Capacidade de comunicação é diferencial de bom médico, diz urologista; leia trecho
da Folha Online
A confiança e a boa comunicação são fundamentais para fortalecer a íntima relação médico-paciente. Com isso, fica mais fácil conduzir tratamentos e identificar doenças.
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| Guia é dedicado àqueles que sonham em estudar medicina |
De acordo com a entrevista concedida pelo urologista Miguel Srougi, encontrada no livro "Médico", da Publifolha, o bom médico é aquele que sabe se expressar bem, de forma conveniente, gerando esperança.
Autor do livro "Próstata: Isso É com Você", também editado pela Publifolha, Srougi acredita que os melhores alunos da faculdade, geralmente não se transformam nos melhores médicos.
"Eles [os alunos] ficam muito bitolados, são indivíduos que ficam o dia inteiro lendo e estudando e, na hora de falar com um doente, não sabem se expressar. Por isso eles não viram bons clínicos", constata.
Pós-graduado na Harvard Medical School, em Boston (EUA), Srougi é apontado como o maior especialista em próstata no país, com muitos artigos e cerca de 200 estudos originais publicados no Brasil e no exterior. O médico possui, ainda, uma credencial que impressiona mais do que seu currículo e seus títulos acadêmicos: em pouco mais de 30 anos de profissão, ele já fez mais de 2 mil cirurgias de câncer de próstata.
A Publifolha publica a íntegra da entrevista retirada do título, na qual Srougi analisa com franqueza alguns dos problemas fundamentais do exercício da profissão e destaca a importância do lado humanístico do trabalho médico.
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A faculdade
Na minha época, o vestibular de medicina era parecido com o de hoje. As vagas eram limitadas e havia menos escolas. O número de candidatos era menor,mas o número de escolas também era bem menor. Fiz o cursinho junto com o 3o colegial, quando eu estudava no Colégio Paes Leme, uma escola particular que não existe mais. Passei na primeira tentativa, na Faculdade de Medicina da USP, e, durante o curso, fiz residência no Hospital das Clínicas. A faculdade foi um período muito rico na minha vida. Havia um esquema de cursos quase em tempo integral, então o convívio com os colegas era muito intenso. A gente misturava as atividades de aprendizado médico com as de esportes, de recreação, o que eu acho muito interessante, e vou abrir um parêntese para fazer um comentário sobre isso.
O curso médico é árduo, pela própria natureza das ciências médicas, e o que aprendi agora, depois de todos esses anos, é que obviamente o indivíduo que faz medicina precisa ter algumas características especiais que permitam que ele seja moldado para se tornar um bom médico. Mas aprendi também que a medicina, para ser exercida no seu nível maior, implica uma tremenda capacidade de comunicação. Tratar as doenças mais comuns é uma coisa simples. A maior parte das ocorrências é comum. Se você verificar cem doentes que procuram o médico no ambulatório do hospital público ou no consultório, de 70% a 80% são casos banais, que qualquer médico com um pouco de conhecimento e esforço resolve. E por que estou dizendo tudo isso? Porque, na verdade, o que diferencia um bom médico de um menos eficiente é a capacidade de comunicação. E essa capacidade a gente desenvolve com o tempo. Ninguém nasce se comunicando, sabendo comunicar-se.
Interação médico-paciente
Essa capacidade de comunicação refere-se basicamente à relação médico-paciente, no sentido maior da palavra. O bom médico é aquele que sabe se expressar bem, que sabe se expressar de forma conveniente, que sabe se expressar gerando esperança. É, sobretudo, aquele que sabe ouvir. Isso é que é comunicação. O bom médico sabe manter-se neutro, sabe que vai se postar ao lado do doente. Tudo isso eu chamo de comunicação, a capacidade de interagir com o paciente.
