O presidente Lula chegou ao palco de dois metros de altura. Começamos a nos organizar, mas não tínhamos local marcado. Acabamos ficando na frente dos membros do MST, tampando a visão dos que queriam ver o presidente. Começou um novo empurra-empurra. Só que naquela hora estávamos todos juntos e decidimos não sair. Como a cerimônia não começava por causa da confusão, apareceram vários seguranças e o pessoal da assessoria de imprensa do Palácio para organizar a bagunça.

Aquele pavilhão ao meio-dia parece uma sauna. Além do calor, o cheiro de suor, misturado com cheiro de álcool e, àquela altura, também, a minha fome, me deixavam de estômago embrulhado. Acho que só não passei mal por não ter nada na barriga. Mas, além da confusão e da forma do governo se relacionar com a imprensa, a cerimônia, que começou com muito atraso, teria algo mais a revelar.

Vários ministros de Estado que estavam presentes começaram a discursar. Para o presidente não ficar entediado durante os discursos, sempre aparece um assessor para passar alguma informação. E apareceu mesmo um, até então desconhecido da grande imprensa: Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Na época, tentamos descobrir o porquê da sua presença na cerimônia; mas, como de hábito, o Palácio não respondeu.

Cerimônia tediosa, calor insuportável, cheiro horrível de muita gente espremida em pouco espaço, discursos intermináveis e o presidente ali sem fazer nada, quando Delúbio Soares chegou por trás do ministro Luiz Dulci e colocou uma cadeira para conversar com Lula. Puxação-de-saco explícita, Delúbio ofereceu uma cigarrilha holandesa para o presidente Lula, que não se fez de rogado. Para não fumar na frente da imprensa, abaixava atrás da cadeira como menino que está fazendo coisa errada e se escondia atrás do ministro, Luiz Dulci. Fumou várias vezes, depois ficou com aquela cara de paisagem, acreditando que tinha enganado a imprensa. Só que desta vez não escapou da minha lente.

Meses depois, estourou um caso de corrupção conhecido como "Mensalão", supostamente operado pelo publicitário Marcos Valério e pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o homem da cigarrilha do presidente. Tentaram desclassificar a amizade e intimidade de Delúbio com o presidente Lula, mas a seqüência de fotos do presidente fumando escondido, ao lado do tesoureiro do PT, valia mais que mil palavras. Essa série de imagens foi a mais lembrada e publicada pelos jornais na época do escândalo, que de tão marcante derrubou vários políticos influentes, como o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

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"Caçadores de Luz - Histórias de Fotojornalismo"
Autores: Sérgio Marques, Lula Marques e Alan Marques
Editora: Publifolha
Páginas: 240
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha