Publifolha
24/02/2009 - 15h34

PUBLIFOLHA: Escritor discute embate entre popular e erudito a partir de Machado de Assis

da Folha Online

O embate entre o erudito e o popular, entre a glória dos que criam clássicos da cultura e o sucesso dos que produzem peças que agradam as massas é o eixo do conto "Um Homem Célebre" (1888), de Machado de Assis. O autor narra a angústia de Pestana, músico que compõe polcas de sucesso mas padece de um "fracasso íntimo" por, aos seus olhos, não criar obras que se equiparem às dos grandes como Beethoven e Mozart.

Reprodução
Livro tem como ponto de partida "Um Homem Célebre", de Machado de Assis
Livro tem como ponto de partida "Um Homem Célebre"

Mais de cem anos depois, o embate entre o popular e o erudito é um tema recorrente na cultura nacional. Tomando como ponto de partida o conto de Machado e sua qualidade quase "profética" de antever essa fricção, o ensaísta José Miguel Wisnik joga luz sobre a formação da música popular urbana no Brasil em "Machado Maxixe: O Caso Pestana", da Publifolha.

Citado como contribuição de importância para os estudos da obra de Machado e para o debate cultural brasileiro mais amplo, o ensaio investiga a "gênese" da música popular no Brasil. Para isso, Wisnik mergulha nas origens da polca, "verdadeiro protótipo das formas dançantes da música de massas". O "pulo do gato", segundo Wisnik, acontece quando a polca, dança de salão importada, mistura-se com a música de escravos e dá origem ao "maxixe".

Propagado inicialmente em ambientes boêmios, o maxixe --"gênero novo", de "caráter sincopante e sub-repticiamente africanizado"-- sofre, nas palavras de Wisnik, "um processo de recalque em ambientes brancos, elitizados, domésticos, senhoriais".

Mergulhando na obra de Machado e em textos de estudiosos do autor como Alfredo Bosi e John Gledson, recorrendo às idéias de Mário de Andrade, Adorno e outros pensadores, Wisnik trata da emergência de um caldo de cultura que tem "implicações múltiplas e relações profundas com a cultura urbana que engendrará a moderna música popular brasileira".

O ensaio "Machado Maxixe: O Caso Pestana" comprova o fôlego e a atualidade da obra machadiana e ajuda a entender temas atuais como a divisão entre filmes "de autor" e "comerciais" do cinema nacional. Ou, mais notadamente na música, a oposição entre a "boa música" --quase toda sob o guarda-chuva da "MPB"-- e a música de fato popular, de Padre Marcelo a Ivete Sangalo, que conquista as massas e desagrada a elite intelectual.

"Machado Maxixe: O Caso Pestana"
Autor: José Miguel Wisnik
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 22,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha

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