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Novo em Folha 42ª turma
14/02/2008

From Russia with Love

da Folha de S.Paulo

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São Paulo, domingo, 16 de dezembro de 2007

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Périplo de cineasta traduz Rússia pós-União Soviética
Alexander Kessel sonhava com o espaço, foi militar e crupiê e hoje trabalha na TV

Apesar de detestar Putin, diretor de "Enquanto ele voava" prosperou sob seu governo e tornou-se retrato bem-acabado de seu tempo

IGOR GIELOW
ENVIADO ESPECIAL A MOSCOU

Alexander Kessel sonhava, como todo garoto soviético que cresceu nos anos 70, ser um cosmonauta famoso. Por razões tão tortuosas quanto a história russa das últimas duas décadas, esse judeu ucraniano com sotaque moscovita não foi ao espaço, mas ironicamente é o cosmos o tema que talvez o torne conhecido.
Kessel atende a porta com um sorriso algo desconfiado no rosto, chinelos e cara de sono. Pede para as visitas deixarem seus sapatos à porta e, depois de arrumar um pouco de salmão defumado com pão e abrir uma garrafa de pinot noir californiano, pergunta: "O que exatamente você quer saber?".
Bem, no restrito círculo do cinema independente russo, ele ganhou fama, mas a reportagem está lá não só por isso. Afinal de contas, "Enquanto ele voava", seu projeto de conclusão do curso da Escola de Diretores e Roteiristas de Moscou, nunca foi lançado comercialmente, apesar de ter ganho dez prêmios internacionais para curtas-metragens desde que foi finalizado em 2006.
Mas é a história de Kessel que atrai: aos 37 anos, ele é um retrato vivo das mudanças que o maior país do mundo vem sofrendo desde que sobreveio aquilo que o presidente Vladimir Putin chama de "o maior desastre geopolítico do século 20", o fim da União Soviética.
"Também queria ser cineasta, é verdade, só que eu levei a sério a minha tentativa de ir para o espaço", conta Kessel. Em "Enquanto ele voava", os desejos se fundem: em 35 minutos de uma narrativa precisa e delicada, é contada uma história alternativa do dia 12 de abril de 1961, quando a União Soviética lançou Iuri Gagarin ao espaço.
O filme enfoca a órfã sonhadora Masha, que ganhou fama ao receber Gagarin com um pote de leite quando ele aterrou em Smelovka, no sul da Rússia. O primeiro homem a ir ao espaço desceu de pára-quedas, tendo abandonado a cápsula no meio do caminho ao solo, um ato de bravura nunca depois repetido.
Tendo mudado aos quatro anos para Moscou, onde o pai russo trabalhava como engenheiro para o governo e a mãe ucraniana cuidava da casa, Kessel era um dos que se impressionavam com a história de Gagarin, mas estava longe do primeiro passo para seu objetivo: a escola de pilotagem da Força Aérea em Volgogrado.
Aos 15 anos, ele completou os estudos secundários e foi para a cidade. Durante dois anos, apesar das boas notas nos exames, não conseguia entrar. A resposta, diz ele, estava em seu passaporte: no item "nacionalidade", estava escrito "judeu", e não "ucraniano".
"Eu nunca quis mudar isso. Sou o que sou." Judeus não tinham muitas chances na terra do comunismo, e 1 milhão de pessoas emigraram a Israel com o fim do país.
Frustrado, Kessel voltou a Moscou e entrou no Exército para poder freqüentar o departamento de ciências espaciais na universidade militar. Novamente, não deu certo: em 1988, aos 18 anos, foi mandado para a antiga Alemanha Oriental.
Havia 380 mil soldados soviéticos naquela que era a linha de frente da Guerra Fria. O grau de prontidão era o maior do mundo. "Estávamos prontos para entrar em ação total em menos de oito horas. Só pararíamos em Paris", conta Kessel, que foi servir como cabo em Rathenow, em Brandenburgo, a poucos quilômetros da fronteira ocidental.
Eram 2.000 soldados no quartel, e Kessel foi treinado para ser comandante de tanque, recebendo o equipamento mais moderno à disposição do Exército Vermelho à época, o T-80. Apenas 15% dos tanques soviéticos eram desse modelo, e quase todos estavam na Alemanha comunista.
"Eu praticamente só estava no quartel para alguma troca de comando e nas eleições, quando tínhamos de votar em algum comissário. Não é muito diferente do que acontece nessas eleições agora", brinca ele, que diz "odiar Putin". No resto do tempo, pilotava tanques.
Kessel não pensava muito no apocalipse -ou algo similar- que aconteceria caso tivesse de executar suas ordens. "Uma vez, estávamos patrulhando a fronteira junto ao rio Elba e vimos blindados ocidentais da outra margem. O que eles pensavam? Nós fazíamos o que nos mandavam fazer."
Kessel estava mais preocupado com as pequenas diversões da vida militar -basicamente, descumprir uma longa lista de proibições. A mais bizarra era a caça ao cervo, abundante em Rathenow, usando como arma o canhão de 125 milímetros do T-80. "Só que, para não destroçarmos o bicho, substituíamos o projétil por um pedaço de pão preto duro. Colocávamos a carga explosiva e o pão. Quando atingia o veado, ele morria com o choque."

