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05/12/2007

Embarquei para o Líbano sem emprego, com pouco dinheiro, mas com esperança

do Novo em Folha

Esta entrevista com Tariq Saleh, 33, correspondente brasileiro no Líbano, faz parte do blog Novo em Folha e foi feita em novembro e dezembro de 2007.

Quando que você entrou na faculdade, já sabia que queria ser correspondente?

Definitivamente sim. Muito antes da faculdade eu já gostava de história e geografia, gostava de ler sobre temas em outras regiões do mundo, especialmente Oriente Médio, África e América Latina.

Aos 13 anos, eu assisti pela primeira vez a um filme baseado em fatos reais chamado "The
Killing Fields" (Os gritos do silêncio, 1984), e desde então quis ser jornalista internacional.

Mas, por uma questão familiar, acabei ingressando faculdade de engenharia, sem abandonar o sonho de ser jornalista. O grande impulso foi em 1995, quando o mundo lembrava o 1º ano do genocídio em Ruanda. Tudo que li e os documentários que assisti me tocaram profundamente e decidi perseguir o sonho de cobrir eventos internacionais.

Quando ingressei na escola de jornalismo, tudo que fiz foi me preparar para jornalismo internacional. O engraçado era que muitas vezes estava mais bem informado sobre o que acontecia no exterior do que no Brasil.

Antes de entrar na faculdade, você já se preparava para isso? Como?

Sim, eu já tinha em mente que o nível dos correspondentes é mais criterioso, exige mais, então eu sabia para conseguir chegar lá eu deveria me preparar já antes da faculdade, chegar com algums habilidades. Para
isso, eu estudei fotografia avançada, que gosto muito, também estudei idiomas ou desenvolvi as que eu falava, me dediquei a ler mais livros do que já estava habituado, e variados, desde romances a livros-reportagem.

Estas três providências foram as básicas e as que estavam ao meu alcance, a quarta era, claro, entrar para a faculdade de jornalismo.

Na faculdade, você fez algo especial? O quê?

Na faculdade, eu decidi não me obcecar com notas, mas manter um bom nível de aprendizado. Foi uma decisão minha. Eu via colegas preocupados em tirar notas máximas mas sem aproveitar o que estavam aprendendo, ou pior, sem desenvolver um estilo próprio, algo que, na minha opinião, está morrendo no jornalismo - a autoria.

Eu sempre dizia pros meus colegas que estavam iniciando a faculdade: o que determina o desenvolvimento no jornalismo é o que fazemos fora da faculdade, tudo que buscamos para complementar o que na faculdade não
encontramos.

No meu caso, a faculdade não me provia com política internacional, História, temas mundiais como direitos humanos, refugiados, fome, culturas. Buscava isso nas bibliotecas, inclusive livros sobe cobertura de guerras.

Eu sabia que antes de fazer de tudo, jornalista multimídia, eu precisava me preocupar em me especializar em assuntos, algo que o jornalismo brasileiro está carente.

Ao invés de tornar-me em um técnico em jornalismo, me preocupei em desenvolver estilos de escrever textos.

Também aproveitei os professores que tinha, opiniões, isso é muito importante, mas sem deixar de criar
opinião própria.

Claro que eu também me preocupei em estagiar já no início, no meu semestre comecei como fotógrafo e repórter numa agência experimental de notícias dentro da Unisinos (minha universidade no Rio Grande do Sul).

A técnica, o convívio na redação, a rotina jornalística são muito importantes. Depois fui convidado pelo diretor de redação da ZH, Marcelo Rech, para trabalhar durante um tempo na editoria internacional.

Como foi a decisão de ir para o Líbano? Você foi já com trabalhos amarrados? Ou foi tentar a sorte?

Após me formar, eu estava trabalhando como assessor de imprensa na prefeitura de minha cidade, era diretor de comunicação, bem remunerado, mas infeliz. Meu sonho era jornalismo internacional. Mas estava fora da
redação fazia 2 anos, o mercado estava difícil.

Então veio a guerra entre Hezbollah e Israel. Foi quando decidi que ou buscava meus sonhos, ou continuaria tentando meu espaço no Brasil. Mas o Brasil, infelzmente, está fora do eixo do jornalismo internacional, está
longe das coberturas. Poucas são as empresas, como a Folha, que mantém correspondentes e conseguem bancar os custos para manter repórteres no exterior. E eu queria testemunhar a História sendo escrita, queria estar lá.

Decidi, então, preparar minha viagem. A guerra havia terminado, então pude me planejar com calma. Fui atrás dos vistos, juntei algum dinheiro, entrei em contato com veículos brasileiros e reúni alguns poucos contatos no
exterior que eu tinha.

Embarquei para o Líbano sem emprego e com pouco dinheiro, mas com esperança. Jornalismo, acima de qualquer técnica ou linha editorial, é muita paixão e coragem (e sorte também).

Que contatos você fez? Que "credenciais" apresentou para conseguir trabalho?

Uma vez no Líbano, os primeiros três meses foram difíceis. Escrevi uns poucos artigos apenas como contribuição, sem retorno financeiro. Enquanto isso, procurava fazer amizades, entrar em contato com a realidade do país.

No exterior, especialmente em regiões conturbadas, é difícil se apresentar apenas como jornalista, sem ter uma organização por trás. Um profissional que se apresente como repórter da CNN ou El País, tem portas abertas do
que aquele que é apenas free-lancer sem ninguém por trás.

Houve momentos no país, que eu desanimava, achava que não ia conseguir. Pensava que iria acabar retornando ao Brasil derrotado, fracassado. Mas aí lembrava de histórias de jornalistas que arriscaram e batalharam. Tentava manter o otimismo. Na vida, não apenas no jornalismo, o dom de manter a
mente focada e relaxada é uma qualidade que sempre deve-se buscar. E quando a gente tem momentos em que consegue fazer isso, as coisas melhoram, os objetivos ficam mais próximos.

E num destes momentos, tentei entrar em contato com a Folha. Acho que no jornalismo existe esta magia dos editores. Algo que os movem e entre correrias diárias de fechamento e reuniões de pauta e suas rotinas de
redação, eles têm o pressentimento, uma das essênncias fundamentais da profissão. A editora de mundo da Folha, a Cláudia, me abriu as portas para contribuir com o jornal. Este foi um impulso muito grande.

Depois veio a BBC. Um de seus repórteres, o Paulo Cabral, baseado no Cairo, veio ao Líbano e sabia de mim por intermédio de minha prima, que é do Egito. Ele me pediu uma ajuda para levá-lo ao sul de Beirute, no
Hezbollah, me recomendando depois ao editor-chefe da BBC. O Edson Porto me convidou para ser correspondente da BBC em Beirute, como colaborador fixo.

Novamente o pressentimento do editores.

Como você se informa todos os dias?

Bom, primeiro eu busco os jornais locais, tanto impressos quanto a versão online. as agências internacionais são leituras essenciais, embora contenham material superficial, muitas vezes. Leio artigos em revistas
especializadas, asism como aquelas voltadas para Política Internacional, Oriente Médio. Assino 'newsletters' de vários veículos e leio colunas de correspondentes que estão baseados há mais de 20 anos no país.

Mas a melhor fonte de informação ainda é o povo. Acho que o maior desafio do correspondente estrangeiro é entender o país em que está baseado. Um jornalista que escreve do seu escritório, do saguão do Hotel ou reciclando outros materiais, dificilmente entenderá como pensa o povo que forma aquele país. E no Líbano é ainda mais complexo devido a esta mistura ideológica, religiosa, social etc...

Um taxista é uma das melhores fontes de informação, o vendendor na rua, o professor de escola, um barman em um pub, enfim, todos são excelentes fontes de informação. Evidentemente, eles devem ser filtrados, nem tudo que dizem procede, mas direcionam um repórter para aquilo que é essencial - o sentimento de um país, acima de qualquer análise política.

Que línguas você usa em seu trabalho? Como aprendeu?

Bom, eu falo 4 idiomas: portugês, inglês, árabe e espanhol. Mas uso basicamente o árabe e o inglês. Os libaneses facilitam a vida de repórteres estrangeiros pois a maioria dos libaneses, com nível escolar, fala ao menos outros dois idiomas, inglês e francês.

Eu sempre tive muita facilidade para aprender idiomas, e gostava disso.

Como tenho origem árabe, minha família procurou manter um nivel básico em casa, e isso me ajudou pois consigo falar com sotaque nativo. Algumas palavras eu aprendi no Líbano, é importante praticar todo o dia.

O inglês aprendi quando morei na Inglaterra após terminar o Ensino Médio, mesmo que já sabia falar um pouco antes. Já o espanhol é fácil aprender por causa da proximidade com o português, mas eu optei por estudar
espanhol no Brasil.

Quais as principais dificuldades no seu trabalho?

A busca de fontes é uma delas. Num país estrangeiro, um repórter pode buscar fontes oficiais sem problemas, especialmente quando falam inglês.

Mas o diferencial estão nas fontes não-oficiais, o povo. E se o repórter não fala a língua local fica difícil.

Mesmo se eles falam inglês, o idioma tem um importância muito grande - ele estabelece um elo de confiança. Mostra a uma pessoa que o repórter se interessa pela cultura local, passa boas intenções, estima pelo povo.

