04/12/2004
Dormir pouco pode ajudar insone a dormir melhor
Remédios apenas não curam o transtorno; especialistas sugerem técnicas e terapias
MARCELO SALINAS
Da equipe de trainees
Cansado da insônia que o perseguia havia 30 anos, o analista financeiro Thomas Tevjovits, 38, resolveu procurar ajuda. Durante um ano, tratou-se com remédios para dormir. O sono veio, mas ele não queria ficar dependente dos medicamentos. Bastava ficar uma noite sem eles para que o problema voltasse.
Decidiu abandonar as pílulas e, encorajado pelo médico, tentou uma terapia pouco conhecida: passou a se esforçar para dormir menos do que dormia normalmente. "Antes de tentar o tratamento terapêutico ou com remédio, eu ia dormir à 1h e só pegava no sono lá pelas 4h, para acordar às 7h da manhã", afirma.
A orientação era para que ele só fosse para a cama quando fosse dormir de fato --às 3h ou 4h-- e saísse às 7h, mesmo que só tivesse conseguido cair no sono às 5h.
Em dez dias, depois de muito sofrimento e uma mudança de hábitos, conseguiu pôr fim ao problema da insônia. "Fiquei três dias sem conseguir dormir nada. No quarto dia, dormi quase quatro horas. A partir daí, a situação foi melhorando. Hoje, durmo à 1h e acordo às 7h", diz Tevjovits.
Em termos gerais, a idéia da terapia de privação do sono --como é conhecida-- é a de limitar o tempo passado na cama para que a pessoa acumule cansaço e tenha sonolência mais cedo.
Segundo o psiquiatra Orestes Forlenza, do Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, "a técnica é eficaz, mas requer disciplina e bom senso. O paciente tem de estar engajado na resolução do problema, o que nem sempre acontece".
Como tratar
O caso de Tevjovits ilustra a afirmação de médicos e psicólogos de que o uso de remédios não é a solução definitiva para o problema, apesar de ser eficaz para amenizar temporariamente o sofrimento de quem não consegue dormir.
Para que o tratamento seja adequado, é preciso diferenciar a insônia primária daquela causada por transtornos em que a insônia é apenas sintoma de um problema físico ou psiquiátrico maior, como depressão, ansiedade, reumatismo ou dores crônicas de cabeça ou no corpo.
Cerca de 80% dos casos se originam desse último diagnóstico, segundo o psiquiatra Marcelo Feijó, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
De acordo com o especialista, quem tem insônia primária pode curá-la com medidas de "higiene do sono" (leia quadro no alto desta página), isto é, com uma mudança nos hábitos que agravam e acabam reforçando o problema. Esse tipo de paciente, em geral, não precisa de remédios, mas pode utilizá-los durante um período limitado. "É mais prejudicial ficar sem dormir, ansioso, do que sem medicamento", afirma Feijó.
O médico, porém, faz uma ressalva: "Deve-se evitar o uso prolongado de indutores do sono [hipnóticos] ou de sedativos [ansiolíticos], pois podem provocar dependência".
Terapia cognitiva
Outra terapia indicada para o tratamento da insônia é a cognitivo-comportamental, que trata uma das maiores causas do problema, a ansiedade.
O objetivo é fazer com que o insone se livre de comportamentos e pensamentos que o deixam ansioso, como, por exemplo, ir para a cama pensando nos problemas que tem de resolver depois de acordar.
De acordo com Flávio Alóe, neurofisiologista do Laboratório do Sono do Hospital das Clínicas, é comum o paciente culpar-se por não conseguir dormir ou apresentar idéias irracionais sobre o sono, como achar que passará mal no dia seguinte ou que terá um colapso nervoso caso não durma. "A terapia visa a eliminar esses vícios cognitivos. Apesar de ser mais lenta para gerar resultados, mantém efeitos mais duradouros que a farmacoterapia [tratamento à base de remédios]", afirma o especialista.
Para o psicólogo americano Joshua Fogel, do Instituto de Estudos Comportamentais da Universidade Nova York, a terapia cognitivo-comportamental é eficaz e tem a vantagem de não apresentar efeitos colaterais, como os medicamentos. Mas, segundo disse à
Folha, "não é muito prática, pois nem todos os pacientes estão dispostos a se submeter a dois ou três meses de terapia semanal, apesar de, em alguns casos, os resultados aparecerem rapidamente, em duas ou três sessões".
Quem, há mais de um mês, sente dificuldades para pegar no sono ou acorda no meio da noite e não volta a dormir deve procurar um médico. A insônia crônica causa irritabilidade, estresse, tensão e cansaço, prejudicando o rendimento físico e mental.
NA INTERNET - O Hospital das Clínicas (www.hcnet.usp.br/ipq/ipq.htm) e o Instituto do Sono da Unifesp (www.sono.org.br) oferecem consultas gratuitas pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas há fila de espera