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23/07/2002 - 02h34

Inteligência Coletiva

GILSON SCHWARTZ
colunista da Folha

O Napster é uma forma de inteligência coletiva. O Linux, software livre desenvolvido por comunidades de voluntários, também comprova que estão surgindo novas modalidades de coordenação das ações individuais inspiradas e apoiadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Afinal, a própria internet é um sintoma de que os indivíduos conseguem criar novas formas de organização e, portanto, de inteligência coletiva.

Já temos o hardware e o software, a infra-estrutura e os códigos, regras, protocolos e sistemas para operar uma nova infra-estrutura de tecnologias associadas a fluxos de informação e promessas de que tudo isso levará a mais conhecimento.

No entanto o próprio desenvolvimento da tecnologia de hardware e software bateu de frente, nos anos mais recentes, com limites. Exemplo concreto: as máquinas Xerox tornaram-se tão complexas que os técnicos não têm mais como dar assistência técnica apenas com base no manual de instruções. É que as máquinas desenvolveram "personalidades" (à la "2001 - Uma Odisséia no Espaço"). Elas se comportam reagindo aos usos que lhes são dados. Os técnicos chegam a dar nomes às máquinas. A assistência técnica precisa entender esses usos, e também a comunidade que trabalha com a máquina precisa tornar-se mais humana para que a tecnologia faça sentido.

Impõe-se o "knowware": a prática, a combinação de conhecimento e experiência que se adquire por meios tácitos, pelo convívio com os usuários das máquinas e com a própria comunidade de técnicos que prestam assistência.

A Xerox passou a patrocinar cafés da manhã para os técnicos papearem. O "knowware", no caso, não é um código nem uma ferramenta, mas uma relação social em que o uso da ferramenta ganha sentido, vira compartilhamento de conhecimento.

Ao mesmo tempo, "knowware" é um trocadilho com "nowhere", "lugar nenhum". Onde está esse conhecimento? Está disperso em hábitos e cultura, muito além (espacial e temporalmente) da leitura exaustiva dos manuais de fábrica. É como diz a inscrição que rodeia a torre na praça do relógio da USP (Universidade de São Paulo): "No mundo da cultura, o centro está em toda parte".

Esse conhecimento perde vida se virar apenas um acervo congelado. E apenas a promoção de conexões, em todas as direções e sentidos, como na multiplicação de sinapses cerebrais, torna esse organismo vivo inteligente. No lugar das sinapses dentro de um corpo de um indivíduo, ganha corpo uma organização social cujo grau de inteligência e até potencial de evolução dependem de sinapses entre os indivíduos. É a capacidade de fazer essas conexões que diferencia o humano do animal, não o número de genes em si mesmo.

Essas conexões tornaram-se uma condição necessária (embora nem sempre suficiente) de "empregabilidade" (mais uma palavrinha feia inventada pelos economistas). Quem conseguir criar e ajudar a criar essas conexões será parte de um organismo mais inteligente e com mais capacidade de sobrevivência. No mundo da computação, ganham força os modelos "P2P" ("peer to peer", ou seja, entre pessoas ou "pares"). É o modelo de organização subjacente ao Napster ou ao Linux, mas também a novos mecanismos de busca de conteúdo na internet ou de gestão de conhecimento em governos e empresas.

Mas onde está o "knowware"? O Brasil já dispõe dessa "coisa" que é uma mistura de infra-estrutura, informação e práticas coletivas de produção de conhecimento?

Infelizmente, ainda não. Aliás, no mundo inteiro a corrida pela competitividade passa hoje pela construção dessas redes socialmente inteligentes. Sem elas, o desemprego tende apenas a aumentar, radicalizado por novas formas de exclusão, como a tão falada "exclusão digital".

Na USP coordeno, a partir do Instituto de Estudos Avançados, uma rede com essas pretensões. É a "Cidade do Conhecimento", uma rede de aprendizado permanentemente vinculada a uma das maiores e melhores universidades do país. Se outras universidades, empresas, organizações governamentais e não-governamentais se associarem a uma mesma rede, o país será mais competitivo e haverá mais emprego para todos, em todas as profissões.


Links Relevantes

Cidade do Conhecimento www.cidade.usp.br

Inteligência Coletiva: o conceito www.ddic.com.br/Intelig_coletiva1.html

OpenCola www.opencola.com

     

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