07/04/2003
-
04h52
da Folha de S.Paulo, no Jalapão
Cacá Diegues, diretor de "Deus é Brasileiro", que já foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas, procurava um lugar do Brasil que fosse quase virgem e, de preferência, pouco conhecido, para a locação das cenas em que Deus (personagem interpretado por Antônio Fagundes) se encontra com Quinca das Mulas (vivido pelo ator Bruce Gomlevsky), o candidato a santo procurado por ele.
Depois de ver umas fotos do deserto, ficou deslumbrado com o lugar, arrumou as malas e foi direto para o Tocantins.
Leia a seguir entrevista exclusiva concedida à Folha pelo cineasta, que retorna à temática do "filme-de-estrada" no seu 16º longa-metragem: Diegues havia explorado em "Bye, Bye, Brasil", filme de 1979, o tema de um Brasil atropelado pela modernidade urbana.
(SABRINA PETRY)
Folha - Por que o Jalapão? O deserto já era seu conhecido?
Cacá Diegues - Nunca tinha ouvido falar no Jalapão. Aconteceu o seguinte: eu precisava de um lugar para aquela cena do encontro de Deus com Quinca das Mulas, o candidato a santo. E para aquele encontro, tinha pensado numa natureza mais ou menos virgem, ainda intocada pela mão humana. Eu queria evitar a Amazônia porque lá é muito difícil de filmar, é um paredão verde que não reflete luz, além de ser um lugar-comum para essa idéia.
Eu estava nessa agonia, sem saber para onde iria, quando o cineasta Walter Salles me mostrou umas fotos da região do Jalapão tiradas quando ele estava fazendo pesquisa para o filme "Abril Despedaçado". Quando eu vi as fotos, fiquei enlouquecido e decidi que aquele era o lugar.
Naquela mesma semana, eu e a Renata Magalhães, que é a produtora do filme e minha mulher, pegamos um avião e fomos para lá ver.
Folha - Qual foi sua impressão ao chegar ao Jalapão?
Diegues - Chegando lá, eu pensei: "É aqui mesmo". Era exatamente aquilo que eu queria como cenário. Aquele cerrado absolutamente maravilhoso, com muita fauna e muita flora, um número inacreditável de rios, de cachoeiras, aquele deserto de areia calcária cercado por um rio e com a serra do Espírito Santo ao fundo, o fervedouro... Eu fiquei até triste porque a maior parte eu não pude usar, não tinha filme suficiente para colocar tudo aquilo.
Folha - Como foram os preparativos para rodar "Deus é Brasileiro"?
Diegues - Eu fui às locações umas quatro vezes antes de começar a filmar "Deus é Brasileiro". Na primeira vez, não existia nada. Ficamos hospedados numa fazenda abandonada, onde hoje funciona uma pousada.
Tinha até morcego. Depois da primeira vez, comecei a levar a equipe de produção, o cinegrafista, o fotógrafo, para que eles pudessem ter uma noção de como seriam as filmagens.
Folha - Como foi filmar no meio do deserto, um lugar praticamente sem infra-estrutura?
Diegues - Nós ficamos uns dez dias filmando. Saíamos de madrugada para conseguir chegar às locações a tempo de pegar uma boa luz. Para filmar a cena em que o tempo passa rapidamente, por exemplo, foi preciso que uma equipe formada por um fotógrafo, um assistente e duas pessoas da produção acampasse em três diferentes pontos do deserto para que se captasse o dia e a noite.
Folha - Qual foi a maior dificuldade enfrentada pela equipe de filmagem no Jalapão?
Diegues - A maior dificuldade era o acesso. Você pode imaginar como é transportar 32 pessoas por uma estrada de terra em péssimas condições. E ainda tínhamos os equipamentos de filmagem para serem carregados, porque, em alguns pontos, o acesso de carro é impossível.
Também tínhamos que montar barracas para captar o amanhecer ou para nos proteger das chuvas, porque começamos a filmar em outubro -e o período da cheia começa em novembro. Teve uma vez que perdemos um dia inteiro de filmagem e tivemos que ficar embaixo de uma barraca. Foi uma corrida contra o tempo, pois em novembro, com a chegada das chuvas, ficaria inviável trabalhar.
