Publifolha
18/06/2008 - 20h16

Leia a crônica "Seleção sem povo", de Ruy Castro

da Folha Online

"A seleção se divorciou do povo. Não é mais o Brasil". A afirmação, do premiado escritor Ruy Castro, está na crônica "Seleção sem povo", que pode ser lida abaixo na íntegra. O texto, publicado na Folha de S.Paulo, foi selecionado para o livro "Ungáua!", que reúne as 101 melhores crônicas do autor publicadas entre fevereiro de 2007 e março de 2008 no jornal.

Reprodução
Livro reúne 101 crônicas de Ruy Castro publicadas na *Folha de S.Paulo*
Livro reúne as melhores crônicas de Ruy Castro publicadas na Folha

Biógrafo de Mané Garrincha, saudoso dos tempos em que "nada superava a honra de uma convocação", Ruy Castro aponta --em tom de desabafo e desalento-- os motivos que levaram muitos brasileiros (inclusive ele próprio) a perder o encanto pelo escrete canarinho. "A seleção é, há muito, um feudo de jogadores que atuam no exterior, defendendo camisas com as quais nada temos a ver".

Leia abaixo a crônica na íntegra:

*

SELEÇÃO SEM POVO [18.06.2007]

De 1958 a 1982, o Brasil teve um caso de amor com sua seleção de futebol. E ela fazia por onde: venceu três Copas do Mundo, jogou partidas memoráveis no Maracanã e no Morumbi e consagrou três gerações de jogadores. Havia mais craques na praça do que vagas no time, e nada superava a honra de uma convocação.

Fora da seleção, esses jogadores entravam em campo todos os domingos por seus clubes - nossos clubes. Podiam ser amados ou odiados no fragor doméstico, mas, no que vestiam a camisa amarela, cessava o vodu. A seleção tinha até torcedores próprios, e não apenas entre os que só se ligam em futebol na Copa por um vago ardor patriótico.

Mas isso acabou. A seleção é, há muito, um feudo de jogadores que atuam no exterior, defendendo camisas com as quais nada temos a ver. Por vários motivos, também não a assistimos em nossos estádios - há sete anos, por exemplo, ela não joga no Rio. E, como aconteceu na última Copa, a seleção, convocada na Europa, não veio ao Brasil nem para pedir a bênção do povo que representava. Deu no que deu.

As razões são muitas, mas o fato é que a seleção se divorciou do povo. Não é mais o Brasil. Reduziu-se a uma legião estrangeira que, mecanicamente, canta o hino antes do jogo. Ex-ídolos nacionais como Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Robinho preferem jogar por seus milionários clubes que pela seleção. E estão certos: só quem vai à Europa sabe o que eles representam em paixão para os torcedores desses times. São deuses em Milão, Barcelona, Madri.

Vem aí uma opaca Copa América. Os craques a desprezam e a torcida brasileira, com razão, também não está nem aí. Qualquer campeonato local envolvendo o Arapiraca, o Botucatu ou o Cascavel será mais emocionante, se um desses for o nosso clube de coração. A camisa precisa estar perto do peito.

Leia outras crônicas de Ungáua:

*

"Ungáua!"
Autor: Ruy Castro
Editora: Publifolha
Páginas: 224
Quanto: R$ 34,00
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha

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