Publifolha
05/01/2009 - 16h25

Especialistas descrevem a trajetória da psicanalista Melanie Klein em livro; leia capítulo

da Folha Online

"Se perguntássemos aos estudiosos da área qual teria sido, depois de Freud (1856-1939) e ultrapassando-o, o autor que mais contribuiu para que se compreenda o funcionamento psíquico inconsciente, não haveria dúvidas quanto à resposta: Melanie Klein" - Luís Claudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra, em "Folha Explica - Melanie Klein"

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Livro os principais temas da obra da psicanalista Melanie Klein
Livro sintetiza a obra da psicanalista Melanie Klein

Melanie Klein (1882 - 1960), psicanalista austríaca, é referenciada como a responsável por lançar as bases e desenvolver a técnica da análise de crianças. De fato, essa menção não é equivocada, porém, não faz juz à sua obra.

Sua experiência com crianças possibilitou ampliar o campo da clínica psicanalítica para áreas tidas, por Freud, como inacessíveis ao tratamento: pacientes psicóticos, autistas e borderline. Mas a austríaca trouxe também um novo estilo de trabalho para o atendimento de pacientes neuróticos adultos. Ou seja, todo o campo foi transformado.

No livro "Folha Explica - Melanie Klein", da Publifolha, outros detalhes sobre a vida e a produção científica da psicanalista são abordados. Os autores Luís Claudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra, psicanalistas e professores acadêmicos, expõem didaticamente as ideias kleinianas, salientando sua importância para o movimento psicanalítico.

De acordo com os autores, a austríaca é a única dos grandes pensadores que jamais teve uma vida acadêmica de base. Ela não foi médica, psicóloga, nem lingüista. Foi sempre uma pesquisadora autodidata.

Mesmo após sua morte, a influência de Klein não deixou de se estender pelo mundo afora, tendo uma forte incidência na psicanálise que se praticava e ensinava na Argentina e no Brasil nas décadas de 60 e 70, bem como, naturalmente, no seio do grupo kleiniano de Londres.

Leia a seguir capítulo do livro "Folha Explica - Melanie Klein" que narra o início da produção científica da psicanalista.

Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

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A DÉCADA DE 20: O INÍCIO DO PERCURSO

Desde o início da década de 1920 até sua morte em 1960, Melanie Klein não parou de produzir, fazendo observações clínicas originais, criando conceitos e teorias e propondo avanços nas técnicas da psicanálise. Embora dividir esses 40 anos em períodos não faça totalmente justiça à evolução da autora, muito mais nuançada e orgânica, para efeito didático serão destacadas quatro épocas e quatro questões básicas nas elaborações kleinianas. É bom que se diga que a própria Klein enfatizava a profunda continuidade entre estas "épocas", nunca se esquecendo de suas obras anteriores ou se descartando delas.

PRIMEIROS TRABALHOS

Melanie Klein começou a fazer suas observações clínicas, a escrever e apresentar seus trabalhos em congressos a partir da década de 1920. Nesse período ainda não existe um pensamento kleiniano estruturado, mas ela já é capaz de chamar a atenção de seus mestres e colegas pela originalidade de suas intuições e pela coragem de suas propostas clínicas e teóricas.

Analisando crianças psicóticas, neuróticas obsessivas graves e também crianças mais saudáveis, Melanie Klein descobriu formas de violência associadas à sexualidade, como já vimos na Apresentação. Por isso mesmo que a preocupação com o excesso, a desmesura e a insaciabilidade do desejo marca o seu pensamento desde os primórdios.

Nesses primeiros textos da década de 20, Klein fala da voracidade, presente nos dinamismos oral, anal e fálico. Na dinâmica oral ocorre a fantasia inconsciente de sucção vampiresca e incorporação oral do objeto de amor. Em sua dimensão sádico-anal, a voracidade se expressa pelo desejo excessivo de posse, assim como pelo desejo de controle e completo domínio muscular sobre o objeto - o que leva o dinamismo "esfincteriano" à fantasia inconsciente de estreitar e estrangular o objeto.

