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23/07/2002 - 02h40

Gestão do Conhecimento

GILSON SCHWARTZ
colunista da Folha

"Comunicar é o ato de transportar uma'informação no espaço; transmitir é transportar uma informação no tempo. Claro que para transmitir é preciso comunicar: mas é condição necessária, não suficiente. Esses verbos são irmãos, mas irmãos inimigos."
(Régis Debray, Les Diagonales du Médiologue)
(Transmission, Influence, Mobilité), Bibliothéque Nationale de France, 2001.

A "gestão do conhecimento" é um paradoxo. Afinal, se a produção de conhecimento é um processo criativo no qual interagem múltiplas inteligências, como admitir que exista uma receita para a inovação e, mais ainda, um sistema de controles, mediações e medidas capazes de antecipar o conhecimento que poderá ser produzido?

No entanto, paradoxos desse tipo multiplicaram-se nos últimos anos (capital social ou humano e inteligência emocional são expressões paradoxais também).

Na prática, as organizações tentam se redesenhar para criar ambientes e projetos capazes de fomentar a produção e o compartilhamento de conhecimento. A Cidade do Conhecimento (www.cidade.usp.br), projeto sob minha direção na Universidade de São Paulo, é uma tentativa nessa mesma direção.

O projeto, baseado no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo desde agosto de 2000, está centrado na criação de uma rede de comunicação voltada à produção compartilhada ou cooperativa de conhecimento. Essa proposta foi aprovada pelo Instituto de Estudos Avançados, no final de 1999, como parte das atividades do Grupo de Estudos de Informação e Comunicação.

Entre os desafios essenciais e que devem estar presentes no plano de construção dessa rede de comunicação destacam-se:

1. mudança organizacional: mudança cultural e tecnológica em todas as organizações cujo sentido é a constituição de práticas de produção de conhecimento como requisito para a inovação e a competitividade,

2. convergência e interatividade: embora seja evidente que as novas TICs constituem desdobramentos na história das comunicações (rádio, telefonia, televisão, etc.) e da computação (protocolos, sistemas de armazenamento e processamento, ubiqüidade dos aparatos, etc.), o aspecto mais relevante e ainda em fase de identificação, exploração e criação é o da convergência entre essas várias mídias e suportes tecnológicos sob o signo de uma interatividade sem precedentes, sugerindo até que já nem se trata só de processos de comunicação, mas de novas relações sociais e processos econômicos (ou seja, de criação e acumulação de valor),

3. conhecimento tácito: essas novas relações e processos, centrados na conversão de informação em conhecimento, exigem e estimulam a percepção de várias modalidades ou mesmo novas imagens do conhecimento, com destaque para o que se denomina conhecimento tácito, ou seja, aquele que resulta do processo mesmo de comunicação, nem sempre sendo passível de registro/codificação/explicitação nos moldes cristalizados nas organizações existentes.

A rede que o IEA da USP está construindo enfrenta essas três dimensões simultaneamente. É portanto um esforço interdisciplinar que requer conhecimentos e tem impactos tanto no campo da tecnologia de informação e conhecimento quanto em tecnologias educacionais e em diversas áreas das ciências humanas e sociais aplicadas.

No campo da mudança cultural e organizacional, o maior imperativo é o da constituição de sistemas econômicos e sociais em que se combinam a competição e a cooperação (um termo que vem sendo usado com freqüência é o da "coopetição").

Para alcançar esse tipo de configuração, evidentemente a mudança não pode estar restrita a uma dada organização (uma empresa, uma escola, etc.) mas precisa necessariamente ser sistêmica. É o que se pretende com o uso cada vez mais difundido da noção de redes, em sentido literal e sobretudo metafórico, simbólico.

No caso da Cidade do Conhecimento, a rede em construção procura antes de mais nada propor novas formas de interação entre os mundos da escola e do trabalho, criando conexões entre estudantes de ensino médio, alunos de graduação e pós-graduação e profissionais já atuando no mercado de trabalho.

Considerando que o tema prioritário nessa fase de transição global é o da empregabilidade, a rede de comunicação assim constituída tem como desafio central a promoção de usos socialmente inclusivos das tecnologias de informação. Já em fase piloto, a rede foi testada numa parceria com a IBM, contando com a participação do Instituto Ethos, da Escola de Aplicação da USP, da Estação Ciência, do CDCC (Centro de Divulgação Científica e Cultural) de São Carlos e do Projeto Aprendiz.

