Reuters
10/10/2002 - 17h19

Sobreviventes dos Andes refazem viagem aérea 30 anos depois

da Reuters, em Montevidéu (Uruguai)

Quase 30 anos depois de serem obrigados a praticar o canibalismo após uma queda de avião nos Andes, sobreviventes de uma equipe uruguaia de rúgbi embarcaram hoje para refazer aquela fatídica viagem.

Cerca de 12 deles pegaram um avião de Montevidéu (capital uruguaia) para Santiago (capital chilena), voando sobre os picos gelados onde eles lutaram durante 72 dias pela sobrevivência, uma aventura levada às telas por Hollywood em 1993 no filme "Vivos".

Acompanhados por mais de cem parentes e jogadores atuais de rúgbi e futebol, os sobreviventes, hoje homens de meia-idade, planejam jogar neste fim-de-semana uma partida simbólica contra veteranos da equipe que eles deveriam ter enfrentado em 13 de outubro de 1972.

Também haverá uma missa, um jantar e discursos. "Para muitos essa é a primeira viagem ao Chile. Estamos indo porque queremos comemorar com alegria, porque é uma homenagem às pessoas que nos resgataram das montanhas", disse Gustavo Zerbino, um dos sobreviventes, antes do embarque.

Dos 45 passageiros do vôo acidentado, 13 morreram na queda ocorrida por falha do piloto. Alguns outros morreram em seguida, por ferimentos e por uma avalanche. Só 16 foram resgatados com vida.

Machucados e congelados, retidos na cabine por um vento inclemente, eles conseguiram sobreviver nos primeiros dias com o pouco de chocolate e vinho que encontraram a bordo.

Mas quando esse escasso mantimento já estava acabando, eles ouviram no rádio que as equipes de resgate estavam desistindo das buscas. Decidiram então cavar a neve onde alguns corpos haviam sido enterrados e comê-los.

A maioria não se arrepende dessa decisão, que levou o grupo a comer até os pulmões e intestinos de colegas e parentes. "Só lamentamos não ter comido a carne humana antes, sem esperar dez dias, mas levamos tempo para nos acostumar com a idéia", disse Carlos Pérez, outro sobrevivente.

O resgate aconteceu depois que dois membros do grupo saíram pelas montanhas procurando ajuda. Dez dias depois, foram encontrados por um agricultor e levaram helicópteros até o local do acidente.

Os sobreviventes hoje são empresários, locutores de TV, pais de família. Muitos rodaram o mundo contando sua história, enquanto pelo menos um deles nunca mais entrou em um avião.

"Éramos um time lá na montanha e somos um time agora", disse Fernando Parrado em uma recente entrevista. "Uma vez que você passa por uma coisa dessas, nada pode te separar".

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