Leia crônica "Sábia Dercy", de Ruy Castro
da Folha Online
É difícil imaginar que alguém que viu a internet e o celular serem criados possa ter sido contemporâneo de Machado de Assis e Noel Rosa. No dia 27 de junho de 2007, Ruy Castro elogiou a longevidade --e, mais do que isso, a lucidez-- de Dercy Gonçalves na crônica "Sábia Dercy", publicada na "Página 2" da Folha de S.Paulo.
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| Livro reúne as melhores crônicas de Ruy Castro publicadas na Folha |
A atriz morreu neste sábado, 19 de julho, no Hospital São Lucas, em Copacabana (zona sul do Rio), aos 101 anos. A comediante costumava dizer ter dois anos a mais que a idade oficial, pois seu pai teria demorado para registrá-la.
A crônica "Sábia Dercy", que pode ser lida abaixo na íntegra, é uma das 101 de Ruy Castro selecionadas para o livro "Ungáua", da Publifolha. As 101 crônicas foram selecionadas entre todas as publicadas por Castro na Folha entre fevereiro de 2007 e março de 2008.
Leia abaixo a crônica "Sábia Dercy", de Ruy Castro:
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SÁBIA DERCY [27.06.2007]
Dercy Gonçalves, que está completando 102 anos em 100 (sua família, em Santa Maria Madalena, RJ, levou dois anos para registrá-la), é hoje a mulher mais lúcida do Brasil. No ano de seu nascimento, 1905, o presidente da República era Rodrigues Alves. Seguiram-se 24 presidentes, três golpes de Estado, duas longas ditaduras, um suicídio, uma vacância por morte e um impeachment. Mas Dercy continua firme.
Quando ela nasceu, Machado de Assis estava vivo e ativo. E Olavo Bilac, João do Rio e Lima Barreto. O samba ainda não existia, assim como a marchinha de Carnaval e o jazz. A televisão, nem em sonho, nem mesmo o rádio - o cinema, sim, mas Hollywood, não. E Mario Reis (1907), Carmen Miranda (1909) e Noel Rosa (1910) também ainda não eram nascidos. Pode crer.
Para não ir longe: Dercy nasceu um ano antes que Santos Dumont voasse em Paris com o 14-Bis. O austro-húngaro Franz Lehar levaria dois anos para compor A Viúva Alegre. Automóveis, gramofones e máquinas de escrever eram novidade e as mulheres ainda se espremiam em espartilhos. Tico-Tico, a revista, acabara de surgir - Eu Sei Tudo, Fon-Fon e Kósmos, ainda não.
Dercy nasceu muito antes da Primeira Guerra (1914-18), da Revolução Russa (1917) e da Gripe Espanhola (1918). Aliás, quando tudo isso aconteceu, ela já tinha idade para ler a respeito nos jornais. E, mais que adulta, foi contemporânea do massacre dos 18 do Forte de Copacabana (1922), da morte de Rodolfo Valentino (1926), do surgimento do cinema falado (1927), da inauguração do Cristo no Corcovado (1931). E tome polca.
Dercy viu tudo e continua entre nós, mais sábia do que muitos. Não espera ou pede nada, e não acredita em ninguém, só nela. E, se a chatearem, ela manda para aquele lugar.
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"Ungáua!"
Autor: Ruy Castro
Editora: Publifolha
Páginas: 224
Quanto: R$ 36,00
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha
Livraria da Folha
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