Cerveja
O contato com os locais, e principalmente as locais, era outra diversão vetada. Kessel se desculpa e não fala muito sobre a óbvia corte às moças, sob o olhar inquisitivo de sua mulher, Irina, com quem está casado há 11 anos e tem duas filhas pequenas, Bela, 5, e Sophia, 3.
Certa vez, houve um exercício militar em que os soldados ficavam espalhados pelos perímetros, longe dos olhos dos oficiais. Kessel recebeu dos companheiros uma missão arriscada: comprar cerveja com o dinheiro recolhido entre os sentinelas. O problema é que Kessel não falava alemão, apenas uma ou outra palavra. Com isso, "Lebensmittel" (comida) para ele era o equivalente a loja de alimentos, já que em russo elas se chamam simplesmente "Produkti" (produtos).
"Lá fui eu, carregando um rádio enorme com uma antena de dois metros de altura nas costas. Parei numa casa, eram umas 9h, e falei para um velhinho: "Lebensmittel". Ele voltou com um pedaço de pão, provavelmente achando que os russos tratam muito mal seus soldados", ri Kessel.
Ele se fez entender e conseguiu entrar numa loja. Ficou impressionado com a variedades de produtos -a Alemanha Oriental tinha o melhor padrão de vida do bloco soviético. E pelo menos cinco tipos de cerveja. Sem saber qual escolher, pegou as maiores garrafas e botou nos bolsos dez unidades. Voltou ao quartel, quase apanhando dos colegas: era uma cerveja sem álcool para gestantes.
Em 1989, o isolamento da vida militar não lhe dava idéia do rumo da história. "Só sabia que havia uma grande merda acontecendo, mas ninguém nos contava nada e não podíamos ter rádios", diz ele, que só ficou sabendo da queda do Muro de Berlim duas semanas após 9 de novembro daquele ano.
"Só entendi o que acontecia quando vimos um dia um bando de alemães ocidentais passeando de Harley-Davidson na cidade", lembra. Em junho de 1990, seu termo expirou, e ele foi colocado em um avião de carga de volta para casa.
Quando chegou a Moscou, falou com amigos e pensou em virar diplomata. "O Mgimo [sigla russa para Instituto Estatal para Relações Internacionais de Moscou] não aceitava nem mulher nem judeu. Mas novamente eu insisti", disse Kessel, Alex para os amigos mas próximos. Um deles é Ruslan Pukhov, três anos mais novo, que ele conheceu nos cursos preparatórios para tentar entrar no Mgimo.
"Ele era cabeça-dura e acabou conseguindo, o que foi uma surpresa generalizada ou um sinal de que realmente as coisas tinham mudado", diz Pukhov, hoje diretor de um think-tank militar. "Ele já falava em fazer um filme. A gente ironizava: "É, você vai mesmo ser o [Federico] Fellini russo"."
Foram anos difíceis. Na União Soviética, cursar o Mgimo significava vida ganha. Com a desintegração do país, tudo ficou incerto. Durante os seis anos em que ficaram no Mgimo, Kessel e seus amigos tiveram de se virar. "No começo, ganhávamos 40 rublos de ajuda oficial; ao fim, 6.000 rublos. Pouco importa, era sempre o suficiente só para duas refeições ao mês", afirma Pukhov.

