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22/10/2007

O NYTimes vê Tropa de Elite

do New York Times
tradução: Clara Torres

Este texto ilustra post do site Novo em Folha. Reprodução proibida

Uma Violenta Unidade de Polícia, no filme e nas ruas do Rio.
By ALEXEI BARRIONUEVO Publicado em 14 de outubro de 2007

RIO de JANEIRO, 13 de outubro - Para Antônia Dalva de Souza, 32 anos, o novo filme retratando a guerra violenta entre os traficantes de drogas do Rio e um esquadrão de elite da Polícia Militar acontece muito próximo à sua casa.

Sua casa no morro, com frágil e oca parede de tijolos, foi crivada de balas este ano pela polícia. Uma cicatriz redonda em seu antebraço é resultado de uma bala disparada em recente batida policial, diz ela. Outra bala perdida matou sua filha Joyce, de cinco anos, em 1995, que dormia ao lado de sua cama. Ela suspeita que a polícia foi responsável pelo disparo. "Eles chegam atirando", afirma ela. "Meus filhos rastejam para baixo da cama quando o tiroteio começa".

Moradores da favela Vila Cruzeiro, uma das mais violentas do Rio, dizem que desde mês passado vivem sob o cerco dos homens de preto e com boina do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Estadual, mais conhecidos pelos brasileiros como BOPE. Os membros do Batalhão andam em veículos fortemente blindados que sustentam o símbolo do pelotão, um crânio e pistolas atravessadas, ou a pé, movendo-se de modo apavorante e com a velocidade e eficiência de um gato.

Como aparentemente qualquer outro morador do Rio, Antônia Dalva de Souza já viu "Tropa de Elite," ou "Elite Squad," o novo drama brasileiro baseado no BOPE, divisão da polícia que tem a tarefa de combater os traficantes de drogas da cidade.

O filme, que estreou nacionalmente na sexta, mas semana passada no Rio e em São Paulo, tem oferecido uma rara visão de dentro do batalhão, retratado como uma divisão de policiais que mata e tortura, aparentemente à vontade. Tropa de elite está levando muito brasileiros a refletirem até que nível de violência é aceitável por parte da polícia, especialmente no Rio, uma cidade com taxas de homicídios seis vezes maiores do que Nova York.

A tortura é particularmente apresentada no filme como um aspecto constante da violência urbana no Brasil, com oficiais da polícia e traficantes competindo para quem excede mais a escala da brutalidade.

Antes mesmo do sucesso nos cinemas, "Tropa de Elite" já estava a caminho de se transformar em um dos maiores filmes brasileiros. Uma versão do DVD pirateada foi vista por aproximadamente onze milhões e quinhentas mil pessoas, de acordo com levantamento do IBOPE.

Os esforços da Polícia do Rio em manter o filme fora dos cinemas falharam. Na quarta-feira um coronel da polícia envolvido no BOPE exigiu que José Padilha, o diretor, prestasse depoimento na segunda-feira. Padilha disse que isso era parte dos esforços da polícia para arrancar dele quais oficiais teriam ajudado a produzir "Tropa de Elite". O governador do Rio Sérgio Cabral aconselhou o diretor a ignorar a intimação. "A polícia está tentando perseguir todos os que trabalharam no filme", afirmou o diretor.

Nenhum filme causou tanta agitação aqui desde "Cidade de Deus" (2002), um aclamado olhar das favelas do Rio sob a perspectiva dos traficantes de drogas. "Tropa de Elite" tem agitado quase todo mundo que o tem visto, sugerindo, por exemplo, um debate sobre se o uso de drogas pelos ricos e classe média da cidade seria o principal responsável pela guerra na cidade.

O filme traça a história verídica da Operação Santidade efetuada em 1997 pelo BOPE para exterminar gangues do tráfico da favela próximo à casa do Arcebispo do Rio. A tarefa do BOPE era tornar a área mais segura para uma breve visita do Papa João Paulo II.

Durante os quatro meses de operação, o BOPE matou 30 pessoas e prendeu 30, incluindo dois reis do tráfico, segundo Rodrigo Pimentel, um antigo oficial do BOPE que liderou a operação e é co-autor do livro que inspirou o filme. Pelo menos dois espectadores estariam entre os mortos.

Naquela época, o BOPE tinha por volta de 120 membros e era considerado como um esquadrão de oficiais honestos. A força cresceu e hoje tem mais de quatrocentos homens e sua reputação de ser incorruptível está desaparecendo.

Mas sua reputação de brutal é quase inquestionável. Em uma cidade repleta de crimes violentos, o protagonista fictício, Capt. Roberto Nascimento tem sido visto como herói por muitos aqui pela sua crueldade e seu estilo mortal em apanhar criminosos.

Isto não é diferente do modo como tem crescido a admiração dos americanos pelo Agente fictício Jack Bauer do seriado 24 horas, cujo estilo "sem regras" atinge uma sociedade impaciente em ver acabar as ameaças do terrorismo. Ambos os homens não vivem em situação fácil. Capitão Nascimento, interpretado pelo ator Wagner Moura, sofre de arrebatadores ataques de pânico a luta para separar o negro mundo violento de sua vida familiar.
O Capitão e seus homens incessantemente esbofeteiam suspeitos e cobrem suas cabeças com sacos plásticos até que eles cuspam sangue.

"Põe na conta do papa" ("Put it on the pope's tab"), o Capitão respondia quando um dos companheiros do esquadrão perguntava se podia "terminar o serviço" em uma vítima de tortura. "Isso era o que os membros do BOPE muitas vezes falavam durante a real operação", segundo Pimentel.

Reações positivas à índole do Nascimento podem ser vistas nas mais diferentes classes: "Ele traz segurança para as pessoas ricas e da classe média", disse Aletea de Souza, uma personal trainer, após assistir uma sessão no domingo no Leblon, um dos bairros mais ricos do Rio. "Não posso dizer que ele é um herói, mas ele é uma barreira entre o bem e o mal".

Na Vila Cruzeiro este tipo de atitude criou a preocupação de que o filme esteja glorificando o BOPE. "É um filme perigoso"," disse Nanko G. van Buuren, diretor do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social, uma ONG que fica na favela. "O BOPE está torturando e matando e isso não está certo". Crianças na favela estão vestindo preto e brincando de representar as sessões de tortura, colocando sacolas de plástico sobre as cabeças dos amigos, ele afirma.

Padilha disse que a reação, "olho por olho, dente por dente", de muitos brasileiros o surpreendeu. Ele disse que decidiu fazer o filme para denunciar a violência e a tortura. Wagner Moura, o ator, disse que pensou que seria "impossível que pessoas na Finlândia ou na Suécia vissem policiais como heróis, policiais que torturam e matam", enquanto muitos brasileiros claramente respeitam o Capitão Nascimento.

Pimentel, que pediu demissão do BOPE em 1998 após seis anos na ativa, acredita que o filme chega num momento em que os cariocas se sentem ultrajados pelo excesso violência na cidade. Em particular por um caso que chocou o país: a morte em fevereiro desde ano de João Hélio Fernandes, 6 anos, que foi arrastado por quilômetros preso ao cinto de segurança, após dois menores roubarem o carro de sua família sob a mira de uma arma.

Pimentel disse que se desiludiu com o BOPE após a Operação Santidade. "A polícia tinha esquecido sua principal missão,", ele disse. "Nós não estávamos lá para servir e proteger. Nós estávamos lá apenas travando uma guerra particular contra os traficantes".

Mery Galanternick and Joshua Schneyer contributed reporting.

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