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14/06/2007 - 09h43

Destinos Clássicos: Missas garantem recital gratuito em igrejas londrinas

RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online, em Londres

A importância de Londres para a música pode ser medida pelo número de gênios que a cidade abrigou nos últimos sete séculos. Entre alguns fenômenos, Mozart (1756-1791), Joseph Haydn (1732-1809), Felix Mendelssohn (1809-1847), George Frideric Haendel (1685-1759) e Johann Christian Bach (1735-1782) tocaram, viveram ou morreram ali.

Como ocorreu em outras regiões do mundo, a igreja era mantenedora de músicos, cantores, "luthiers" (construtores de instrumentos) e suas numerosas e quase sempre adoentadas famílias.

SXC
Catedral de Canterburry; templos ingleses abrigam recitais
Catedral de Canterburry; templos ingleses abrigam recitais

Embora de forma mesquinha, a igreja distribuiu renda na Idade Média não só ao clero, mas também à classe artística. As exigências, porém, eram infinitas: músicos eram tratados como fâmulos pouco melhores que faxineiros.

Era na igreja que prosperava uma obra musical farta, embora exclusivamente sacra. Até hoje, assistir a uma missa em Londres pode ser tão agradável (do ponto de vista musical) quanto ver um ótimo concerto em qualquer hall do mundo.

Há pela Grande Londres milhares de capelas e igrejas católicas e protestantes. A maioria possui organistas, corais ou pequenas formações de cordas. Entre em qualquer uma e pergunte a que horas começa o "the service". Sempre há música, e você é muito bem recebido pelos cordiais ingleses. Só é chato mesmo ouvir o sermão.

Foi nessas igrejas que surgiram compositores talentosos como John Taverner (1490-1545), Thomas Tallis (1505-1585), Thomas Morley (1557-1603) e o mais querido, William Byrd (1543-1623), co-organista da Capela Real e um dos primeiros a compor música profana, pondo em risco o cargo.

Curiosamente, quando se associa hoje música clássica & Londres, o primeiro nome que vem à mente não é o de um inglês, mas o de um austríaco: Joseph Haydn, batizado pelos ingleses de "o papa". Ele foi como um sumo pontífice para protestantes (e católicos corajosos).

Amigo de Leopold Mozart (pai de Wolfgang), professor ausente e rival nada cordial de Beethoven, casado com uma mulher de língua peçonhenta, Joseph Haydn começou a ficar famoso na sua Áustria natal. Mas foi em Londres que alçou vôo. A nobreza britânica fez de tudo para tirá-lo do país vizinho: o assediou com cargos, dinheiro e honrarias.

Os ingleses o elevaram ao patamar de sumidade e Haydn não se fez de rogado: aceitou vários convites para passar temporadas no reino, causando ciumeira entre os vienenses. Ainda mais porque muitos de seus sucessos foram compostos em Londres, e não em sua terra.

Durante mais de cinco décadas "o papa" compôs em praticamente todos os gêneros musicais, sendo um mestre primordial de sinfonias e quartetos. Morreu famoso, rico e benquisto. Seu talento transcendeu as fronteiras: é dele o belíssimo hino da Alemanha, a Marcha do Imperador, que ouvimos tantas vezes nos últimos anos enquanto Michael Schumacher levantava a taça dos GPs da Fórmula 1.

Haydn foi um dos poucos músicos vivos pelos quais Beethoven tinha algum respeito. Até o dia de sua morte, recebeu do governo, diariamente, uma garrafa do melhor vinho servido aos oficiais militares.

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