Em sua forma uretral e fálica, trata-se da ambição desmesurada ou ainda da competição e da fantasia inconsciente de penetrar, tomar posse e triunfar sobre o objeto de amor. Em seu texto "Tendências Criminosas em Crianças Normais" (1927), por exemplo, ela sugere que o imaginário sádico e ideias semelhantes às que levaram aos piores crimes também estão presentes no desenvolvimento normal de crianças absolutamente saudáveis.5

Indo além da ênfase no excesso e na violência pulsional, uma intuição genial desta época - inspirada no ensaio "Pulsões e seus Destinos", de Freud - fará Klein dizer que a violência pulsional sofre uma inflexão sobre a própria pessoa, originando um "superego precoce", isto é, uma moralidade vingativa e tingida com a violência da pulsão. A lei de Talião e esta forma primitiva de "moral" - ou de fazer justiça com as próprias pulsões - mostram que são as próprias forças do id que, dispostas umas contra as outras, criam um universo de punições selvagens e sem medida. O amor pré-genital e a dificuldade de moderá-lo encontram-se entrelaçados aos mais cruéis castigos imaginários, tal como Freud havia intuído no caso O Homem dos Ratos, com a fantasia cruel dos ratos e de sua penetração anal.

Nesta época, o interesse de Melanie Klein também foi atraído pelo problema da inibição intelectual - ligada, pelo avesso, à curiosidade e ao desejo de conhecer. No universo freudiano, a pulsão de saber estava ligada à sexualidade, ao desejo de saber sobre sua origem. Antes de Freud, na linguagem bíblica, "conhecer" e amar sexualmente estão estreitamente associados.

Desde os Três Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), Freud considerava que a chamada "pulsão de domínio" - uma pulsão do ego - acabava se convertendo em sadismo oral e anal - por infiltração da pulsão sexual, e podia então vir a sublimar-se, virando pulsão de saber. Nessa concepção, todo ato de conhecer envolve algum "domínio" sobre o objeto: o dinamismo oral de "devorar" e "incorporar", o fálico de "invadir" e "penetrar" associam-se ao erotismo sádico-anal com seus desdobramentos do erotismo muscular, pois será preciso "controlar, segurar, possuir, manipular, abrir e dissecar" o objeto a ser conhecido. Mesmo quando todas essas formas de sadismo são sublimadas em curiosidade e desejo de conhecer, pode-se discernir sempre uma manifestação de violência, intrínseca a toda forma de conhecer e de aprender (ou apreender, capturar).

Melanie Klein observou crianças com inibições intelectuais e levantou a hipótese de que elas não haviam tolerado o seu sadismo infantil, reprimindo-o muito precocemente, pois foram invadidas de angústias muito intensas, ao passo que crianças mais "livremente sádicas" teriam tido tempo para sublimar sua violência, na forma de curiosidade e desejo de saber. Estas podiam aprender, brincar e criar. Sua prática terapêutica foi, então, desentranhar as fantasias sádicas do paciente inibido, e através da palavra e do setting analíticos, criar condições para que se transformassem em desejo de saber, libertando-o da inibição intelectual.

Para desenvolver suas considerações, Klein partirá de alguns trabalhos de Sándor Ferenczi e Ernest Jones. Estes autores mostravam que a erogeneidade do próprio corpo infantil era "transferida" para o mundo: as crianças buscavam fora de si as "zonas erógenas", transportando para elas o valor de prazer de certas partes do corpo e conferindo-lhes significado simbólico sexual. Ora, essa já é a descoberta de um trabalho da imaginação: o prazer da boca transforma-se em prazer com a comida, muito além de seu valor nutritivo e da sua capacidade de satisfazer uma necessidade biológica. A comida e sua fonte primitiva - o seio - viram objetos de prazer, objetos sexuais imaginários.

Começa assim a ideia da construção de um mundo interno, pois é dessa rede de equivalências que surgirão os primeiros elos simbólicos, que constituem as nervuras da fantasia. A fantasia seria uma espécie de "tecido" que se vai tecendo sobre uma estrutura simbólica. Aqui, também, está o germe do "objeto interno" - conceito essencial ao pensamento kleiniano. Quando o prazer oral permite que boca, seio materno e leite sejam equacionados (ou identificados, isto é, tornados equivalentes entre si), segundo o seu valor de prazer e desprazer, criam-se os objetos internos "seio bom" e "seio mau", que representam a experiência de prazer e desprazer no interior do psiquismo. A ênfase na construção e no dinamismo dos objetos internos levou a formulações geniais a respeito da fantasia inconsciente e fez com que o grupo kleiniano viesse a ser conhecido como o "grupo dos objetos internos".

