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31/08/2004 - 03h46

Aluno define aprendizado na experiência portuguesa

Alexandra Ozorio de Almeida
free-lance para a Folha de S.Paulo

Localizada a 30 km da cidade do Porto, na Escola da Ponte é fácil ouvir um "não". Não há salas de aula, turmas, séries ou currículo, não existe diferença hierárquica entre professores e alunos e não há espaço para exames finais.

Cris Bierrenbach/Folha Imagem
José Pacheco, diretor da Escola da Ponte, durante visita ao Brasil
A instituição portuguesa baseia seu programa educacional na autonomia e na participação dos estudantes. Alunos definem áreas de interesse e desenvolvem seu itinerário de aprendizado, por meio de projetos de pesquisa individuais e em grupo. À medida que se sente preparado, cada aluno procura o professor, e juntos fazem a avaliação do trabalho realizado.

Toda essa liberdade, entretanto, não é anárquica. Existem regras de convivência e de trabalho, estabelecidas por alunos e professores, e as crianças também determinam os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer as regras. Semanalmente, há uma assembléia da qual todos participam, na qual vale o principio de "uma cabeça, um voto".

A "revolta" da Escola da Ponte teve início em 1976, passados dois anos da Revolução dos Cravos, que derrubou o regime salazarista em Portugal. Sob o comando de José Pacheco, que dirige a instituição até hoje, pais, professores e alunos começaram a construir um novo projeto pedagógico para a escola.

As salas de aula foram extintas, e as atividades passaram a ocorrer em áreas abertas, partilhadas por todos. Pequena, com cerca de 200 alunos, a escola recebe crianças do primeiro e segundo ciclos do ensino básico (de 5 a 13 anos). A partir do primeiro ano, os alunos já constroem seu currículo.

Professores não recebem treinamento específico para trabalhar na Escola da Ponte. Entretanto, são comuns pedidos para sair, tanto de professores como de alunos que não se adaptam.

A escola tem forte articulação com a associação de pais, e o apoio da comunidade é fundamental para sua continuidade. Sendo uma instituição pública, a negociação com as autoridades centrais é permanente.

Quem deu liga às experiências da Emef Amorim Lima e coordenou a elaboração do projeto político-pedagógico da escola foi a psicóloga e colunista da Folha de S.Paulo Rosely Sayão. Dois anos atrás, Rosely começou a assessorar o grupo de pais e educadores do colégio. A idéia de criar um projeto inspirado na Escola da Ponte veio da psicóloga, que visitou a instituição portuguesa no ano passado.

Em fevereiro, a diretora do Amorim conheceu pessoalmente a Escola da Ponte e ficou encantada com o que viu. "Eles reforçam a natureza democrática do conhecimento. As crianças sabem o que têm de fazer, cada uma é responsável por seu projeto. Foge dessa idéia da educação pautada no resultado", afirma Ana.

No mês passado, o diretor da Escola da Ponte, José Pacheco, retribuiu a visita e passou um dia na Emef Amorim Lima. Pacheco enfatizou que o projeto leva tempo e demanda paciência. Ana exibe o livro que ganhou de Pacheco, com direito a dedicatória: "Para Ana, a quem devo o privilégio de ver renascer o sonho".

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