Turismo
12/10/2009 - 11h49

Passeio por destilarias e castelos revela segredos do uísque escocês

CRISTINA PAIVA
da Revista da Folha

Certamente, há algumas combinações entre pratos e bebidas que são consenso entre os gourmets. Não há dúvida, por exemplo, de que molhos vermelhos à base de tomate vão bem com um vinho de boa acidez da Toscana, ou que o clássico da culinária francesa boeuf bourguignon deve levar em seu preparo o mesmo rótulo da Borgonha que será servido à mesa.

E se, para acompanhar um salmão defumado ou uma torta de cordeiro, lhe oferecessem uma taça (isso mesmo, taça, e não copo) de uísque de Islay, região insular da Escócia... diluído em água? Você pode achar que seu anfitrião exagerou na dose, mas isso é provável numa visita a esse país mítico.

Mark Tomaras/Divulgação
Banda de gaita de foles se apresenta no gramado do castelo medieval de Invercauld, localizado nas Highlands
Banda de gaita de foles se apresenta no gramado do castelo medieval de Invercauld, localizado nas Highlands

Assim como o vinho francês, o uísque escocês tem suas características intimamente relacionadas ao local onde é produzido. Isso porque seus principais ingredientes (água, cevada e levedura, que transforma a cevada em malte) vêm carregados da matéria orgânica que compõe o solo.

Durante o processo de envelhecimento, o barril respira, trocando ar com o ambiente e imprimindo ao uísque suas características. Quer dizer, se a destilaria estiver próxima ao litoral, o uísque terá um leve sabor salino; aquelas que se encontram nas regiões onde abunda a turfa (tipo de solo orgânico usado na secagem do malte), certamente terá um sabor mais forte, defumado.

A variedade de sabores é tão vasta quanto a profusão de paisagens nessa pequena porção de território descolado do continente. Há ofertas de pacotes de viagem que oferecem visitas às destilarias das diferentes regiões da Escócia. E, de quebra, você poderá se deliciar com os campos vastos pontuados por castelos medievais das Highlands ou com as montanhas escarpadas das regiões insulares.

As regiões e seus uísques

O território escocês é dividido em cinco regiões definidas de acordo com as características gerais dos uísques que produzem: Lowlands, a metade sul do país, onde ficam as principais cidades; logo acima estão as Highlands, a maior das regiões; Speyside, um recorte ao norte das Highlands; e, finalmente, as pequenas Islay e Campbeltown, localizadas ao sudoeste do país.

As duas principais cidades escocesas, Edimburgo e Glasgow, ficam nas Lowlands. Ali, o uísque é mais suave e com aromas delicados. Há somente três destilarias em funcionamento na região. Porém, a visita vale a pena, pois Edimburgo, a capital, é espetacular, com seus castelos e museus, além de uma vida fervilhante nas ruas (pelo menos durante o verão).

Na pequena região de Speyside, próxima da cidade Aberdeen, concentra-se metade das destilarias do país, responsáveis pela produção de uísques levemente adocicados, de sabor frutado. Pontuada por castelos como o de Balmoral, motivo de orgulho dos escoceses. Foi ali que a rainha Victoria fez sua morada de verão nos idos de 1848. A propriedade real, que conta com um museu e um grande bosque, também pode ser visitada.

Campbeltown e Islay são regiões vizinhas. Na produção do destilado, o destaque fica para Islay, chamada de "ilha do uísque". Também é conhecida pelas paisagens pitorescas, e seus rótulos do autêntico escocês têm sabor defumado, devido ao uso da turfa.

Mas é nas terras altas da Escócia, as Highlands, que a maior parte das destilarias fincou raízes. Lá, a natureza selvagem dos bosques densos e das montanhas pétreas dá charme extra aos suntuosos castelos medievais, muitos deles abertos ao público e preparados para receber seus hóspedes com cordialidade.

O castelo de Invercauld, localizado a cerca de duas horas de Aberdeen, funciona como um hotel, recebendo grupos de cerca de 20 pessoas em quartos luxuosos. Papéis decorados cobrem as paredes dos banheiros, onde os hóspedes costumam relaxar imersos em banheiras, enquanto admiram a paisagem.

