25/02/2008
Por que sou contra esse tipo de trote
Quando entrou para o programa de treinamento da folha, a senhora era uma agrônoma recém- formada. Como surgiu o interesse pelo jornalismo?
Gostava de jornais como leitora. Amigos me diziam que eu tinha jeito. Resolvi arriscar. Tive sorte, acho que deu certo.
Agora como responsável por esse processo,como é a sua relação com as pessoas que participam do programa de treinamento da Folha?
O que você gostaria de saber exatamente quando pergunta "como é sua relação"? É uma pergunta um pouco ampla, por isso não sei bem o que responder.
Há quanto tempo a senhora é jornalista?
Há 20 anos.
No blog existem vários exercícios, que estimulam o leitor demonstrando as situações diversas do jornalismo.Você com certeza já passou por alguma situação semelhante a dos exercícios. Como foi a 1ª dessas situações?
Sim, já passei por muitas. Eu até usei um dos meus primeiros erros como exercício, neste post (http://novoemfolha.folha.blog.uol.com.br/arch2007-05-13_2007-05-19.html#2007_05-17_08_57_43-11540919-29)
Quando a senhora cursou jornalismo na Universidade de São Paulo, a senhora participou de algum trote?
Não. Não houve trote na faculdade de jornalismo.
O que a senhora acha dos trotes aplicados nas universidades paulistas? E qual seria a melhor forma de integração entre veteranos e calouros?
Antes de mais nada, é claro que quem entrou na faculdade está superfeliz e quer comemorar e divertir. O motivo é ótimo e os calouros têm todo o direito do mundo de fazer festa.
Não posso falar assim, no geral, dos "trotes aplicados nas universidades paulistas", porque não conheço todos. Como você sabe, sou contra um tipo de trote aplicado todo semestre por alunos do Mackenzie: o de arrastar pela rua alunos sujos de tinta que pedem dinheiro nos semáforos.
Há vários motivos, que têm gradações diferentes. Vou colocá-los em ordem de importância:
1- é um trote que atrapalha os outros. Fui testemunha de um momento em que os estudantes e veteranos impediam que uma motorista seguisse em frente. Ela estava muito nervosa, com o filho doente no carro. Esse foi um fato, recente, que está fresco na memória. Mas todo semestre vejo situações parecidas, e tenho muitos relatos de gente que é incomodada ou prejudicada pelo trote.
Por mais felizes que os alunos estejam, nada justifica que eles atrapalhem os outros. O direito à diversão, que eles com certeza têm, acaba quando eles começam a afetar outras pessoas.
É como as brigas provocadas pelas torcidas organizadas, por exemplo. Mesmo que todos estejam muito contentes esmurrando-se uns aos outros, eles não têm direito de fazer isso num estádio em que outras pessoas podem se machucar ou ter seu passeio prejudicado.
2 - é um trote que danifica o espaço público. Passe hoje pela ilha da av. da Consolação, na esquina com a dona Antônia de Queiroz, e veja como ficou a calçada. Está manchada de tinta até hoje. Quem vai limpar? Por que alguns veteranos do Mackenzie acham que têm o direito de manchar o chão da cidade? O mesmo acontece na esquina da Angélica com a Maranhão. Nessa esquina, no dia seguinte ao trote, além das manchas havia muito lixo no chão (a maioria era garrafa de bebida). Por que alguns alunos se sentem no direito de sujar a cidade?
Só por esses dois motivos, acho que o trote não se justifica, mesmo que todos os que estivessem participando dele fossem voluntários. Veja que nem entrei, até agora, na questão de os alunos serem ou não forçados a participar. Mesmo que nenhum deles se sentisse coagido, mesmo que todos estivessem lá porque querem, nada justifica as atitudes que eles tomam no trote e os dados que essas atitudes provocam.
3 - O trote põe os alunos em risco. Acho que nem preciso explicar este, certo?