Hoje não sobra muito tempo para o médico, e essa é uma das limitações, mas de qualquer modo nós precisamos treinar os médicos para assumir essa postura, e isso deve vir desde a faculdade. Agora já existe essa predisposição de valorizar a parte humanística. Na minha época de faculdade essa idéia era menos arraigada. Mas o que eu quero dizer é que o estudante de medicina é um indivíduo que, além de ter de estudar e se dedicar, precisa ter a chance de desenvolver sua capacidade de comunicação. Em outras palavras, se o sujeito ficar fechado em um quarto estudando igual a um maluco, ele pode não vir a ser um bom médico. Ele precisa, no dia-a-dia do curso médico, ser exposto a todas as situações sociais que geram embates, que geram dúvidas, que provocam; ele precisa ser colocado no meio de grupos em que tenha de se expressar, tenha de ouvir, tenha de se comunicar. Eu sou muito favorável a que o curso de medicina seja mais brando e que misture atividades de recreação, atividades esportivas e atividades sociais entre os alunos, de modo que todas essas características possam ser desenvolvidas. Os melhores alunos da faculdade, os que tiram o primeiro ou segundo lugar todos os anos durante o curso, geralmente não viram os melhores médicos. É interessante isso, porque eles ficam muito bitolados, são indivíduos que ficam o dia inteiro lendo e estudando e, na hora de falar com um doente, não sabem se expressar. Por isso eles não viram bons clínicos.
Na Escola Paulista de Medicina, onde sou professor de urologia, embora seja uma especialidade cirúrgica, nós damos um tremendo valor a essa parte mais humanística, e exigimos isso, e punimos se alguém transgride as regras mais básicas de relacionamento humano.
Modelos de conduta
Decidi pela urologia apenas no último ano da faculdade. Uma coisa que exerce um grande poder de sedução sobre o estudante de medicina, e acho que nas outras áreas também, é o contato com modelos, com pessoas que, para nós, representam modelos de conduta. Eu tive esses contatos na minha formação, e isso foi me moldando. Na verdade, alguns indivíduos têm mais propensão e mais facilidade para se desenvolver na área filosófica e se tornam psiquiatras; outros têm mais habilidade manual e viram bons cirurgiões. Sempre existe uma certa predisposição. Mas o que acaba impregnando muito, e marcando e influenciando os estudantes na escolha da profissão e de subespecialidades, são os modelos, eu não tenho dúvida quanto a isso.
Tive vários modelos. Quando era estudante, trabalhei com um grupo de cirurgiões jovens, com mentalidade muita avançada para aquela época. Era um grupo chefiado pelo dr. Ernesto Lima Gonçalves, e na época tive contato com pessoas realmente especiais, como Rui Bevilacqua e Marcel Cerqueira Machado.Também tive contato com outro grupo, que não era de cirurgiões,mas de clínicos, como Marcelo Marcondes e Antonino Rocha.Todos eles influenciaram minha escolha.
Convivência com o sofrimento
O lado mais dramático e emocional na minha especialidade é o contato permanente com pacientes portadores de doenças graves.Acontece o seguinte: o indivíduo que tem câncer passa a ver na frente dele a perspectiva de morte, e isso cria um sofrimento grande, por muitos mais motivos do que a gente imagina. Não é só dizer "eu vou morrer e isso me faz sofre", não é só isso. A pessoa, quando passa a ter a perspectiva de morte, fica aterrorizada, primeiro porque a mente humana não aceita o aniquilamento físico, nenhum de nós aceita que vai ser aniquilado. Outra coisa que não aceitamos é a separação. Nenhum de nós quer se separar das pessoas de que gosta. Isso às vezes não é valorizado, as pessoas não percebem, mas é um sentimento muito forte. Existe um sentimento também de perspectiva de dor, que aterroriza a mente humana. E existe um outro sentimento que também não é muito aparente, que é o temor do abandono. A pessoa pensa que vai morrer e será abandonada um pouco antes, ninguém vai dar bola para ela. Para completar, existe outro temor enorme, que é a perda da independência. O sujeito acha que vai ficar mutilado, tolhido, e essa perda da independência cria uma grande angústia. O portador de câncer passa por tudo isso. Então, conviver com essas pessoas obviamente também representa uma situação provocativa para o médico. Se você compreende o que passa pela cabeça de um indivíduo que está nessa situação, consegue dar um certo apoio a ele. Por exemplo, se ele tem medo da separação, você pode estimular os vínculos dele com a família, com as pessoas que o rodeiam, de modo a diminuir esse temor. Você tem de se colocar numa posição de que não vai permitir a dor de jeito nenhum; você tem de se colocar do lado do doente e garantir que vai estar sempre ali, que ele nunca vai ser abandonado. Isso não elimina o sofrimento, porque a pessoa continua com a mesma perspectiva pela frente, mas atenua o sofrimento.
