26/05/2003
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06h52
Enviado especial da Folha de S.Paulo à África do Sul
Imponente, vestido apenas com pele de guepardo e fibras vegetais, mostrando a mesma expressão insondável dos guerreiros de terracota chineses, o jovem zulu pode se transformar, à mínima provocação, numa implacável máquina para matar. Ele segura um escudo revestido de couro preto, símbolo da sua tribo, e uma lança curta, introduzida por Shaka, um venerado ancestral.
A um metro dele, uma senhora de azul, cabelo penteado, braços e cintura arredondados pela ádipe sedentária, curva-se para frente, circunspeta. Com as duas mãos, segura a câmera e tira uma foto.
Alguns dirão que encenar uma tradição é o sinal de sua morte; outros que, para mantê-la, é necessário reconstrui-la e fixá-la como em uma peça de teatro. Talvez ambos tenham razão.
O show do guerreiro é uma atração do parque temático Shakaland - uma aldeia zulu dividida em casas, espaços para rituais e quartos de hotel, localizada na Província KwaZulu-Natal, a uma hora e meia de carro de Durban.
A aldeia é toda construída com técnicas tradicionais, nas quais os homens fazem a estrutura do teto, e as mulheres cobrem-na com folhas e galhos secos, sem esquecer o necessário conforto para os hóspedes. Reinam as cores marrom, ocre, terra, laranja-enferrujado e vermelho-queimado.
Os zulus podem não morar nesse vilarejo, e as plantas podem ser colocadas com um gosto que não lhes pertence, mas o fato é que a peça funciona e convence por não ser uma paródia. Essas pessoas estão realmente encarnando seus ancestrais. E se orgulham disso.
Durante a visita, que pode durar poucas horas ou incluir um pernoite, entra-se em contato com antigas habilidades zulu, músicas, cerimônias, artefatos e um pouco da história de Shaka, que deu origem ao nome Shakaland.
Ele se tornou chefe zulu após a morte de Senzangakona, em 1815. Tinha manias de déspota, mas era um estrategista talentoso. Conseguiu reunir os clãs menores em um império zulu e infligiu derrotas ao Exército inglês. Shaka colocou em uso a "assegaai" -a mencionada lança curta- e se valia de técnicas de guerra sonora.
Os guerreiros eram dispostos em um semicírculo, em volta do campo de batalha. O semicírculo ainda se dividia ao meio, formando dois grupos. O som de um dos grupos simulava o ataque, enquanto o outro cercava o inimigo. Então, os homens mais experientes avançavam e, geralmente, aniquilavam os soldados.
Shaka foi assassinado em 1828 pelo seu meio-irmão, Dingane. No Museu Sul-Africano, na Cidade do Cabo, estão expostos objetos originais dessa época.
A história do parque de Shakaland vale ser contada. O primeiro núcleo da aldeia foi construído como cenário para o filme "Shaka Zulu", de 1984. Uma das pessoas envolvidas na produção era Barry Leitch, branco, casado, pai de um filho com uma zulu. Após o filme, Barry comprou a área para evitar a destruição da aldeia e teve a idéia de abri-la à visitação. A estrutura cresceu e hoje é controlada pela empresa Protea Hotels.
Muitos zulus que iniciaram o projeto ainda estão lá, e, ao todo, 80 famílias vivem do trabalho de artesanato, da dança ou do funcionamento da parte hoteleira. Seria fácil acusar Shakaland de ser muito comercial. Mas o projeto pode ser um exemplo de conservação sustentável das tradições.
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Shakaland - Tel.: 00/xx/27/35/460.0912; www.shakaland.com
Especial
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Zulus encarnam ancestrais em Shakaland
VINCENZO SCARPELLINIEnviado especial da Folha de S.Paulo à África do Sul
Imponente, vestido apenas com pele de guepardo e fibras vegetais, mostrando a mesma expressão insondável dos guerreiros de terracota chineses, o jovem zulu pode se transformar, à mínima provocação, numa implacável máquina para matar. Ele segura um escudo revestido de couro preto, símbolo da sua tribo, e uma lança curta, introduzida por Shaka, um venerado ancestral.
A um metro dele, uma senhora de azul, cabelo penteado, braços e cintura arredondados pela ádipe sedentária, curva-se para frente, circunspeta. Com as duas mãos, segura a câmera e tira uma foto.
Alguns dirão que encenar uma tradição é o sinal de sua morte; outros que, para mantê-la, é necessário reconstrui-la e fixá-la como em uma peça de teatro. Talvez ambos tenham razão.
O show do guerreiro é uma atração do parque temático Shakaland - uma aldeia zulu dividida em casas, espaços para rituais e quartos de hotel, localizada na Província KwaZulu-Natal, a uma hora e meia de carro de Durban.
A aldeia é toda construída com técnicas tradicionais, nas quais os homens fazem a estrutura do teto, e as mulheres cobrem-na com folhas e galhos secos, sem esquecer o necessário conforto para os hóspedes. Reinam as cores marrom, ocre, terra, laranja-enferrujado e vermelho-queimado.
Os zulus podem não morar nesse vilarejo, e as plantas podem ser colocadas com um gosto que não lhes pertence, mas o fato é que a peça funciona e convence por não ser uma paródia. Essas pessoas estão realmente encarnando seus ancestrais. E se orgulham disso.
Durante a visita, que pode durar poucas horas ou incluir um pernoite, entra-se em contato com antigas habilidades zulu, músicas, cerimônias, artefatos e um pouco da história de Shaka, que deu origem ao nome Shakaland.
Ele se tornou chefe zulu após a morte de Senzangakona, em 1815. Tinha manias de déspota, mas era um estrategista talentoso. Conseguiu reunir os clãs menores em um império zulu e infligiu derrotas ao Exército inglês. Shaka colocou em uso a "assegaai" -a mencionada lança curta- e se valia de técnicas de guerra sonora.
Os guerreiros eram dispostos em um semicírculo, em volta do campo de batalha. O semicírculo ainda se dividia ao meio, formando dois grupos. O som de um dos grupos simulava o ataque, enquanto o outro cercava o inimigo. Então, os homens mais experientes avançavam e, geralmente, aniquilavam os soldados.
Shaka foi assassinado em 1828 pelo seu meio-irmão, Dingane. No Museu Sul-Africano, na Cidade do Cabo, estão expostos objetos originais dessa época.
A história do parque de Shakaland vale ser contada. O primeiro núcleo da aldeia foi construído como cenário para o filme "Shaka Zulu", de 1984. Uma das pessoas envolvidas na produção era Barry Leitch, branco, casado, pai de um filho com uma zulu. Após o filme, Barry comprou a área para evitar a destruição da aldeia e teve a idéia de abri-la à visitação. A estrutura cresceu e hoje é controlada pela empresa Protea Hotels.
Muitos zulus que iniciaram o projeto ainda estão lá, e, ao todo, 80 famílias vivem do trabalho de artesanato, da dança ou do funcionamento da parte hoteleira. Seria fácil acusar Shakaland de ser muito comercial. Mas o projeto pode ser um exemplo de conservação sustentável das tradições.
Leia mais:
Shakaland - Tel.: 00/xx/27/35/460.0912; www.shakaland.com
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