Nessa rede, o aluno de ensino médio, graduação ou pós-graduação desenvolve um projeto temático contando com a participação voluntária de um mentor, preferencialmente um profissional já atuando no mercado de trabalho (mas que pode ser também alguém num estágio mais avançado de formação, como um aluno de pós-graduação que assume a condição de mentor de um aluno de ensino médio).

Duas iniciativas complementares têm como objetivos adensar e legitimar a rede entre alunos e profissionais. Na comunidade escolar, o IEA oferece um curso de extensão universitária ("Educar na Sociedade da Informação") sobretudo para integrar à rede as lideranças da comunidade educacional do ensino médio e fundamental (professores, diretores, etc.), com a parceria da Faculdade de Educação e a participação de pesquisadores de várias áreas da Universidade. De modo análogo, está em preparação um ciclo de extensão universitária para as lideranças e técnicos que atuam nos pontos de acesso público à internet (infocentros da rede Acessa São Paulo, do governo estadual, e telecentros da prefeitura municipal de São Paulo).

Nos dois cursos, o que se procura em última análise não é apenas oferecer mais disciplinas e vagas na universidade, mas sobretudo estabelecer novas formas de conexão entre as organizações e a universidade, supondo que as várias comunidades envolvidas precisam mudar de modo simultâneo e interativo. Aliás, também se buscam novas formas de conexão e cooperação dentro da Universidade de São Paulo.

Quando se fala portanto em convergência e interatividade, está em questão não só a dimensão tecnológica da convergência digital e da interatividade online. Trata-se de um processo de convergência social (no sentido de criação de novas formas de cooperação e reconfiguração do contrato social) e interatividade política e institucional (democratizando a produção de conhecimento e promovendo a informação livre).

Esse processo não deve ser restrito às formas estabelecidas de reconhecimento acadêmico (ocorreria inclusão digital, mas com exclusão cognitiva ou epistêmica). Tanto no mundo da administração de empresas quanto no mundo das práticas pedagógicas vem ganhando importância o conhecimento tácito, o que requer que os resultados não se restrinjam às formas convencionais de certificação (monografias, mestrados, doutorados) mas incluam outros registros (depoimentos, imagens, vídeos, relatos, narrativas, eventos, etc.).

É portanto decisivo que as interações entre alunos e profissionais possam contar com o suporte e a perspectiva de produção de resultados em várias mídias. Com isso, o projeto insere-se na guerra contemporânea pela ocupação de territórios virtuais, algo que se poderia legitimamente comparar a uma "reforma agrária do ar" ("ar", no caso, refere-se ao espectro de freqüências eletromagnéticas que constitui patrimônio público e que vem a ser ocupado por meio de concessões cuja distribuição tem sido ferramenta de manipulação política e negociações clientelistas).

O desafio é ampliar os impactos da universidade pública na formação da cidadania, numa época em que ser cidadão ou "estar incluído" são praticamente sinônimos de ter acesso a conhecimento. Mais que ter acesso, aliás, é preciso que cada indivíduo, organização e empresa seja capaz de produzir e gerenciar conhecimento.

O Instituto de Estudos Avançados é a pedra fundamental dessa cidade, nova teia que já conta com o apoio dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil, Valor Econômico e da TV Cultura.

Na USP, a universidade está se mobilizando, de estudantes individuais a entidades estudantis, passando por diretores de faculdades e de unidades especiais, como o Centro de Computação Eletrônica (CCE), a Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) e o CECAE (Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais). Escolas de ensino médio, alunos de graduação e pós-graduação estarão nessa rede voltada à produção coletiva, em praça pública, de conhecimento permanentemente compartilhado.

Podemos ir mais longe: está nascendo um novo "modo de produção" (de conhecimento) em escala global e o país precisa integrar-se a ele com autonomia e capacidades críticas e criativas. Na prática, o desafio é construir comunidades de conhecimento, ou seja, espaços públicos onde se produz conhecimento coletivamente, apontando para a internet e, de modo geral, para as redes como suportes de uma nova era de criatividade empresarial, institucional e política.

As novas tecnologias criam novas possibilidades de vida e novas oportunidades de ação política. O resultado maior que se espera desse projeto é contribuir para a formulação de estratégias e políticas de inserção ativa da economia brasileira no espaço competitivo global, por meio do aumento do grau de inteligência associado ao nosso sistema econômico, político e social.

Link Relevante

Cidade do Conhecimento da USP
www.cidade.usp.br

     

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