Acima das nuvens, deserto do Atacama hipnotiza e surpreende
PATRÍCIA TRUDES DA VEIGA
da Folha de S.Paulo
Espremido entre a cordilheira dos Andes, a leste, e o oceano Pacífico, a oeste, o Chile é o país mais estreito do mundo. Mais peculiar ainda é abrigar, em quase toda a sua região norte, um deserto acima das nuvens, que esconde jazidas minerais e a maior reserva de cobre, lítio, nitrato e iodo do planeta.
Chega a ser surreal explorar parte dos 363 mil quilômetros quadrados do deserto do Atacama. A altitudes que variam de 2.300 m a 6.893 m, ele desnorteia ora pela beleza estéril, ora pela força da natureza. Uma revelação para os sentidos, uma prova para o corpo.
| Patrícia Trudes da Veiga/Folha Imagem |
![]() |
| Monumentais colunas de pedra no salar de Tara; deserto do Atacama possui áreas a quase 7.000 metros de altitude |
Há quem diga ter vivido ali experiências únicas, visões do passado e do futuro. O fato é que, a 4.000 m de altitude, não há como escapar da hipoxia (baixo teor de oxigênio), que tem como conseqüência a diminuição da atividade do sistema nervoso central.
Sim, o deserto hipnotiza e surpreende, mesmo com um clima extremamente árido --o mais seco do mundo, que faz os olhos e o nariz arderem--, mesmo com sensações térmicas até então desconhecidas --sim, estamos falando de 30ºC negativos.
Milhões de anos de transformações geológicas deram origem a cordilheiras, vulcões, salares e lagoas que se misturam a um céu turquesa sem nuvens, salpicado de estrelas e a uma flora e uma fauna únicas. Uma paisagem de, literalmente, tirar o fôlego.
Como um oásis, San Pedro de Atacama, um povoado com 4.969 habitantes a 2.443 m de altitude, é a porta de entrada para esse deserto. Fica a pouco mais de uma hora de carro de Calama, cidade em que pousam os vôos regionais e que detém o recorde mundial de 400 anos sem chuva (1571/1971).
Mesmo pequena, San Pedro tem em seu passado uma vasta história. Os primeiros habitantes, ex-nômades, instalaram-se lá há 11 mil anos, desenvolveram a irrigação e a agricultura, domesticaram alpacas e lhamas, inventaram a cerâmica e transformaram o vilarejo na ''capital arqueológica do Chile''.
Para vasculhar cada canto do Atacama, seriam precisos 90 dias, calcula Luis Bazzaza, guia experiente da região. Caindo no mundo real, cinco noites é o mínimo, assim como uma mala muito bem preparada, onde não há espaço algum para vaidades.
A maioria dos hotéis inclui os passeios nos pacotes, e subir às alturas chega a ser um impulso irresistível para quem está aos pés da mais longa cadeia de montanhas do mundo. Mas, como alerta Carlos Gerk, especialista em medicina de altitude, é preciso dar tempo para o corpo adaptar-se. E é assim, gradualmente, que as "escaladas" devem ser programadas. Nada de ascender cumes e vulcões de mais de 5.500 m, que podem terminar em edemas pulmonar e cerebral para quem não está devidamente preparado.
Erosões milenares
| Patrícia Trudes da Veiga/Folha Imagem |
![]() |
| Gêiseres do Tatio observados ao amanhecer; local fica a 4.320 metros de altitude na região do deserto do Atacama |
Para perder o prumo logo no primeiro dia e ter a exata dimensão de um deserto, o vale da Lua e o vale da Morte (ambos a 2.569 m) são um bom começo. Não há nada por lá, nem uma planta, nem um ser vivo. Areia, minerais, gesso e terra, em formações bastante peculiares, lembram a superfície da Lua.
Pouco adiante, ergue-se a cordilheira do Sal, antigo lago cujas placas tectônicas se elevaram pelos mesmos movimentos da crosta terrestre que originaram a cordilheira dos Andes. Suas erosões milenares são espetaculares, uma aula de ciências, ao meio-dia com o sol a pino.
À tarde, o destino é o salar de Atacama (2.300 m). A paisagem muda radicalmente, e a vegetação resiste bravamente numa planície com quase 100 km de extensão coberta de sal, de onde afloram lagoas azuis habitadas por flamingos.