Isso quer dizer que, se os alunos do Mackenzie fizessem exatamente o mesmo trote sem estragar a cidade, sem atrapalhar os outros e sem expôr os alunos ao risco eu seria a favor? Não, porque, do jeito que ele é feito hoje, há um quarto problema, na minha opinião:
4 - O trote é intimidatório. Alunos contam que são coagidos, para dizer o mínimo, quando não forçados a participar. Veteranos jogam tinta neles, impossibilitando que eles assistam às aulas. Eles são tratados de forma desrespeitosa, autoritária, alguns são humilhados. Qualquer um que tenha assistido ao trote sabe disso, seria muita hipocrisia dizer que não é assim.
Mesmo que a maioria dos novatos realmente gostasse desse tipo de trote (e duvido que goste), se um deles, um único, for forçado a participar, já está errado.
A gente tem que estar consciente de que a intimidação moral, embora mais sutil, é tão violenta quanto a física. É fácil lavar as mãos e fingir que não está acontecendo nada. Mas isso perpetua o problema. Eu acho que a comunidade universitária deveria falar mais sobre este assunto, porque é uma questão cultural. Por isso, as coisas só vão mudar se forem discutidas, se os argumentos forem colocados sobre a mesa, se houver debate honesto e medidas concretas para a mudança.
É como fechar o cruzamento. Há alguns anos, isso era normal em São Paulo. Nenhum motorista ficava constrangido de fechar o cruzamento ou parar em cima da faixa. O "normal" era fazer isso, e os outros que se danem. Em poucos anos, a mentalidade das pessoas mudou, e o que era antes aceito passou a não ser mais.
A mesma coisa está acontecendo com a reciclagem, o desperdício de papel, o uso indiscriminado de sacolas plásticas etc. Com o tempo e o debate, algumas atitudes antes toleradas passam a ser questionadas, e isso é bom.
Quando eu escrevi aquele post no meu blog, a Folha Online fez uma enquete sobre o trote. Como é enquete, só reflete a opinião de quem votou. Não pode ser generalizada para toda a população. Mas o número de votos foi grande: quase 6.000. E, destes, 91% foram contra o tipo de trote que eu condenava no post. É uma maioria esmagadora. Foram 44% contra qualquer modalidade de trote, e 47% a favor dos chamados trotes alternativos --doação de sangue, serviços comunitários etc.
Isso mostra que uma parte da sociedade está bem consciente de que trotes como os que nós vemos perto do Mackenzie todo começo de semestre incomodam à maioria. Talvez esteja na hora de falar mais sobre isso. De não encarar mais esse comportamento como "normal". Como bacana. De mostrar para quem organiza esse tipo de coisa que o que eles fazem prejudica os outros, é algo de que eles deveriam até se envergonhar.
E deveriam se envergonhar, na minha opinião, por esses motivos que eu listei: porque avança sobre o direito dos outros de andar pela cidade, porque suja e estraga a cidade, porque expõe os alunos ao risco e porque é intimidatório e coercitivo.
Para mim, também é impossível dizer que a maioria dos bixos gosta do trote, simplesmente porque eles não têm opção. Ninguém deixou que eles escolhessem que tipo de festa eles gostariam de fazer para comemorar a entrada na faculdade. É óbvio que os bixos querem conhecer gente, se divertir, fazer amigos, tomar um chopp.
Quem não quer?
Mas proponho um teste: os veteranos que fazem esses trotes de pedágio poderiam ficar dentro de uma sala, com suas tintas e garrafas de pinga. Na porta da sala, uma placa explicaria aos bixos que quem entrasse lá dentro levaria um banho de tinta, seria levado em fila pela sala de um lado para o outro, teria que pedir dinheiro pelas janelas da sala a quem estivesse passando pelo lado de fora e poderia beber à vontade.
Numa outra sala, outros veteranos poderiam organizar uma balada normal, com música, cerveja, conversas etc.
Em qual das salas você acha que os calouros gostariam de entrar?
Pra resumir, então, se os alunos do Mackenzie quisessem se encher de tinta num lugar fechado, sem atrapalhar os outros, que eles fossem limpar depois, por mim, tudo bem, desde que só entrasse nesse lugar quem quisesse. Os veteranos teriam que ficar todos lá dentro esperando, não poderiam ir buscar ninguém do lado de fora.