O contato com a morte
O trabalho médico pode realmente ser muito complicado. Na verdade, nós somos pouco treinados para lidar com a morte. Na faculdade, nas escolas, no dia-a-dia, somos treinados para preservar a vida, e não para lidar com a morte. Embora eu esteja falando uma coisa meio óbvia, isso cria um problema. Quando o médico procura só salvar a vida, sem se preocupar com a morte, sem aceitar a morte como uma coisa natural, que faz parte do ciclo da vida, é uma etapa do ciclo da vida, o que acontece? Na hora em que está à frente de um doente, o médico passa a procurar desesperadamente a cura desse doente, a qualquer preço, sem levar em conta o que o tratamento e todas as ações dele podem causar de ruim para o doente. Ele passa a querer caçar células cancerosas com o bisturi, e vai cortando, cortando, cortando, sem se dar conta de que esses cortes vão deixando cicatrizes, vão marcando o doente e às vezes podem causar mais sofrimento do que a própria doença. Ele passa a lutar para prolongar a existência, e não para expandir a existência da pessoa.
Existe outro problema que envolve o médico: ele não aceita a derrota. Para ele, a morte do paciente representa uma derrota pessoal, e não deveria ser assim, porque a morte é parte do ciclo da vida. Então, ele tenta ignorar isso, vê a morte como um fracasso pessoal dele, e isso é muito ruim. Um terceiro aspecto é que o médico, quando se confronta com a morte, percebe ser frágil também, percebe que a finitude também existe para ele. Então, muitas vezes ele vira o rosto para tentar não ver, para tentar ignorar a situação, que expõe uma fragilidade vivida também por ele. Pode parecer bobagem, mas isso é real: o médico prefere fingir que a morte não existe. Então, ao doente que está morrendo ele dirige olhares fugazes, tenta evitar aquela situação, tenta fugir até como uma maneira de se defender. Na cabeça dos médicos também ocorrem fenômenos complexos.
O que mudou na profissão
A grande mudança no exercício da medicina foi a alteração do chamado contrato social.Antigamente os médicos eram colocados numa posição muito superior, eram respeitados profundamente, conduziam todo o processo com grande aceitação por parte do paciente e das famílias. Em troca, ele estudava bastante, era bem remunerado, e com isso se estabelecia uma relação equilibrada. O médico era extremamente respeitado e gratificava-se com isso, estudava e aplicava o que sabia de forma liberal. O que aconteceu nas últimas décadas? Primeiro, a ciência médica progrediu muito e o médico passou a ser incapaz de controlar e ter nas mãos todo o arsenal oferecido pela medicina. Então ele se tornou mais frágil. A sociedade, nesta era da informação, tornou-se mais ilustrada e passou a questionar os médicos. Outro fenômeno, também muito importante, é que as pessoas passaram a se preocupar com a qualidade de vida, passaram a se preocupar com o direito de participar das decisões, o direito de opção. Isso começou a confrontar os médicos com os pacientes. Acho que a situação anterior também era errada, não acho legal que se coloque o médico como semideus. Mas agora o médico passou a ser confrontado, e não digo que seja errado. Os leigos são mais informados, passaram a ser mais exigentes, mudou a relação.
Além disso, a medicina tornou-se muito cara para ser exercida. Há 30 anos o médico comprava um aparelho de pressão, um estetoscópio, aquela velha pastinha, um abaixador de língua, e fazia medicina com aquilo. Agora ele precisa ter à mão todos os recursos tecnológicos, senão falhará ao fazer o diagnóstico.