Crupiê
A maioria dos alunos ia dar aula de línguas ou trabalhar na Intourist, a estatal de turismo. Mas Kessel inovou: virou crupiê no recém-aberto cassino da rua Novy Arbat. "Ganhávamos o equivalente a US$ 700, mas no fim do mês as gorjetas garantiam cerca de US$ 1.100. Estava rico", conta ele, que estudou alemão e inglês.
O problema é que ele tinha de trabalhar quase a noite toda, e o ritmo dos estudos era puxado. Pagou o preço: quando dormiu pela segunda vez em uma semana sobre a mesa de "blackjack", foi demitido. Era 1994, e ele foi trabalhar como analista no Rossiskie Kredit, o segundo maior dos 2.000 bancos que proliferaram na confusão econômica dos anos Ieltsin. "Ganhava três vezes menos, mas pelo menos não tinha mais olheiras."
Quando deixou o Mgimo, em 1996, encontrou um amigo que lhe ofereceu um emprego de relações-públicas para a Adidas em Paris. Voltou a juntar dinheiro, comprando em 1997 o apartamento em que mora às margens do rio Moscou.
Fez um ótimo negócio. Kessel vive em um prédio cujas áreas comuns lembram as de um cortiço, já que não há administração de condomínios na Rússia. Datado dos anos 30, erguido para a burocracia comunista, o prédio tinha vários andares abandonados. Kessel comprou primeiro um por US$ 110 mil e, depois, outro no andar de cima por US$ 90 mil. Reformou tudo e montou um dúplex que hoje, dez anos depois, vale mais de US$ 2 milhões.
Nessa época conheceu Irina, cinco anos mais nova, e em 1999 começou a trabalhar na ORT, maior canal estatal russo. Era o que chama de "diretor de marketing ativo" -ou seja, levantava dinheiro entre anunciantes. Ganhou o equivalente a US$ 10 mil mensais, durante os cinco anos lá. "Foi quando vi que poderia tentar realizar meu segundo sonho, já que para ir ao espaço iria precisar de mais dinheiro."
Em dois anos, esse fã do polonês Krystof Kieslowski cursou a escola de direção e, com US$ 50 mil do próprio bolso, rodou "Enquanto ele voava". Conhecidos da TV gostaram do que viram e mandaram o DVD para alguns festivais de curta-metragens. Foi um sucesso alternativo, encabeçando a mostra de curtas do Kinovtar, o Sundance Festival russo, em 2006.
"Fui premiado mais recentemente em Teerã. Acho que eles não souberam que eu sou judeu", brinca. "Mas o problema é encontrar espaço para algo independente do Estado."
Nem Kessel nem Irina votaram nas eleições parlamentares de 2 de dezembro, que confirmaram o domínio total de Putin no Parlamento. "Eu só estou esperando o patriarca ortodoxo Alexei 2º vir a público dizer que Putin foi escolhido por Deus e toda a Rússia tem de aceitá-lo como czar. Não consigo suportar isso, embora não possa me queixar muito do ponto de vista prático", afirma o cineasta, lembrando que voltou ao cargo da TV estatal -ganhando o dobro do que em sua primeira passagem.
Cinismo típico da era Putin? "Talvez, mas ainda quero fazer filmes, no plural", despediu-se Kessel, um representante bem-acabado do "zeitgeist" da Rússia do século 21.

São Paulo, terça-feira, 04 de dezembro de 2007

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Kremlin fomenta "juventude putinista"
Com iconografia pop, hierarquia rígida e histórico de agressões, Movimento Nashi prega nacionalismo e idolatra Putin

Grupo, que tem ecos da Hitlerjugend, celebra vitória do partido do presidente nas eleições legislativas com "show" na praça Vermelha