PRINCÍPIOS DA ANÁLISE INFANTIL

O período entre 1926 e 1928 foi bastante fecundo para a elaboração dos "princípios da análise infantil". Foi quando se realizou também um simpósio sobre o assunto, em que Anna Freud apresentou concepções diferentes, gerando uma polêmica que ajudaria a consolidar a técnica psicanalítica do brincar, a importância de centralizar a receptividade do analista nas angústias e culpas da criança e a liberdade de interpretar os conflitos infantis baseando-se na neurose de transferência, tal como se fazia na análise de adultos.

Neste período, Klein publica um texto marcante: "Estágios Iniciais do Complexo Edipiano" (1928). Já em 1926, Melanie Klein afirmara que o superego existia antes da resolução do conflito edipiano, contrariando o que tinha sido postulado por Freud, para quem o superego era o "herdeiro do complexo de Édipo". Esse superego primitivo, composto de identificações surgidas nas fases oral e sádico-anal, representava um grande peso para a criança e uma das tarefas da análise era diminuir seu poder de constrangimento. Essa seria, aliás, a condição para a superação das inibições intelectuais.

A hipótese do superego arcaico já havia obrigado Melanie Klein a antecipar o início do complexo de Édipo para o começo do segundo ano de vida. Mais tarde, ela desvincularia o surgimento do superego arcaico da questão edípica e acabaria por antecipar o próprio complexo de Édipo em sua dimensão mais arcaica para os seis meses de idade, quando surge a primeira "posição depressiva", o que se verá mais adiante.

Mais importante que antecipar o início do conflito edipiano, nesse trabalho de 1928, foi a compreensão do complexo de Édipo em seu plano mais metafórico e simbólico; isto é, como estrutura de lugares cambiantes e como dinâmica de inclusão-exclusão, presença-ausência, o que torna possível constatar o complexo de Édipo desde a época do desmame, por volta dos seis meses de idade.

Vejamos como Melanie Klein chegou a tais ideias. Desde os Três Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), mas sobretudo em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud nos remetera à situação essencial que pode conduzir à hipótese do Édipo precoce, se soubermos lê-lo de modo "kleiniano": trata-se do sentimento de abandono que a criança sente por parte da pessoa amada e da angústia de ser abandonada pelo objeto de amor. Claro que apenas o afastamento da mãe não será suficiente para provocar angústia: é preciso que haja uma necessidade que só a mãe pode resolver. Quando a criança tornou-se capaz de reconhecer a mãe, basta a mera aparição de uma pessoa estranha no lugar dela para desencadear aquela angústia que relacionamos ao perigo de perda do objeto.

Estas eram as palavras de Freud em 1926. A intuição de Melanie Klein foi perceber que temos aí uma situação triangular precoce. Os personagens desse triângulo ou drama edipiano precoce são: a criança, cujo ego começa a constituir-se de forma mais nítida no momento mesmo em que pode perceber a mãe como objeto total e quando ela se ausenta; a mãe, que começa a ser reconhecida no momento em que reaparece; e o estranho, isto é, qualquer outra pessoa que apareça no lugar da mãe e cuja existência é dolorosamente descoberta justamente porque vem assinalar a ausência da mãe. Isto começa a acontecer entre seis e nove meses do bebê.

Embora o estranho venha a recobrir a ausência materna como pura negatividade, é esse estranho, com sua alteridade, que marca a perda da mãe e a descoberta de sua objetalidade (no sentido de objetar-se ao desejo), momento em que ela, a mãe, poderá começar a ser verdadeiramente investida como um "outro objeto". Justamente quando se furta que ela pode ser desejada: esse, na verdade, é o aspecto trágico do desejo. Só nesse momento, quando a mãe pode ser investida como um objeto que se move por iniciativa própria (e não mais como continuação do próprio corpo infantil), que se instala a angústia da perda, o desejo pelo objeto em falta e uma primeira forma de triangulação edípica.