Já no segundo dia, há quem, como a repórter, ignore recomendações médicas e meteorológicas e dê um passo além do que devia. Rumo ao salar de Tara, na fronteira com a Bolívia, a mais de 4.000 m, o carro sacoleja. A cabeça dói, a náusea aparece. Nem chá de coca resolve.
Mas nessa planície desolada surgem monumentais colunas e paredões de pedra. E não dá para caminhar de encontro a eles. Com ventos frios a 70 km/h e temperatura abaixo de zero, o meteorologista da USP Mario Festa calcula uma sensação térmica de 32ºC negativos. O frio é de matar. Tudo perde a graça.
O guia ensina, então, a tomar água, muita água. O melhor seria água-de-coco, corrige o professor Gerk, já que, "com o ar seco, a cada respiração, perdemos também eletrólitos". O problema é que não há banheiros no meio do deserto. E aventurar-se atrás das rochas, com os termômetros abaixo de zero, não é nada fácil.
Vilinha lúdica
O terceiro dia começa de madrugada. É hora de sacolejar duas horas, de estômago vazio, rumo aos gêiseres do Tatio, a 4.320 m. Ao chegar, com o sol nascendo e a cabeça explodindo, parece um sonho: centenas de jatos de água fervente são expelidos do solo, atingindo 10 m de altura. O fenômeno, que dura poucas horas, ocorre quando as águas frias de rios subterrâneos encontram as lavas vulcânicas.
Depois de um café da manhã improvisado em meio a um cenário vulcânico, passa-se pela encantadora Machuca, vila que parece uma pintura infantil, com apenas nove casas de adobe, e cruza-se com lhamas e vicunhas até chegar às termas de Puritana, onde, assim como no Tatio, há piscinas naturais de água clara e quentíssima -de 30ºC a 40ºC.
Na última noite no deserto, é hora de, pela primeira vez, tirar vantagem dos 7% de umidade média relativa do ar. Não é para menos que lá estão instalados 34 radiotelescópios. É impossível tirar os olhos de estrelas, galáxias e nebulosas, que parecem estar ao alcance da mão. E de esquecer a imagem dos anéis de Saturno.
Patrícia Trudes da Veiga viajou a convite da LAN Airlines e do hotel Tierra Atacama, com o apoio dos hotéis Awasi e Explora.
Para quem
Aventureiros que colocam o corpo à prova e buscam uma revelação para os sentidos, explorando cordilheiras, vulcões, salares e lagoas, em meio a um céu azul-turquesa sem nuvens, repleto de estrelas e com uma flora e uma fauna únicas
Quando ir
O ano inteiro (evite a lua cheia, que "esconde" as estrelas); os meses de meia-estação são os melhores, com temperaturas mais amenas; no inverno (de junho a agosto), ela varia de 9ºC a 24ºC, caindo para abaixo de zero nas madrugadas
Como chegar
De avião, o vôo Santiago-Calama dura 1h45; até San Pedro de Atacama, mais uma hora e meia de carro
Hora local
-1h em relação a Brasília
Idioma
Espanhol
Moeda
Peso chileno; US$ 1 = 491,3 pesos chilenos; 1.000 pesos chilenos compram R$ 3,24
Dica
Bagagem indispensável: botas para caminhadas, calça jeans confortável ou calça conversível em bermuda, jaqueta especial, boné, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol, maiô, toalha, mochila (com água-de-coco, protetor solar FPS 30, protetor labial, soro fisiológico, papel higiênico e kit de primeiros socorros); vista-se "em camadas", com meia-calça/ceroula e roupas de pura lã e/ou especiais corta-vento
Leia mais
- Bolívia: Atacama e Uyuni formam viagem 2 em 1
- Silhueta do Chile não limita sua diversidade
- Sites mostram condições das pistas de esqui no Chile e Argentina
- Vinho branco ou tinto influencia ida a vale chileno
Livraria da Folha
- Veja como explorar o Chile com praticidade
- Série "Rough Guides" descreve roteiros ideais para visitar países da América Latina
- Livro traz relato de acidente de avião nos Andes
Especial