IGOR GIELOW
ENVIADO ESPECIAL A MOSCOU

"O que você está fazendo aqui? Por que está tirando fotos? Brasileiro? Não queremos estrangeiros aqui." Não houve tempo de mostrar a identificação de jornalista, e talvez tenha sido melhor assim, já que se tratava do comício da vitória parlamentar de Vladimir Putin por seus mais fiéis seguidores -o movimento jovem Nashi.
"Os Nossos", em russo, reuniram uma pequena multidão ontem ao pé do Kremlin, na descida da catedral de São Basílio, símbolo seminal da Rússia. Foram 10 mil, segundo os organizadores, mas uma avaliação mais precisa ronda os 5.000. Não há estimativa oficial.
Havia cerca de 500 militares guardando as ruas em volta do "ato da vitória". O Nashi já recebeu da imprensa oposicionista o gentil apelido de Putinjugend, em alusão à Hitlerjugend, a Juventude Hitlerista, e o histórico de agressões atribuídas ao grupo em seus dois anos de existência é grande.
O ato é um show, literalmente. Ao lado de dois cartazes, um com o rosto estilizado do presidente russo, outro com o símbolo do Nashi -uma versão da cruz de Santo André (um dos símbolos russos, em X), em vermelho e branco. No centro, um palco com um telão exibia vídeos de rap russo nacionalista.
"Rússia é nossa, Rússia somos nós." "Nosso país é dos russos." Esses foram alguns dos slogans que a reportagem ouviu antes de ser convidada a deixar o centro da comemoração por um dos "comissários" do Nashi.
A coisa é extremamente organizada: há a multidão com bandeiras, um grupo de cerca de 200 rapazes com jaquetas pesadas vermelhas e brancas organizando tudo e há os "comissários", que usam braçadeiras vermelhas. São os cérebros logísticos e ainda coordenam a distribuição de buttons e de uma espécie de capa vermelha ou branca com o rosto de Putin impresso atrás e palavras de ordem como "Nossa vitória".

Nacionalismo
"Estou aqui porque sou nacionalista. Não quero meu país sofrendo ameaças de fora. Aqui não é a Ucrânia", gritou Vitali, aparentes 20 anos, em mau inglês. Ele e cinco amigos vieram dos subúrbios ao sul de Moscou para o comício, e dois deles disseram estar entre os 100 mil membros oficiais do Nashi.
A referência ao país vizinho não é casual. O Nashi surgiu em abril de 2005 em reação à Revolução Laranja que colocou um governo pró-EUA no comando da Ucrânia em 2004, vista por aqui como o paradigma da intervenção estrangeira que Putin lembra a cada discurso -ontem não foi diferente.
Oficialmente, o Nashi é uma organização "democrática" e "antifascista". É criação de um dos ideólogos do Kremlin, Vladislav Surkov. Ele indicou um líder de movimento estudantil pró-Putin, Vassili Iakimenko, para chefiar o grupo. Dinheiro oficial, não se sabe quanto, alimenta a organização.
Iakimenko é um protegido do Kremlin e, ao modo que Baldur von Schirach foi foi alçado a chefe da Juventude Hitlerista, ganhou neste ano o posto de líder do Comitê da Juventude da Rússia -status de ministro.
O comício durou cerca de uma hora, sob o frio de -7C. "Vladimir Vladimirovitch Putin! Rússia, Rússia, Rússia", gritaram em uníssono os jovens, comemorando os 64% que o partido de Putin recebeu no pleito de domingo para a Duma, a Câmara Baixa.
Às 13h15, os jovens começaram a se espalhar pelo centro de Moscou e, como todos os outros de sua idade, foram buscar abrigo nas passagens subterrâneas e no McDonald's ao lado a praça Vermelha. Questionada se não seria, digamos, antinacionalista comer Big Mac, uma moça de 17 anos chamada Larissa disse, pragmática: "Eu sou membro do Nashi e sei que tem gente lá que não gosta disso, mas não vejo tanto problema".
Outro grupo, no Café Fontana, na praça Vermelha, ouvia uma banda ao estilo dixieland composta de papais-noéis azuis. "Isso é ridículo", disse um rapaz alto, tomando um capuccino a US$ 7, indicando que a composição do Nashi não se limita aos subúrbios pobres.
Além dos skinheads, alvo fascista inicial, o Nashi elegeu como inimigo o Partido Nacional Bolchevique, que está proscrito mas faz parte da frente Outra Rússia, de Garry Gasparov. Seu líder, Eduard Limonov, foi atacado no ano passado.
Ontem, um grupo de jovens enrolado com as capas de Putin tomou a frente do escritório de Kasparov, não longe do Kremlin. Policiais da força de choque Omon estiveram presentes, mas não houve incidentes.
A iconografia e os títulos dentro da organização lembram tempos soviéticos. A jovem guarda do putinismo pode não perceber, mas seu DNA está no próprio website da entidade: www.nashi.su. "SU" é o domínio de internet residual da União Soviética.