Eu, pessoalmente, acho que há centenas de maneiras mais bacanas de se divertir, mas cada um tem o seu gosto, certo?
No último dia 13 de outubro a senhora colocou um post no blog novoemfolha,com o seguinte título: Reaja contra os animais. Por que a utilização do termo animais?
Na hora, estava pensando no sentido figurativo da palavra animais. Se você olhar lá no dicionário, vai ver que o termo significa gente ignorante, estúpida, desumana, cruel. E eu vi esses defeitos no trote.
Vários leitores ficaram com pena da comparação. Disseram que os animais não tem culpa, que eles não fazem esse tipo de barbárie (risos). Mas estava pensando mesmo no significado simbólico, estava querendo dizer que aquelas atitudes não são civilizadas.
Sei que é uma palavra forte, mas meu objetivo era chamar a atenção das pessoas para o debate. Como disse na resposta anterior, para mudar a cultura, é preciso levantar a voz. Não quer dizer que eu tenha a verdade absoluta sobre tudo. De jeito algum. Alunos escreveram para o meu blog, contra ou a favor das minhas idéias, argumentando, e eu respeito isso. O que eu acho importante é estimular a discussão. Reprovar mas ficar quieto no seu canto não adianta nada.
A senhora começou o post com a seguinte frase "Todo começo de semestre o caminho para minha casa fica deprimente.". Quando escreveu esse texto a senhora baseou-se na sua profissão de jornalista ou,o escreveu como moradora da região?
Não me baseei em nenhuma das duas coisas. Apenas expressei minha opinião. O fato de ter que passar por aquela região para ir para casa, claro, afetou essa opinião, mas os motivos pelos quais eu sou contra esse tipo de atitude independem disso, como independem de eu ser jornalista. Acho esse tipo de trote deprimente, mesmo, idependentemente de qualquer coisa.
O texto não é, obviamente, uma reportagem. É um comentário, publicado num blog, não num jornal. O blog é um espaço que permite esse tipo de texto mais subjetivo, com mais opinião. Mesmo assim, o meu blog não é um espaço "pessoal". Procuro sempre tratar de aperfeiçoamento profissional, de como fazer melhor jornalismo.
Então, naquele post, o que eu queria era despertar nos futuros jornalistas indignação contra esse tipo de atitude autoritária. Queria dizer para eles que eles não precisam se submeter a isso. E mais, que não deveriam participar desse tipo de coisa, porque o jornalista (como qualquer profissional) deve estar a serviço do público, não atravancando a vida dos outros.
Esse texto foi o que recebeu mais comentários. A que a senhora atribui essa situação?
Ele não foi o que recebeu mais comentários.
De qualquer forma, acho que os comentários se devem ao fato de que era um assunto sobre o qual as pessoas tinham opinião. Era polêmico.
É mais emocionante falar sobre trote que sobre lides, não é?
Uma aluna do mackenzie que entrevistei disse que a senhora escreveu sobre o trote sem presenciá-lo por inteiro, que viu um caso isolado e generalizou a situação. O que a senhora diria aos alunos que pensam como ela?
Um caso isolado já merece ser reprovado. Ou essa aluna acha que um veterano pode maltratar um calouro porque é "só um caso isolado"?
Mas não vi só um caso isolado. No blog, falei de pelo menos quatro episódios: a mãe que não conseguia passar, o estrago feito na calçada pública, o lixo deixado na rua e os gritos e humilhações (estudantes obrigados a se ajoelhar, por exemplo).
Também escrevi que presencio episódios semelhantes todos os semestres. Além dos que já vi, tenho dúzias de relatos de conhecidos que viram situações semelhantes. O filho pequeno de uma amiga minha tem pânico de gente pintada por causa de um susto que passou num dia de trote.
Sua amiga pode conversar com os moradores da região e perguntar o que eles acham. Ouvirá dezenas de relatos semelhantes e verá que não se trata de um caso isolado.
Tanto não é que até estudantes que participaram do trote escreveram para dizer que "outras faculdades também fazem, e fazem coisas até piores".
