Turismo
14/07/2008 - 10h39

Com arquitetura inusitada, centro comercial chama atenção em Pequim

RAUL JUSTES LORES
da Revista da Folha, em Pequim

Na maratona para chamar a atenção a menos de um mês da Olimpíada, logo um shopping center em obras virou uma das construções mais fotografadas e discutidas de Pequim.

No dia 20, está prevista a abertura do Village Sanlitun, conjunto formado por 250 lojas, oito cinemas, hotel-design, galeria de arte, 30 restaurantes e bares e uma grande praça para shows. O empreendimento custou 5 bilhões de yuans (R$ 1,250 bilhão).

Sua inusitada arquitetura é o tema do debate. Não é um grande caixotão, como a maioria dos 87 shoppings da cidade, tão feios quanto os de São Paulo. São 19 prédios, bem diferentes entre si, de três e quatro andares, desenhados por japoneses, britânicos, americanos, italianos, de Cingapura e de Hong Kong.

Divulgação
Dezenove prédios foram desenhados por arquitetos japoneses, britânicos, americanos, italianos, de Cingapura e de Hong Kong
Dezenove prédios foram desenhados por arquitetos japoneses, britânicos, americanos, italianos, de Cingapura e de Hong Kong

Cada um não poupou criatividade para se destacar. No miniparque de diversões para arquitetos, um prédio é revestido de vidro espelhado ondulado, parecido com a fuselagem retorcida de um carro. As janelas de outro se projetam para fora da construção, em diagonal. Os italianos do escritório Lot-EK encaixaram containers na fachada.

O maior deles, desenhado pelo japonês Kengo Kuma, é todo coberto por retângulos em cores berrantes, como um quadro de Mondrian reinterpretado por Almodóvar.

Outro se aproveita da adoração chinesa pelo ouro e cria um inusitado revestimento dourado em toda a construção.

"É o oposto de um shopping center tradicional. Quisemos fazer algo aberto, com praça, bancos, ruas internas, prédios diferentes, como nas boas cidades", descreve o arquiteto-chefe do projeto, Chris Law, do escritório Oval, de Hong Kong. "A maior parte do complexo é iluminada com luz natural, sem precisar de ar-condicionado e calefação. É mais sustentável e socialmente mais inclusivo que qualquer outro shopping."

Law diz que, em uma cidade tão pouco amiga dos pedestres como a Pequim atual, ele quis fazer algo parecido com o bairro de antigamente. Imita uma antiga rua comercial, como os calçadões do centro de São Paulo, mas com prédios de arquitetura vanguardista.

Os edifícios são ligados por vielas e passarelas, como os antigos conjuntos habitacionais de Pequim, os hutongs, redes tradicionais de pátios e becos.

Proibindo arranha-céus

Sinal dos tempos é que a própria Prefeitura de Pequim, que permitiu a destruição de bairros históricos inteiros para dar lugar a medonhos condomínios fechados, limitou o tamanho das construções.

Proibidos de construir arranha-céus, os empreendedores tiveram a idéia dos prédios baixos, que se destacassem mais pelo desenho que pela altura.

Há duas estações de metrô nas imediações e bicicletário para quem preferir ir pedalando ao complexo de luxo.

O choque do imponente centro comercial também acontece por ele estar encravado em uma das poucas regiões boêmias de Pequim, o bairro de Sanlitun. Até poucos meses atrás, nos quarteirões ao redor, havia gigolôs oferecendo mocinhas para executivos, traficantes oferecendo droga na rua, botecos pés-sujos e lojas de DVDs piratas.

O comércio ilegal diminuiu recentemente pela repressão policial pré-olímpica, mas não se sabe se voltará depois dos Jogos para fazer companhia aos novos vizinhos. No Village, estarão a maior loja da Adidas no mundo, de 3.160 m2 e a primeira megastore da Apple na China, além de lojas de grifes como Uniqlo, Fendi, Roberto Cavalli, Sephora e Montblanc. Para alguns boêmios, o fim dos tempos.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca