26/10/2004
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03h02
Leia prefácio de "Spawn, o Soldado do Inferno"
da
Folha de S.PauloLeia abaixo prefácio de "Spawn, o Soldado do Inferno: Mito e Religiosidade nos Quadrinhos" (Difusão, 352 págs., R$ 39), de Cristina Levine Martins Xavier, livro indicado no "Caminho das Pedras" do
Sinapse de 26 de outubro de 2004.
Prefácio"O Soldado do Inferno" é um título que chama a atenção: um soldado defende uma pátria que pertence ao Inferno! Sem dúvida é uma história original, onde o real e o fantástico se misturam, e que nos remete a um mundo do qual fomos informados na nossa educação religiosa: o Inferno. Existe ou não existe? Pelo menos no nível da fantasia humana tem seu lugar. A história em quadrinhos Spawn de Todd MacFarlane, ainda em andamento, fala de um jovem estudante que ao terminar seus estudos começa a vida profissional e ingressa no exército; casado e muito feliz com a sua mulher Wanda, se vê envolvido em tarefas cada vez mais escusas da CIA, acabando por ser trapaceado e logo depois assassinado.
Se a revista "Spawn" teve e tem tanto sucesso, não apenas entre os jovens e pré- adolescentes dos Estados Unidos mas também de muitos outros países é porque conseguiu falar a sua linguagem e daqueles que estão sofrendo e buscando algo que dê sentido as suas vidas. Nos submundos das drogas espalhados por todos os países podemos nos perguntar: o que é que o adolescente procura ali? Seu caminho parece ser tão difícil como o de Al Simmons que depois de morto tem que ir até o mais fundo do Inferno e ser transformado num novo ser: o Spawn. Este nome significa algo oposto às cinzas em que tinha virado o cadáver de Al Simmons pois "spawn" em inglês quer dizer "ovas de peixe ou de sapo", portanto nova vida possível, fecunda e múltipla.
Spawn ressuscita de certo modo ao entrar no Inferno, sendo, assim, transformado em esqueleto coberto de pele e carne putrefata. Malebolgia, o chefe de lá, o faz penetrar nas esferas mais profundas do Inferno. Esta visão nos faz lembrar do mundo dos drogados de heroína, cocaína, crack, ópio, pessoas que vivem o inferno da dependência e da perda de seus valores mais fundamentais. O que será que este caminho escolhido por eles tem como meta? Devemos vê-los apenas como "irrecuperáveis" ou será que através desse "Inferno" algo dentro deles, de muito humano e verdadeiro não tenta se manifestar? Será que Spawn irá sempre ser um ser cruel, ruim, destrutivo, nas mãos de Malebolgia? O autor de Spawn sabe muito bem que nenhum jovem irá ler sua revista se não tiver um olhar de esperança sobre o seu "herói" que passa por tantos sofrimentos. Assim pouco a pouco ele permite que Spawn tenha a possibilidade de mudar e virar uma espécie de salvador, um novo eleito.
Não podemos deixar de admirar McFarlane por ter inventado um herói como -Spawn tão parecido não só com o jovem de hoje rodeado não só pelo submundo das drogas, mas também das depressões, dos pânicos, e de ter ao mesmo tempo mostrado que esta dinâmica não é nova. Através da história, desde a pré-história até hoje, o mesmo tema se encontra em inúmeros mitos.
Cristina Levine, neste livro, teve a excelente idéia de mostrar justamente como a história de Al Simmons-Spawn tem seus paralelos nos mitos mais antigos. Ela tem a arte de contar estes mitos de modo muito vivo e mostrar seus paralelos com a figura deste herói em quadrinhos criado pelo McFarlane. Assim, nós entramos no mundo dos mitos do homem de Neerdanthal, dos mitos da Suméria antiga, como por exemplo, a epopéia de Gilgamesh e Enkidu, de Inana descendo aos infernos, para logo mostrar o paralelismo entre Spawn e o mito de Osíris, esquartejado, e recomposto pela sua mulher Isis. Morto, mas de novo vivo, até fecundar a sua mulher que dará a luz ao seu futuro Hórus. Este mito era especialmente celebrado no Livro dos Mortos dos Antigos Egípcios, e nas festas da primavera , momento de fecundação da terra. Mitos da Antiga Grécia como o de Demeter e Perséfone, tinham a mesma idéia de que apesar da filha da deusa da fertilidade ter que passar três meses no Hades, ou no Inferno, ele voltaria sobre a terra, celebrando-se assim sua volta depois de ter estado nos Infernos. Na Divina Comédia de Dante Alighieri, que foi o grande inspirador de Todd McFarlane, a entrada nas diversas esferas do Inferno se mostra necessária para, depois do Purgatório, encontrar a sua amada Beatrice no Paraíso. E esta jornada não pára por aqui. Cristina foi encontrar ainda paralelos da história de Spawn no Mitraismo, no Gnosticismo, nos Templários, na Alquimia , no Judaísmo e no Cristianismo.
Ao se falar de mitos, a figura do Spawn possui todas as características de um herói mítico. O homem moderno tem facilmente um certo preconceito, pois pensa que como o mito não é científico, então não é real! Queiramos ou não, os mitos fazem parte de nossa cultura: os mitos do "paraíso", da "páscoa", do "pecado original", do "deus justiceiro", do "inferno", da "felicidade eterna" etc. Estas imagens e mitos nos vêm sendo transmitidas ao longo de séculos o que demonstra que elas têm seu peso e seu lugar na nossa vida cotidiana. Mas mais do que isso, o tema do herói que tem que lutar é o que mais fundamenta a existência do jovem e do adulto hoje na vida social. O "eu" heróico é cultivado continuamente. Ele pode eventualmente começar por um fracasso, uma morte, um momento de descida aos infernos, como no caso de Al Simmons e, nesta busca por seu caminho, quem não experimentou ou sentiu impulsos para conhecer o lado obscuro da vida? Ele atrai e nos causa medo. Assim, assistimos na TV a cenas de horror de guerras, bombardeios, seres humanos sofrendo de miséria, de feridas, violências sem fim e temos dificuldade de mudar de canal. Algo de nosso próprio lado cruel e vingativo é tocado. A questão é: o que fazer com isso? Talvez surja em nós, ao olharmos por nosso próprio mundo obscuro e sombrio um impulso para viver algo mais construtivo. O ser humano aspira a ser feliz, completo e se sentir "um".
O leitor de Spawn terá certamente muito mais satisfação na sua leitura depois de ter lido o belo estudo de Cristina Levine Martins Xavier. Irá perceber como a história do herói e sua história pessoal têm muito a ver com os mitos que foram celebrados em festas ritualísticas através da história . Uma das grandes contribuições do famoso psicanalista de Zurich, C.G.Jung, assim como de historiadores das religiões como Joseph Campbell, é de ter nos mostrado como os mitos se referem às vivências psíquicas do ser humano. Isso explica porque atraem tanto o adolescente, mas também a criança e o adulto.
Jette BonaventureLeia mais
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