Para analistas, queda de Aznar estimula terror
PETER GRAFFda Reuters, em Londres
Especialistas acreditam que extremistas islâmicos possam interpretar a derrota do Partido Popular, do premiê espanhol, José María Aznar, e a planejada saída das forças espanholas do Iraque como vitória de sua causa, incentivando-os a ataques com metas políticas.
"Eles vão pensar que realizaram algo extraordinário", disse David Claridge, diretor-administrativo da Janusian Security Risk Management, uma consultoria com sede em Londres que analisa riscos de segurança para clientes comerciais.
Os especialistas em segurança, considerando a hipótese de a Al Qaeda estar por trás dos ataques, dizem que o objetivo da rede terrorista talvez tenha sido justamente derrubar o governo espanhol. Eles apontam para um livro de 50 páginas, "Iraq Al Jihad", que apareceu em sites de extremistas na internet em dezembro de 2003 e que discutia a possibilidade de lançar ataques a alvos espanhóis para aumentar a hostilidade pública à guerra e derrubar o premiê José María Aznar.
Segundo trechos fornecidos por Claridge, da Janusian, o livro sugere explicitamente que os extremistas "explorem as eleições espanholas". "Achamos que o governo espanhol não poderia suportar mais do que dois ou três ataques (...), após os quais teria de deixar o poder em conseqüência de pressões populares", diz o livro. Claridge acrescentou: "Na realidade, bastou um ataque"'.
"Fica claro que eles pensaram muito sobre uma maneira de conseguir um impacto político grande na Espanha", disse Paul Wilkinson, presidente do Centro para o Estudo do Terrorismo e da Violência Política da Universidade St. Andrew's, na Escócia. "O que isso mostra, a meu ver, é que os terroristas muito sofisticados do chamado 'novo terrorismo' --a Al Qaeda-- de fato planejam com cuidado para exercer um impacto estratégico máximo."'
Claridge comentou: "Está claro que houve, na comunidade islâmica, reflexão e discussão em torno da Espanha como alvo potencial e o fato de a Espanha ser vulnerável ao terrorismo como meio de causar mudanças políticas".
É provável que Washington e Londres tentem persuadir o novo governo espanhol a reconsiderar sua promessa de retirada de tropas, mesmo que seja apenas para privar a Al Qaeda de algo que ela verá como vitória.
Embora o vencedor da eleição, José Luis Zapatero, tenha dito que cumprirá sua promessa de retirar os 1.300 militares espanhóis do Iraque até 1º de julho, ele também sugeriu que pode reconsiderar a decisão se a situação em campo melhorar.
Wilkinson disse que vê isso como "sinal de esperança de que o governo espanhol possa ser convencido a manter a presença no Iraque, já que isso enfraqueceria a percepção de vitória dos terroristas". Enquanto isso, porém, a Al Qaeda poderá se gabar de ter derrubado um governo europeu.
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