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23/07/2002 - 02h38

A delicada planta da curiosidade

RICARDO BONALUME NETO
da Folha de S.Paulo

Não se sabe se o professor Pardal, o genial inventor e faz-tudo dos quadrinhos de Walt Disney, obteve um doutorado. É provável que não, pois esse personagem, foi baseado no maior inventor de todos os tempos, que só passou três meses em uma escola.

O americano Thomas Alva Edison (1847-1931) inventou ou aperfeiçoou a lâmpada elétrica, o toca-discos, o cinema e o telefone. Ele não inventou propriamente a lâmpada incandescente, mas foi quem fez a primeira que pudesse ser comercializada. Edison aprendeu muito com a mãe, mas, principalmente, lia muito. Era um autodidata e um "self-made man".

Outro exemplo clássico de autodidata é aquele que costuma ser considerado o maior cientista de todos os tempos. Albert Einstein (1879-1955) foi considerado um aluno medíocre no curso secundário. Já com 14 anos tinha decidido estudar o que lhe desse na telha, fora do horário das aulas. Foi expulso de uma escola em Munique, pois "sua presença minava o respeito dos demais alunos pela instituição".

Foi depois para a Escola Politécnica de Zurique, Suíça, mas sua educação, em grande parte, era ele quem escolhia, ao ler os trabalhos dos grandes físicos da época.

"É quase milagre que os modernos métodos de ensino não tenham estrangulado completamente a curiosidade de investigação, porque esta delicada planta, mais do que estímulo, necessita de liberdade, e, se a privam dela, definha e morre", escreveria Einstein anos depois.

Nas ciências ditas humanas é mais fácil achar casos de autodidatas, ou de profissionais que fazem trabalhos importantes à margem das universidades ou institutos de pes-quisa. Nas exatas e biomédicas, é preciso ter acesso a laboratórios para se fazer pesquisa, o que torna hoje quase impossível a figura do autodidata como Edison ou mesmo Einstein.

Um exemplo fascinante foi um dos mais importantes historiadores do império português e do Brasil colonial, o inglês Charles Ralph Boxer (1904-2000), que está sendo objeto de uma biografia.

Ele falava e lia português, espanhol, francês, italiano, alemão, holandês e japonês. Ainda que pouco noticiada no Brasil, sua morte recebeu um longo necrológio no "The New York Times" : "Charles R. Boxer, que foi o principal espião britânico em Hong Kong; um historiador proeminente dos impérios coloniais embora nunca tenha tido um diploma de faculdade; morreu dia 27 de abril em uma casa de repouso a noroeste de Londres. Ele tinha 96 anos".

O que fez esse homem? Continua o NYT: "Suas realizações incluíram desde escrever 330 livros e artigos sobre as origens e o crescimento dos impérios coloniais holandês e português, até ter cátedras em cinco universidades em ambos os lados do Atlântico, e colecionar uma celebrada biblioteca de livros raros".

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