A remuneração
A medicina deixou de ser remunerada da forma como era no passado, porque ficou muito cara. Os recursos disponíveis para a área médica, que em grande parte eram destinados aos médicos, passaram a ser destinados aos hospitais, aos serviços de apoio, de diagnóstico, e a remuneração do médico caiu muito. Então se criou um círculo, o mais perverso de todos, em que o médico passou a ser mais mal remunerado, por isso tem de trabalhar mais; e tendo de trabalhar mais, em lugares diferentes, passou a estudar um pouco menos. Ou seja, criou-se um ciclo vicioso em que, o sujeito, quando cai nele, entra em uma queda livre quase incontrolável. Isso gera um fenômeno que não existia, que recebeu até nome, burn out, que em inglês significa o momento em que o fogo se extingue. Esse fenômeno é agora muito claro entre os médicos. O profissional chega aos 50, 60 anos e não agüenta mais atender os doentes, coisa que não acontecia no passado. Os antigos médicos exerciam a medicina com prazer até os 80 anos. Hoje os médicos querem parar, não agüentam mais essa pressão toda, essa relação absolutamente desgastante.
As recompensas
A profissão tem um lado gratificante, sim, embora às vezes os problemas pareçam tão grandes que não conseguimos usufruir a parte boa. O médico é um dos poucos indivíduos que, como corporação, é altruísta. Em cada área, entre os jornalistas, os advogados, os engenheiros, sempre se encontram indivíduos tremendamente altruístas. Mas, como grupo, o médico é mais altruísta, ele ganha de longe. O médico trabalha de graça, se tem de atender de graça ele atende. Na semana passada (primeira quinzena de março de 2005) houve um mutirão no Rio, em que os médicos foram trabalhar e operar, e nenhum deles ganhou um tostão a mais. Foram todos trabalhar num domingo, operaram e vibraram com isso. Você já viu alguém conseguir juntar em um domingo cem, 200 advogados para irem a uma praça pública atender quem precisa de ajuda? Você já viu alguém juntar 40 ou 50 engenheiros para oferecer assessoria para que a população carente possa reformar suas casas, consertar o que tem de problema de engenharia? Com médico isso acontece toda hora. Se um doente pobre procura um médico, ele é atendido; se um doente pobre não pode pagar, a gente arruma um hospital público e opera de graça. Não estou dizendo que todo médico seja um santo. Existem médicos que não prestam, que são altamente materialistas e interesseiros, e não são poucos. Mas, como grupo, ainda prevalece esse sentimento de doação, de altruísmo.
A maior emoção
Não há nada parecido com a possibilidade de ajudar alguém que esteja numa situação desesperadora, resgatá-lo para a vida, para uma condição digna. Não há dinheiro que pague. É por isso que a gente trabalha de graça. Eu opero um doente e não cobro nada, e 15 dias depois ele vem e encosta a cabeça no meu ombro, chorando. Isso não tem preço. E isso não é raro, acontece toda hora, com todos os médicos.
Amor e ódio
Já, já vou escrever um artigo na Folha de S.Paulo para mostrar um pouco de um lado da profissão que é ignorado. Por algum motivo psicológico, que até hoje eu não consegui explicar, existe um certo prazer em desconstruir o médico. Não há dúvida sobre isso. Deve haver algum motivo psicológico mais íntimo, preciso até sentar um dia com um psiquiatra e perguntar isso a ele. Se você, como jornalista, tiver de noticiar que um médico foi à noite à casa de uma criança pobre e conseguiu resgatá-la para a vida, e se no mesmo dia tiver uma notícia de que um médico fez uma bobagem e matou uma criança, você sabe o que vai sair no jornal no dia seguinte. Todo mundo gosta de falar de saúde. de médico etc., mas quando o médico faz cem bondades pode sair uma nota no cantinho do jornal, e quando ele faz uma maldade é manchete de primeira página. É claro que a maldade de um médico tem repercussões que justificam que seja denunciada, mas por trás disso existe um sentimento tão complicado que eu não entendo bem como é.Talvez seja porque o médico tem tanto poder nas mãos que, quando passa do limite, gera uma reação furiosa. Não sei, alguma coisa deve explicar isso, mas existe esse problema na mente das pessoas. Talvez porque coloquem o médico numa posição muito acima do que ele merece, e assim ele não pode cometer erros. Deve haver uma explicação. Enfim, a gente aprende a conviver com isso também.
"Médico"
Autor: Publifolha
Editora: Publifolha
Páginas: 120
Quanto: R$ 19,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