São Paulo, terça-feira, 27 de novembro de 2007

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Prisão de Kasparov expõe apatia eleitoral
Em Moscou, oposição minguada e desunida que apóia enxadrista contrasta com bombardeio de outdoors do governo

Capital está tomada por propaganda governista que faz de Putin o foco, embora eleição seja legislativa; não há notícias sobre outro lado

IGOR GIELOW
ENVIADO ESPECIAL A MOSCOU

Um grupo de meia dúzia de apoiadores do enxadrista Garry Kasparov, parado sob a chuva fina e o frio que variava entre 0C e 2C no meio da tarde ontem, em frente ao sinistro prédio da Polícia Criminal em que o líder oposicionista está preso, era o único sinal externo de que há oposição ontem na capital do país que vai às urnas no domingo. Nem a polícia estava presente para vigiar os simpatizantes do campeão de xadrez.
"Estamos esperando notícias da corte", disse Roman, 22 anos, estudante partidário da Frente Cívica Unida -o partido político de Kasparov, um dos 11 que fazem parte do movimento Outra Rússia, uma frente até aqui desunida que se propõe a antagonizar Putin.
Magro, com um casaco de couro preto que lhe dava aparência de um Sid Vicious deslocado no tempo e no espaço, Roman era ontem a cara da oposição russa: perdida num mar de apatia. A corte, como previsto, não libertou Kasparov antes de acabado o prazo "administrativo" a que foi condenado num julgamento-relâmpago.
"Não tinha esperança, agora vou voltar para dar a notícia. Vamos manter nossa vigília", disse à Folha Denis Bilunov, o organizador da manifestação, por celular, no carro, voltando no começo da noite à vigília.
No resto da cidade, a campanha só é reconhecível a quem lê cirílico. Não há fotos de candidatos, exceção feita a um ou outro cartaz do ultranacionalista já não tão raivoso Vladimir Jirinovski, que nos anos 90 ameaçava de "pogroms" contra estrangeiros à Terceira Guerra Mundial. Hoje, lidera o relativamente grande Partido Liberal Democrata, terceira força na Duma (Câmara dos Deputados). Faz o jogo: apóia Putin.
Mas a maioria esmagadora de outdoors é do Rússia Unida. Geralmente são simples frases, sempre evocando o presidente, que só virou líder do partido em outubro. "Vote em Putin", "Moscou vota em Putin", "Apóie o Plano Putin" -essa uma referência a algo que a oposição diz não existir, e o Rússia Unida ainda não disse exatamente do que se trata.
Tudo como se fosse uma eleição presidencial, o que de certa forma está mesmo em curso. Na cédula da lista de votação, ao lado do número 10, há o logotipo do partido e um "Putin" em caracteres ainda maiores.
A propaganda concentra-se no centro, chegando ao ápice num enorme outdoor, sem foto, na lateral do antigo Hotel Moscou. O edifício, construído com duas faces distintas -os arquitetos não teriam entendido qual era a preferida do ditador Josef Stálin e acharam melhor não arriscar-, está coberto de tapumes que viraram outdoors perto da praça Vermelha. Além do Rússia Unida, o outro grande anunciante é a Sony.
"O fato é que a mídia não mostra que há pessoas pensando contra. O principal meio de comunicação aqui é a TV, e as três principais estão na mão do governo. É natural", disse à Folha Elena Panfilova, responsável pela Rússia na organização Transparência Internacional.
Efetivamente, o tema só teve destaque ontem, e com informações incompletas, no minúsculo "The Moscow Times", jornal de língua inglesa e circulação restrita. "Eu acho que o público russo nem sabe, em geral, das prisões do fim de semana. Quando um jornal grande trata do tema, é para chamar de "hooliganismo" por parte dos manifestantes", afirma ela.
Não há previsão de grandes manifestações, sejam elas pró ou contra Putin, nesta semana. Garry Kasparov deverá sair da cadeia na quinta à noite, mas mesmo seu fiel apoiador Roman não sabe dizer se estará lá. "Acho que vamos jogar bola, se não nevar ou chover forte."
Kasparov está detido no número 38 da rua Petrovka, quartel-general da Polícia Criminal desde os tempos soviéticos, atrás do famoso teatro Bolshoi. Lá foi reinstalada em 2005 uma estátua de Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, o serviço secreto que deu origem à KGB e ao atual FSB.
Mas a estátua é modesta. Sua versão de 16 toneladas, que foi derrubada ali perto, na frente da sede da KGB na praça Lyubianka, está num parque temático de relíquias soviéticas.
A da Petrovka é quase invisível, ainda mais perto das lojas reluzentes do Petrovsky Passaj, um shopping de ultraluxo lá perto. Uma discrição adequada aos tempos atuais.

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