Nesta época, mais precisamente em 1928, Melanie Klein assume a interessante atitude de falar em termos de "posição oral" ou "anal" ou "genital", como se começasse a pensar que, na cena da fantasia, o sujeito ocupa diferentes posições em relação a seu objeto. A noção de posição será mais tarde adotada pela autora com um sentido algo distinto; voltaremos a isso, pois se trata de um dos seus conceitos mais básicos e originais.

Nesse primeiro momento, ela afirma que, desde a posição oral, a criança estabelece dentro de si a imago devoradora, que decorre do próprio desejo de devorar voltado contra si mesma. Era desta maneira que se construíam as primeiras camadas orais do superego.

O que vai ficando claro ao longo desse texto de 1928 é que o ódio, a voracidade e a destrutividade dominavam o quadro durante as etapas pré-genitais e, por essa razão, as "camadas" do superego que se formavam nas posições oral e sádico-anal resultavam necessariamente em um superego cruel. Este superego cruel determinava uma repressão do sadismo oral e anal e interferia no desenvolvimento genital posterior. Quanto menos repressão houver neste momento, mais rapidamente a criança atinge a etapa genital, que permite uma identificação maior com os aspectos amorosos da mãe e a capacidade de levá-la em consideração como um sujeito que tem necessidades e desejos.

A relação de objeto que corresponde às etapas pré-genitais é parcial: significa incorporação, posse, rivalidade e consumo, ao passo que a percepção do objeto total, alcançada apenas na etapa genital, leva ao desejo de cuidar dele e à preponderância do amor. Na fase pré-genital, a existência de alguma forma de amor é quase indiscernível, ou melhor, o amor é selvagem e radical, quer devorar, roubar, destruir o outro.

O que sempre impulsiona a passagem de uma "posição" para a seguinte é a frustração vivida nas posições anteriores, e a busca de novos objetos de satisfação decorre do ódio sentido dos primeiros objetos. Nesse texto, o conflito entre tendências pré-genitais e genitais parece ser um precursor do que mais tarde será a oscilação entre a posição esquizo-paranóide e a depressiva, como se verá adiante.

A PSICANÁLISE DE CRIANÇAS

O livro A Psicanálise de Crianças, de 1932, traz vários escritos anteriores e um relato mais sistematizado de 18 análises infantis, com elementos clínicos que foram as fontes de inspiração para a criação de suas teorias sobre o funcionamento mental. Embora editado na década de 30, este livro reúne o que de mais importante Melanie Klein produzira na década de 20.

No conjunto, ela propõe que o ego forma um mundo interno, de figuras internalizadas, que interagem com os objetos reais pelo processo de projeção e introjeção. Como resultado do sadismo para com seus objetos, o ego sofre de ansiedade. Sua principal tarefa é elaborar suas ansiedades psicóticas, que aos poucos, à medida que o desenvolvimento se dá, transformam-se em ansiedades neuróticas.

Aqui, o conceito de "ansiedades psicóticas" refere-se à intensidade e à destrutividade das ansiedades que ocorrem nas etapas pré-genitais, como já vimos. De início são ansiedades de perseguição e aniquilamento; em seguida, são ansiedades relacionadas à perda do objeto amado, destruído ou danificado pelo próprio sujeito. No conjunto, são as ansiedades conhecidas como "terror inominável".

Nesse livro aparecem as primeiras noções de maior alcance, como a discriminação entre angústia persecutória e culpa, e a importância de transformar o superego arcaico em um superego desenvolvido, capaz de experimentar o sentimento de culpa e capaz de levar o outro em consideração. Quando isso ocorre, no lugar das ansiedades psicóticas podem emergir as ansiedades neuróticas, relacionadas ao confronto entre o desejo e as interdições, o que produz culpa: são angústias penosas, mas bem mais suportáveis que as anteriores.

5 - Para melhor conhecer esta época, pode-se recorrer aos textos escritos entre 1920 e 1932 - ou seja, até a data de edição do seu livro Psicanálise de Crianças -, que se encontram no primeiro volume das obras completas. Um estudo minucioso deste proto-sistema kleiniano pode ser encontrado no primeiro volume da obra de Pétot, Melanie Klein I (São Paulo: Perspectiva, 1987).

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"Folha Explica - Melanie Klein"
Autor: Luís Claudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha