26/07/2011
Para pesquisador da USP, miséria é definida pelo acessso à rede de esgoto
LUCAS SAMPAIO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
O professor da USP José Eli da Veiga é bastante crítico à linha oficial de extrema pobreza criada pelo governo neste ano --R$70 por mês por pessoa do domicílio.
Especialistas discordam da linha de miséria
Apesar de ver um avanço com a definição de um parâmetro, Da Veiga questiona o critério e valor estabelecidos.
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Para o docente da pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP, é miserável no Brasil quem não tem acesso a saneamento básico porque a falta de esgoto afeta a inteligência das pessoas.
Veja os principais trechos da entrevista à Folha.
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Folha - O senhor acha que a linha de R$ 70 estabelecida pelo governo para definir miséria é correta?
José Eli da Veiga - Linhas de pobreza --ou de miséria-- não podem ser estabelecidas apenas com definições de níveis de renda monetária.
Não creio que os colegas que estão no governo sejam imorais. Mas com certeza chegaram à insuficiente definição dos R$ 70 de renda domiciliar mensal per capita porque foram incumbidos de elaborar um plano factível, que possa ter sucesso em quatro anos.
Na campanha eleitoral de 2014 provavelmente não haverá mais ninguém com renda abaixo da linha monetária adotada, mas com certeza ainda será imenso o número de miseráveis no Brasil.
Há quem defenda a linha dizendo que, por ela ser baixa, é possível atender melhor os mais miseráveis.
Discordo totalmente da demagogia que está na base do argumento, pois seria bem melhor definir corretamente a miséria, deixar claro que ela só poderá ser exterminada com esforços que não cabem no curto prazo e apresentar a meta do plano governamental como uma primeira etapa do processo de sua erradicação.
Em vez disso, mascara-se o que é a miséria para tentar fazer com que a sociedade acredite que ela foi exterminada em quatro anos.
Qual deveria ser, objetivamente, a linha que define quem é ou não miserável no Brasil?
Nas circunstâncias brasileiras, é miserável quem não tem acesso ao esgotamento sanitário.
A rigor, além de tudo que está ligado ao saneamento ambiental e a um mínimo de conforto, duas outras coisas merecem destaque: o acesso a um serviço de saúde que realmente funcione e o acesso a um sistema educacional de qualidade.
Mas a saúde e a educação são programas governamentais que já existem e que acabarão por atender aos atuais jovens miseráveis se eles não ficarem seriamente debilitados pela falta de acesso ao esgotamento sanitário.
Falta de esgoto afeta a inteligência das pessoas por causa de infecções parasitárias na infância.
O senhor pode explicar melhor essa relação?
Um estudo publicado no periódico científico "Proceedings of the Royal Society" mostra que o cérebro é o órgão do corpo humano que mais consome energia: 87% no recém-nascido, 44% aos cinco anos, 34% aos dez.
As infecções parasitárias desviam energia para ativar o sistema imunológico. Repetidas diarréias até os cinco anos roubam do cérebro as calorias necessárias a seu desenvolvimento, comprometendo a inteligência para sempre.
É pura ilusão, portanto, supor que não sejam pobres pessoas que padeçam dessa catastrófica privação que é o permanente risco de contrair parasitoses, só porque tenham renda superior a "x" reais.
Mas o número de domicílios sem esgoto tem diminuído nos últimos anos.
O número de moradias insalubres diminuiu dez pontos percentuais entre 1995 e 2002, e mais cinco entre 2003 e 2008. Mantidos tais níveis de desempenho, a universalização do esgoto com tratamento só ocorreria em 2060.
Se o investimento dobrasse e a produtividade aumentasse um terço, essa meta poderia ser atingida em 2024. Seriam necessários quatro governos bem melhores que os de Lula para que a pobreza fosse minimizada.
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