Só para reforçar, não se trata de uma crítica ao Mackenzie nem aos alunos em geral. Adotar essa posição é desviar o foco da questão, e passar a defender uma atitude errada, procurando todo tipo de argumento contraditório, só por se achar pessoalmente atacado.
Muitos dos comentários são de alunos que passaram por essa experiência e relatam terem se divertido muito. Mas alguns passam dos limites, um deles faz uma ameaça que foi aceita como comentário. Por que a aceitação e como a senhora reage a essas situações?
Eu jamais deixaria de publicar um comentário porque ele tem opinião contrária à minha. É um direito dos leitores. Não vejo problema algum.
Como eu disse, meu objetivo era abrir a discussão. Tenho minha posição sobre o assunto, sobre a qual refleti antes, e que é baseada em argumentos (que expus nesta entrevsita). Mas não tenho a pretensão de ter a verdade absoluta sobre nada. Estou aberta à argumentação dos outros. É só assim que as coisas avançam. Se eu não aceitasse argumentação contrária, estaria agindo exatamente como as pessoas que critico: de forma autoritária.
Sobre a ameaça, você vê que coisa curiosa? A pessa que me ameaçou estava justamente corroborando meus argumentos!! É desse tipo de comportamento que estou tratando: intimidatório. E, neste caso, covarde (porque não se identifica). Talvez até ingênuo, não é? Porque não percebeu que, ao me ameaçar, apenas dava razão ao meu texto.
Falando sobre os comentários, é bom aproveitar para deixar uma coisa clara: não tenho nada contra o Mackenzie nem contra os alunos do Mackenzie. Não fiz um post para atacar o Mackenzie, mas para criticar uma atitude incivilizada. Alguns leitores se sentiram pessoalmente prejudicadas e usaram o argumento de que "em outras universidades é pior". Mas, gente, erros piores não justificam erros menores. E o fato concreto de que estou falando, que é real e que realmente tem problemas, envolve os alunos do Mackenzie --infelizmente, para o resto dos alunos, talvez a maioria, que não tem nada a ver com a história.
Em maio deste ano, alunos da USP tomaram a reitoria e paralisaram os serviços por mais de 51 dias.Na ocasião eles batiam em câmeras e jogavam água em alguns jornalista,os alunos também proibiam os funcionárias de entrarem no prédio.Isso provocou mudança nos itinerários de ônibus e prejudicou a vida de um número significante de pessoas que precisavam ir à outro lugar ou que só tentavam voltar para casa. No fim organizaram uma passeata que furou um bloqueio da PM..Ao desocuparem o lugar a reitoria registrou furtos. Esse tipo de reivindicação é válida, o caos não foi maior que o causado pelos trotes?
Não vejo sentido em comparar os dois casos, que são totalmente diferentes.
Sem compará-los, portanto, te digo que sou contra violências de qualquer tipo.
A senhora já foi repórter, redatora, editora-assistente, editora, secretária-assistente de Redação. Qual dessas áreas a senhora aconselharia um estudante de jornalismo a integrar? Cada um traz uma experiência nova ou no jornalismo tudo é basicamente igual?
Cada uma traz uma experiência nova, claro. Acho que quanto mais funções um estudante puder experimentar, melhor.
A senhora acha que o jornalismo é democrático?
Pergunta ampla, não? O que exatamente você gostaria de saber?
Quai as vantagens e desvantagens de ser jornalista no Brasil?
Outra muito ampla. O que é "ser jornalista no Brasil"? Em que função? Em que veículo? Em que cidade? Impossível responder assim no geral.
O que a senhora tem a dizer aos jovens que cursam jornalismo?
Não sei se TENHO algo a dizer. Mas gostaria de dizer que a possibilidade de fazer jornalismo de qualidade, de ser feliz na profissão, está nas mãos de cada um de vocês. Dá trabalho, exige investimento de tempo e de energia, mas, se vocês estiverem realmente decididos, se gostarem realmente do jornalismo, basta se dedicarem. Leiam muito, acompanhem bem os jornais, não percam as chances que tiverem de praticar, peçam correções, críticas e orientação aos professores, persistam. Depende muito, muito de cada um de vocês.