21/06/2006
Florianópolis infla e tenta conter onda de paulistas
Alunos de São Paulo ficaram com 15% das vagas da UFSC em 2005 e 2006
Chamados de "haoles" na ilha, universitários motivam pichações e reclamam de hostilidade em aulas, praias, trânsito e vida noturna
THIAGO MOMM
DA EQUIPE DE TREINAMENTO
São cerca de 10 mil novos moradores por ano em uma população que mal ultrapassou 400 mil. Florianópolis infla, e os paulistas se tornam os menos desejados dos forasteiros.
Na principal universidade da ilha, a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), alunos de São Paulo foram 606 e 597 aprovados em 2005 e 2006 _o recorde anterior, de 2004, era de 430 alunos.
Para se adaptar a esse vestibular e ao estilo praiano local, vestibulandos de São Paulo já são 20% dos matriculados em um cursinho no bairro da Lagoa da Conceição.
Canetadas em três portas de um banheiro da UFSC resumem a contrariedade com a "invasão": "Os paulistas são os nordestinos de Floripa", diz um rabisco, respondido com: "Só que eles só dominaram favelas e nós vamos dominar tudo".
Aluna de uma sala a 50 metros dali, a estudante de direito Débora Reparato, 21, não foi apenas acusada de roubar vagas dos vestibulandos locais. Como é de São José do Rio Preto, disse a uma professora que queria viajar com a família no final de ano _por causa de uma greve, a disciplina teria aulas em dezembro. Recebeu a resposta: "Quem mandou você vir fazer faculdade aqui?".
A três quilômetros da UFSC, na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), os alunos de São Paulo dificilmente são mais que dois em uma sala, mas em alguns cursos o sotaque começa a ser sentido _e repelido. Isabela Grotto, 20, que é de Campinas e estuda moda, ouviu na primeira aula da então coordenadora do curso, Icléia Silveira, que "a universidade é paga pelos impostos dos catarinenses, então os catarinenses deveriam ter mais direitos" de estudar nela.
À Folha, a professora Silveira repetiu o argumento e lamentou que o curso de moda tenha chegado a contar com apenas 11 alunos de Santa Catarina em 45 matriculados de uma turma. Mas, sobre abordar o assunto em sala, afirmou que o tom usado é sempre de brincadeira: "Eu digo ‘vamos mandar os gaúchos embora’. Na aula já se vê o sotaque. Aquele sotaque dos paulistas, também".
"Fora Haole"
Outra aluna paulista do curso de moda, que não quis se identificar, teve problemas fora da universidade: estacionou na praia da Armação, no sul da ilha, e o xingamento "haole" foi talhado à chave na porta do carro. A placa é de São Paulo.
O florianopolitano Cristiano, 24, que prefere não revelar o sobrenome, conhece os autores desse tipo de protesto. São integrantes de uma comunidade do Orkut chamada "Fora Haole", criada por ele mesmo e hoje com mais de 2.500 integrantes.
"São caras que, quando vêem um paulista, querem grudar no pescoço, mandar embora", conta. Antes livre, a comunidade agora tem acesso restrito. Cristiano alega que sua intenção é apenas convencer potenciais novos moradores que Florianópolis não é o que se pensa: "Me dou bem com paulistas e gaúchos. Mas daqui a pouco a nossa cidade vai ser só mais uma, e a gente preso no congestionamento".
Os ilhéus mais radicais filiados à "Fora Haole" vendem adesivos e camisetas, picham muros, hostilizam pessoas de fora nas boates e no trânsito. Uma integrante sugere indicar a saída da cidade para aqueles que perguntarem pela direção da Praia Mole. "Dar informação errada ou não ajudar é normal", diz Cristiano.
Todos os seis universitários entrevistados pela Folha que dirigem em Florianópolis com placas paulistas relataram animosidades. A solução, dizem, é usar placa da cidade. Segundo levantamento do Detran local, de abril a junho o Estado de São Paulo liderou os pedidos de transferência.
Para a professora de história de Santa Catarina da UFSC, Cristina Scheibe Wolff, 38, "até existe o conflito com pessoas de outras cidades, mas ele não é ostensivo e não é unilateral".
"Já senti o contrário. Amigos de São Paulo que vieram morar aqui falam que não gostamos de trabalhar, que faltam bons serviços. Mas os paulistas têm hábitos difíceis: constroem um muro de três metros, botam um pit bull dentro."
Atrás das pedras
A inconformidade com os "haoles" se estende ao mar. "Se entre nós surfistas manezinhos já dá problema na água, imagina quando se ouve um ‘bah’ ou um ‘mano’", diz Cristiano. Ele descreve o localismo, atitude hostil de surfistas nativos com "intrusos".
Em Florianópolis, o localismo é freqüente em pelo menos duas praias: Campeche e Joaquina, ambas no sul da ilha.
Na Joaquina, a 20 minutos da UFSC, o universitário Thiago Beviláqua, 21, já ouviu que deveria "surfar atrás das pedras" do costão. No estacionamento da praia, ele teve capas de pranchas roubadas do carro, o que credita ao fato de o veículo ser de São Paulo.
Para o ilhéu Fabrício Machado, 29, que já participou da primeira divisão do surf mundial (WCT) e dá aulas na Joaquina, o localismo acontece em qualquer praia: "São pessoas que surfam há mais tempo, se posicionam melhor e pegam as melhores ondas. É natural que aconteça algum conflito".
Em um sábado ou domingo com ondas propícias, são cerca de 150 surfistas disputando um espaço de 200 metros.
"Discussãozinha"
Na Lagoa da Conceição, caminho para a Joaquina, há conflitos bairristas na vida noturna. "Tem uns maloqueiros que ficam esperando o cara de fora fazer algum vacilo na balada, como chegar em uma mina ou dar um esbarrão, para socar porrada", diz o paulistano e estudante da UFSC Luiz Augusto Fakri, 23, que já morou na Lagoa por um ano e saía sempre à noite no lugar.
Fakri não brigou, mas já se irritou com os florianopolitanos: "Fui a um aniversário e os caras enchendo o saco, botando discussãozinha, dizendo que paulista é otário. Não consegui mais curtir a noite porque queriam provar que aqui é melhor que São Paulo".
O estudante, no entanto, coloca um quinhão da culpa por esse tipo de problema nas pessoas da sua cidade: "Tem muito turista paulistano que é metido, mesmo".
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