Os jantares são uma atração à parte: os anfitriões ensinam os convidados o modo celta de degustação do uísque, compartilhado numa mesma tigela de prata entre todos da mesa.

E não se assuste se for acordado pela manhã por um gemido surdo de uma gaita de foles. Corra para fora e, quem sabe, verá surgir do meio do bosque uma banda de senhores vestidos a caráter com suas gaitas, num espetáculo emocionante.

Mark Tomaras/Divulgação
Músico caminha com sua gaita de foles em direção ao castelo medieval de Invercauld, localizado a cerca de 2 horas de Aberdeen
Músico caminha com sua gaita de foles em direção ao castelo medieval de Invercauld, localizado a cerca de 2 horas de Aberdeen

As destilarias parecem ter vida própria. Poucos funcionários observam em silêncio alambiques de cobre que, pelo formato de grande ampola com escotilhas, lembram submarinos. Lá dentro pingam os líquidos que vão sendo extraídos, pouco a pouco, dos caldos fermentados, exalando vapores inebriantes.

É difícil imaginar como se controla todo esse processo (mesmo estando sóbrio), que é artesanal e trabalha com matéria orgânica. Por isso, a arte de produzir e, principalmente, misturar "single malts" (que darão origem aos ''blendeds"), requer muita habilidade e experiência.

Os uísques mais populares do mundo, como Johnnie Walker, Buchannan's, Ballantine's, Chivas Regal, Grant's, J&B e Black & White, que respondem por 90% das exportações do produtores escoceses, são ''blendeds", ou seja, misturados, numa combinação de 15 a 50 tipos diferente de "single malts" e uísques de grãos numa única garrafa.

Arte de beber

Durante as visitas às destilarias, fique atento às dicas dos especialistas. Seja qual for o tipo de uísque que escolher como o de sua preferência, reinam algumas regras para a degustação do "uisgea beatha" ou "água da vida", como a bebida era chamada pelos celtas.

As taças para consumo do uísque podem variar, mas nunca utilize o chamado "copo de uísque", inventado e popularizado pelos norte-americanos, que o enchem de gelo. Isso pode ofender os escoceses.

E ninguém desejaria provocar a ira de um povo conhecido pela bravura nas guerras.

O copo de boca larga deixa escapar todos os aromas e o gelo anestesia as papilas gustativas. O ideal é aquele usado para saborear o conhaque francês. Tem a forma de um balão e contribui para concentrar os aromas.

Nas degustações promovidas pelas destilarias, além do copo balão, é aconselhado versar água fresca depois do segundo gole, para "liberar" todos os sabores e "abrir" o uísque. Aí você poderá sentir todas as essências contidas na bebida, de frutas secas e alimentos defumados a frutas frescas e aromas florais.

Por fim, escolha seu prato de acompanhamento. O que pode ser um pouco difícil. Afinal, a gastronomia anglo-saxã não goza de grande reputação. Diz a piada que figura entre os três menores livros do mundo, ao lado das "Glórias Navais Italianas" e das "Pérolas do Humor Germânico", as "Delícias da Culinária Britânica". O humor britânico e o uísque escocês compensam.

QUANDO IR

De maio a agosto, é mais seco e menos frio. No resto do ano, muita chuva e temperaturas baixas, com máximas em torno de 6ºC no frio

DICAS

Prepare seus ouvidos para o ''scottish", mistura de inglês britânico com resquícios de outras línguas, como o gaélico

ONDE SABER MAIS

www.scotlandwhisky.com
Apresenta diversos "single malts" que exemplificam as principais características do uísque escocês, associadas à região produtora. Há sugestão de pratos para serem acompanhados de uísque

www.malts.com/en-row/Home
Reúne todas as destilarias da Escócia abertas a visitas e oferece pacotes de viagem com hotel e tours nas destilarias por região. Informa ainda o calendário de festas comemorativas, eventos e cursos ligados ao uísque

Cristina Paiva viajou a convite da Diageo.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca