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27/05/2003 - 03h12

Rubem Alves: Melhorando as câmaras de tortura

RUBEM ALVES
colunista da Folha de S.Paulo

Cometi uma indelicadeza imperdoável no meu artigo sobre o vestibular. Desejo corrigi-la. Fiz uma lista de intelectuais universitários que não passariam no vestibular: eu, reitores, professores, professores de cursinho, professores que preparam as questões que os jovens terão de responder... Mas, por esquecimento, omiti dois nomes. Não disse que o senhor ministro da Educação, Critovam Buarque, e o senhor secretário da Educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, também não passariam no vestibular. Fiquei temeroso de que se ofendessem.

Marcelo Zocchio

Não os incluindo na lista dos que não passariam, seria possível que se concluísse que eles, se fizessem os vestibulares, passariam. E isso é uma ofensa. Ofensa porque, se eles passassem, seria sinal de que possuem memórias perfeitas, memórias que não se esquecem de nada.

Ora, pessoas que têm memórias que não se esquecem de nada, nos limites do meu conhecimento, são os chamados "idiot savants", expressão criada pelo dr. J. Langdon Down em 1887. Sobre eles, Oliver Sacks escreveu um fascinante artigo no livro "Um Antropólogo em Marte" (Companhia das Letras). "Idiot savants" são idiotas incapazes de pensar racionalmente que, entretanto, têm memórias prodigiosas que guardam tudo, completamente divorciadas da sua inteligência.

O dr. Langdon Down relata a história de um paciente seu a quem ele deu o livro "Declínio e Queda do Império Romano". Ele leu o livro e o memorizou perfeitamente com uma única leitura. Jorge Luis Borges tem um conto, "Funes, o Memorioso", sobre um homem que tinha memória absolutamente perfeita e que, por isso mesmo, era totalmente incapaz de pensar.

A memória inteligente é a memória que sabe esquecer. Nietzsche, se não me engano, no seu ensaio sobre Tales de Mileto, observa que a característica da sabedoria é que ela sabe discriminar entre as coisas dignas e as indignas de serem aprendidas. As dignas de serem aprendidas, ela as guarda; as indignas, joga fora, esquece. O esquecimento é um mecanismo de sabedoria controlador da memória, para que ela não carregue pesos inúteis.

Assim, corrijo minha indelicadeza: o senhor ministro da Educação, Cristovam Buarque, e o senhor secretário da Educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, também não passariam no vestibular. Eles são pessoas inteligentes. Suas memórias sabem esquecer.

Alegra-me saber que o sr. ministro da Educação também se sente incomodado com os vestibulares. Tanto assim que ousou tocar na vaca sagrada e sugeriu, se estou bem informado, que os vestibulares devem se restringir apenas a português e matemática. Penso que ele foi movido pela idéia da simplificação. Os vestibulares, como estão, exigem conhecimento demais. É sofrimento demais para os jovens. Simplificados, poderiam ser mais inteligentes.

Mas eu penso que aquilo que o senhor ministro deseja não vai ser atingido por meio dessa reforma. Tudo ficará como antes. Possivelmente piorado.

O dr. Jay W. Forrester, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), elaborou uma nova lei social que recebeu o nome de Lei de Forrester. Em termos simples, essa lei sustenta que, em situações complicadas, os esforços para melhorar as coisas, em geral, tendem a piorá-las —frequentemente, piorá-las muito e, ocasionalmente, torná-las uma calamidade. O que é uma versão complicada do que disse Jesus: "Não se põe remendo novo em roupa velha. O remendo acaba por arrancar parte da roupa e o buraco fica maior...". Não há maneiras de melhorar os vestibulares.

Resumindo: eu acho que câmaras de tortura e sessões de tortura vão continuar; o que vai acontecer é apenas um rearranjo nos equipamentos.

A palavra tortura vem do latim "torquere" (daí torquês), que significa torcer. O objetivo de torcer é produzir dor a fim de que o torturado faça o que o torturador deseja. A educação, no passado, se valeu da famosa palmatória como instrumento de tortura! E os vestibulares, por sua vez, podem também ser comparados a câmaras de tortura porque ninguém se submete a eles por prazer.

A proposta do senhor ministro terá como resultado a eliminação de vários dos instrumentos de tortura ora em uso. Mas sua outra consequência será o aperfeiçoamento dos dois instrumentos a serem usados: português e matemática. O quantum de dor não será diminuído; será concentrado. O resultado não vai ser um maior amor por português e matemática. Não há tortura que possa provocar num aluno o amor pela leitura. Mas isso, o amor pela leitura, é o fundamento da língua. Paralelamente, física, química, geografia e história passarão a formar o rol dos saberes sem importância, ao lado das artes e da poesia, por não caírem no vestibular.

Câmaras de tortura não podem ser melhoradas. Câmaras de tortura têm de ser abolidas. A aprendizagem tem de ser uma experiência feliz...

Eu tenho uma proposta diferente: proponho que as câmaras de tortura sejam simplesmente abolidas. Perguntarão a mim: "E como serão selecionados os alunos?".

P.S.: Os curiosos insistiram para que eu dissesse qual é a minha alternativa para os vestibulares. Vocês vão rir e pensar que perdi o juízo. Mas é um alternativa absolutamente lógica e peço que contenham o espanto e pensem. Minha proposta é: substituí-los por um sorteio.

Sobre isso falaremos no próximo mês...

Rubem Alves, quase 70, é educador e psicanalista. Acaba de lançar o livro "Fomos Maus Alunos" (Papirus), que escreveu com Gilberto Dimenstein. Está relendo o livro de Gaston Bachelard "A Poética do Devaneio" (Martins Fontes), que considera leitura obrigatória para psicólogos e pedagogos.
Site: www.rubemalves.com.br


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