Este problema não tenho, pois falo árabe, e mais, sou de origem árabe, isto é um diferencial.Mas mesmo assim, conseguir fontes é difícil, as pessoas têm medo de falar, especialmente em regiões conturbadas.

Outro problema são as barreiras impostas pelo governo local. O Líbano é um país extremamente burocrático, com suas instituições ainda usando métodos de 30 anos atrás. isso se explica aos anos de guerra civil, que paralisou o país, e à ocupação síria, que ensinou métodos ainda mais burocráticos.

Algumas regiões do país são áreas de segurança e só se consegue chegar lá com permissões militares. Mas a maior dificuldade é o próprio repórter. Manter o equilíbrio numa região do mundo bombardeada por tantas ideologias, visões políticas e religiões. É importante respeitar todos os lados, todas as crenças, e não
deixar que estereótipos manchem sua reportagem.

No meu caso particular, por ter origem árabe, eu sabia que não poderia deixar isso me influenciar. Todo jornalismo é militante, ele busca ajudar as pessoas, de várias formas. Mas se tem algo que não suporto é o
jornalismo militante radical, que busca apenas idéias que interessam a um lado. Antes mesmo da faculdade, eu havia decidido que deveria me despir de duas coisas: religião e política.

Eu tenho origem palestina, e obviamente defendo a causa palestina, que é uma causa justa, nisso não há dúvidas. Porém, há pessoas que usam as causas árabes para benifícios próprios qu não ão do povo árabe.

Outro ponto é a religião. O Líbano é um país fortemente influenciado por religião. São 18 as reconhecidas oficialmente pelo governo. Imagine a surpresa dos libaneses quando eu disse que não tinha religião, que
aceditava apenas em Deus e que eu era humanista.

Mas, para eles, é imprensável alguém não ter religião, e pelo meu nome eles sabem que minha família é muçulmana, e isto basta. Lidar com isso quase todos os dias é cansativo, mas tem que ser feito.

O que você recomenda para garotos que queiram seguir o mesmo caminho que você?

Cada pessoa cria um caminho próprio. Mas acho que o ponto em comum é acreditar no que se quer, focar naquele objetivo. Mas também, é preciso perseverança e a certeza de que, às vezes, é preciso arriscar tudo. Em
tudo que se faz na vida temos 50% de chances de dar certo ou errado. O que determina as maiores chances é o que se faz a mais para chegar lá.

Haverá sempre pessoas que não acreditarão na gente, inclusive professores na faculdade, pessoas que acharão que estamos apenas sonhando. Mas haverá pessoas que botarão fé naquilo que queremos. Porém, somos nós que devemos acreditar ainda mais na gente.

E claro, estudar, estudar muito, ler também. A faculdade de jornalismo é essencial, o básico. mas o estudante precisa buscar qualificação fora dela também, o emprego. Poucos são aqueles que só após se formarem foram
trabalhar em jornalismo. Deve-se começar já durante a faculdade. Como complemento, a paixão, a essência principal do jornalismo.

Há alguma outra coisa que vc acha relevante dizer, que eu possa ter me esquecido de perguntar?

Ih, que vergonha..esqueci de dizer que o apoio da família é essencial também. A minha acreditava sempre em mim, isso dá uma força pra continuar tentando.

Uma coisa que me esqueci de dizer sobre meu blog (www.leindependant.org) : foi uma idéia que encontrei e sempre tive vontade de fazer...voltado para assuntos internacionais.

Durante os 2 anos em que estive fora da redação..somente escrevendo artigos parapublicações sem remuneração, desenvolvi o blog como forma de continuar fazendo jornalismo internacional.

Hoje, confesso que deveria atualizá-lo mais seguido, tem material pra isso, mas devido ao tempo fica complicado. É algo que quero fazer, usá-lo como forma alternativa às notícias convencionais, informar sobre o
dia-a-dia do Líbano e região.

Parece que tô de brincadeira... mas lembrei algo mais, muito importante como dica:

Para quem quer cobrir conflitos...precisa se preparar com cursos sobre sobrevivência ou pegar dicas em sites como Repórteres sem fronteiras, Comitê de Proteção a Jornalistas, entre outros... eles têm manuais de
sobrevivência que ajudam.

O resto, cada repórter tem que ficar esperto, desenvolver técnicas próprias, para burlar censura, barreiras impostas por militares, a relação com milícias e políticos.

O Líbano é uma baita escola, todo dia aprendemos algo novo e fico supreso com a reação que tenho. Já fui detido algumas vezes aqui por militares, e sempre consegui reagir bem a situações adversas. Isso, no jornalismo, é muito importante.

Também é importante andar com outros repórteres que tenham auto-controle - repórteres que entram em pânico em situações de conflito não têm segundas chances.

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