Apesar das dificuldades, o lugar é um paraíso e eu torço para que ele seja preservado, porque aquilo é fácil de ser destruído, é um sistema ecológico muito frágil.
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Depois de ver umas fotos do deserto, ficou deslumbrado com o lugar, arrumou as malas e foi direto para o Tocantins.
Leia a seguir entrevista exclusiva concedida à Folha pelo cineasta, que retorna à temática do "filme-de-estrada" no seu 16º longa-metragem: Diegues havia explorado em "Bye, Bye, Brasil", filme de 1979, o tema de um Brasil atropelado pela modernidade urbana.
(SABRINA PETRY)
Folha - Por que o Jalapão? O deserto já era seu conhecido?
Cacá Diegues - Nunca tinha ouvido falar no Jalapão. Aconteceu o seguinte: eu precisava de um lugar para aquela cena do encontro de Deus com Quinca das Mulas, o candidato a santo. E para aquele encontro, tinha pensado numa natureza mais ou menos virgem, ainda intocada pela mão humana. Eu queria evitar a Amazônia porque lá é muito difícil de filmar, é um paredão verde que não reflete luz, além de ser um lugar-comum para essa idéia.
Eu estava nessa agonia, sem saber para onde iria, quando o cineasta Walter Salles me mostrou umas fotos da região do Jalapão tiradas quando ele estava fazendo pesquisa para o filme "Abril Despedaçado". Quando eu vi as fotos, fiquei enlouquecido e decidi que aquele era o lugar.
Naquela mesma semana, eu e a Renata Magalhães, que é a produtora do filme e minha mulher, pegamos um avião e fomos para lá ver.
Folha - Qual foi sua impressão ao chegar ao Jalapão?
Diegues - Chegando lá, eu pensei: "É aqui mesmo". Era exatamente aquilo que eu queria como cenário. Aquele cerrado absolutamente maravilhoso, com muita fauna e muita flora, um número inacreditável de rios, de cachoeiras, aquele deserto de areia calcária cercado por um rio e com a serra do Espírito Santo ao fundo, o fervedouro... Eu fiquei até triste porque a maior parte eu não pude usar, não tinha filme suficiente para colocar tudo aquilo.
Folha - Como foram os preparativos para rodar "Deus é Brasileiro"?
Diegues - Eu fui às locações umas quatro vezes antes de começar a filmar "Deus é Brasileiro". Na primeira vez, não existia nada. Ficamos hospedados numa fazenda abandonada, onde hoje funciona uma pousada.
Tinha até morcego. Depois da primeira vez, comecei a levar a equipe de produção, o cinegrafista, o fotógrafo, para que eles pudessem ter uma noção de como seriam as filmagens.
Folha - Como foi filmar no meio do deserto, um lugar praticamente sem infra-estrutura?
Diegues - Nós ficamos uns dez dias filmando. Saíamos de madrugada para conseguir chegar às locações a tempo de pegar uma boa luz. Para filmar a cena em que o tempo passa rapidamente, por exemplo, foi preciso que uma equipe formada por um fotógrafo, um assistente e duas pessoas da produção acampasse em três diferentes pontos do deserto para que se captasse o dia e a noite.
Folha - Qual foi a maior dificuldade enfrentada pela equipe de filmagem no Jalapão?
Diegues - A maior dificuldade era o acesso. Você pode imaginar como é transportar 32 pessoas por uma estrada de terra em péssimas condições. E ainda tínhamos os equipamentos de filmagem para serem carregados, porque, em alguns pontos, o acesso de carro é impossível.
Também tínhamos que montar barracas para captar o amanhecer ou para nos proteger das chuvas, porque começamos a filmar em outubro -e o período da cheia começa em novembro. Teve uma vez que perdemos um dia inteiro de filmagem e tivemos que ficar embaixo de uma barraca. Foi uma corrida contra o tempo, pois em novembro, com a chegada das chuvas, ficaria inviável trabalhar.
Apesar das dificuldades, o lugar é um paraíso e eu torço para que ele seja preservado, porque aquilo é fácil de ser destruído, é um sistema ecológico muito frágil.
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