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29/10/2007

TRÊS ARGUMENTOS FORTES

da Folha de S.Paulo

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São Paulo, domingo, 28 de outubro de 2007

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OPINIÃO

Estatísticas não são programa de governo
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Se é o caso de seguir os "conselhos" dados pelo economista Steven Levitt e o jornalista Stephen J. Dubner, autores do livro "Freakonomics", então pais que têm piscina em casa deveriam aterrá-las e comprar uma arma. É que é mais provável que uma criança se acidente no primeiro lar do que no segundo, afirmam os autores.
Estatísticas são estatísticas, não têm moral, coração nem afiliação política. "Freakonomics" não foi batizado com esse título por acaso. "Freak" quer dizer estranho, bizarro, em inglês, não norma, regra. O livro foi feito para mostrar como é possível arrancar histórias curiosas de números complexos, se você escolher muito cuidadosamente tanto as primeiras quanto os segundos.
Sim, está lá, baseado em estatísticas: a legalização do aborto em 1973 coincidiu com o início da queda na criminalidade dos Estados Unidos duas décadas depois. "Coincidiu" não é igual a "provocou", necessariamente. Vinte anos depois da decisão da Suprema Corte, Nova York sofreu a maior nevasca de sua história, e o seriado cômico "Friends" estreou na televisão.
Nenhum dos dois eventos foi causado pela ausência de filhos indesejados nos bairros pobres e de maioria negra de Chicago, aparentemente. Quando entrevistei Levitt em 2005, o economista já havia alertado que a intenção de seu livro era contar bons casos, transformar teses impenetráveis em artigos palatáveis para o leitor comum -não fazer programa de governo para brasileiros.
(Na entrevista, Levitt daria uma resposta que ecoaria involuntariamente na fala da semana passada do governador Sérgio Cabral: "Eu adoraria fazer uma pesquisa sobre o crime em algumas áreas do Rio de Janeiro em que a presença da polícia é inexistente, mas nunca consegui encontrar dados suficientes para trabalhar".)
No caso do aborto legal = queda da criminalidade, críticos da ilação apontam duas falhas. A primeira é não levar em conta o ciclo virtuoso de crescimento econômico que começou mais ou menos na mesma época e que garantiu o sucesso dos dois mandatos de Bill Clinton -há até quem diga que o presidente democrata deu sorte, pois pouco importava quem estava à frente do país, a economia cresceria do mesmo jeito, como continua fazendo com George W. Bush também há dois mandatos.
A segunda é não levar em conta a política de tolerância zero implantada na mesma época pela polícia de grandes cidades como Nova York, o que teria ajudado a reduzir o índice de criminalidade e colocado o resto do país num "efeito cascata" que dura até hoje. Importante dizer que as três teses -legalização do aborto, crescimento econômico e tolerância zero- não são excludentes; são apenas isso, teses.
Cabral não é o primeiro a derrapar em números escorregadios. O problema de levar estatísticas demasiadamente a sério é tão comum que rendeu frases memoráveis -"O ser humano tem em média um seio e um testículo" é uma delas; "Estatísticas são como biquíni: o que revelam é sugestivo, mas o que escondem é vital" é outra.
A melhor foi dita pelo escritor escocês Andrew Lang (1844-1912): "Ele usa estatística como um homem bêbado usa um poste -para apoio, não para iluminação".

São Paulo, domingo, 28 de outubro de 2007

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ELIO GASPARI

O oportunismo aborteiro de Sérgio Cabral

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O governador que fez vasectomia sugere aborto para desativar a "fábrica" de marginais da favela
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QUANDO O GOVERNADOR Sérgio Cabral usou o trabalho do economista Steven Levitt ("Freakonomics") para defender o aborto como política de segurança pública, dizendo que a favela da Rocinha "é uma fábrica de produzir marginal", juntou, num só "bonde", oportunismo, impostura e ignorância.
Cabral é oportunista porque, em setembro de 1996, quando era candidato a prefeito do Rio, descascou seu adversário, Luiz Paulo Conde, por defender o aborto. Nas suas palavras: "Conde foi leviano. O que o Rio precisa é melhorar o atendimento na saúde". Continua oportunista ao tentar reescrever o que disse ao repórter Aluizio Freire, do portal G1, onde sua entrevista está conservada na íntegra.
Cabral praticou uma impostura quando embaralhou uma questão de direito -a decisão da Corte Suprema que, em 1973, legalizou o aborto nos Estados Unidos-, com as estatísticas do crime nos anos 90. A Corte decidiu uma dúvida constitucional: o direito da mulher de interromper a gravidez. Esse é o verdadeiro e único debate do aborto. Nada a ver com o propósito de fechar (ou abrir) "fábrica de produzir marginal". Levitt, por sua vez, indicou que o aborto foi responsável por até 50% da queda na criminalidade americana. Em momento algum apresentou-o como alternativa de controle da natalidade.
Pelo contrário, qualificou-o como "um tipo de seguro rudimentar e drástico". Cabral submeteu-se a uma vasectomia e não terá mais filhos (teve cinco).
Tanto Levitt como a Corte Suprema não atravessaram a linha que o doutor transpôs, vendo no aborto uma modalidade de política pública capaz de produzir segurança. Uma coisa é dizer que houve uma relação de causa e efeito entre a liberação do aborto e a queda da criminalidade. Bem outra é associar o aborto às políticas de segurança pública.
A teoria de Cabral sustentou-se na ignorância. Ele disse que a Rocinha tem taxas de fertilidade africanas. Besteira, elas equivalem à metade.
Em 2000, o número médio de filhos nas favelas cariocas (2,6) era superior ao dos outros bairros do Rio (1,7), mas ficava próximo da estatística nacional (2,1). Quem acha que o problema da segurança está na barriga das faveladas, deve pensar em mudar de planeta. A taxa dos morros do Rio é a mesma do mundo.
Nos anos 70, muitos sábios sustentavam que o Brasil precisava baixar sua taxa de fertilidade (5,8) para distribuir melhor a riqueza. Passou-se uma geração, a fertilidade caiu a um terço (1,9) e o índice de Gini, que mede as desigualdades de renda, passou de 0,56 para 0,57, chegando ao padrão paraguaio. Nasceram menos brasileiros, mas não se reduziu o fosso social.
A tropa de elite pode acreditar que se aprimora a segurança pública com o capitão Nascimento cuidando dos morros e o governador Cabral dos ventres. As contas de Levitt são honestas, suas conclusões são rigorosas e "Freakonomics" é um ótimo livro. Aplicando-se a outros números de Pindorama o mesmo tipo de tortura cerebrina a que Cabral submeteu as conclusões do economista americano, seria possível dizer que a queda de 67% na taxa de fertilidade nacional provocou um aumento de 300% nos homicídios no Rio de Janeiro.

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Serviço: o artigo "The Impact of Legalized Abortion on Crime", de Steven Levitt e John Donohue 3º, está na internet, infelizmente em inglês. É melhor do que o resumo publicado em "Freakonomics".

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