21/06/2001
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18h15
Nem só de palavras se faz uma poesia, mas também de espaços. E os versos de um lugar estão sobretudo na sua geografia física, naquilo que distingue, por exemplo, a quietude de uma montanha da sensualidade de uma praia, e que faz de cada local povoado pelo homem uma combinação única de natureza e cultura.
É com base nessas idéias que o urbanista Eduardo Yázigi, 60, faz críticas vorazes ao "lado perverso da globalização" -a padronização dos gostos e estilos, que levaria todas as cidades a "terem a mesma cara".
O turismo, para o professor do departamento de geografia da Universidade de São Paulo (USP), só pode fazer sentido como encontro das diferenças: "Se vou a Paris, é porque é diferente de São Paulo", afirma.
E o exemplo não é gratuito.
A capital francesa, para Yázigi, é exemplo de cidade "feita para o cidadão, e não para o turismo, e que por isso mesmo se tornou atração turística".
Já Campos do Jordão, ao seu ver, é um caso oposto. Estudioso da cidade, que investigou em livros como "A Alma do Lugar" (editora Contexto), Yázigi ataca a linhagem recente de prefeitos e vereadores locais por compactuarem com o que ele considera a "mentira da Suíça brasileira" -mentira dupla, por imitar traços culturais alheios e por escamotear disparidades sociais inexistentes na "matriz".
Leia, a seguir, os principais tópicos da entrevista concedida por Yázigi à Folha.
A ALMA DO LUGAR - "Todo lugar tem sua alma. Essa alma é feita por todo o mundo físico e pelo que não aparece no físico, mas que faz, por exemplo, que uma catedral e um prédio da Bolsa de Valores com um mesmo estilo neoclássico despertem sentimentos diferentes. O que faz a alma do lugar é a paixão do homem por ele, de geração em geração. As periferias das grandes cidades são lugares sem alma. Não há condições para que seus moradores tenham vínculo afetivo com o lugar em que vivem."
GLOBALIZAÇÃO - "Você não consegue modificar Paris com a globalização como você modifica São Paulo. A densidade histórica e a resistência cultural da primeira é muito maior. Nós estamos nos modificando pelo lado perverso da globalização. Destruímos toda nossa herança cultural e arquitetônica. O que sobrou como identidade? É a geografia física. Não "globalizo" a serra do Mar; ela continuará diferente da Floresta Negra alemã."
CONTRADIÇÕES DO TURISMO - "Turismo é incompatível com miséria. Não adianta você ter um hotel cinco estrelas e o turista sair à rua e ser assaltado, assassinado ou dar de cara com uma favela, que, no caso de Campos, já está virando as montanhas. Quando você sai do bairro de Abernéssia em direção ao Palácio do Governo, vê um mar de favelas."
SUBSERVIÊNCIA - "Não acho que a arquitetura deva imitar o resto do mundo com uma subserviência cultural. O bairro de Capivari, em Campos, por exemplo, é escandalosamente uma tentativa de imitar a Suíça. Isso é uma mentira. Os turistas europeus que vêm aqui são muito discretos em não debochar da nossa cara."
CIDADE DO FRIO - "A verdadeira identidade de Campos está nos bairros de Abernéssia e Jaguaribe. Já em Capivari, as pessoas têm de pôr madeirame nas fachadas para que estas pareçam suíças. Começaram a cultuar tanto a imagem de "lugar do frio" que, quando não tem frio, as pessoas não vão lá, ao contrário das montanhas da Europa. Então começam a inventar festivais de tudo no resto do ano porque os hotéis fecham."
SUÍÇA BRASILEIRA - "Quisera Deus Campos tivesse os padrões da Suíça. Suíça brasileira com favela, com lixo acumulado na rua, sem escolas nem hospitais?"
BELEZA JORDANENSE - "Campos do Jordão ainda tem lugares de uma beleza excepcional, sobretudo na área rural. Não que eu ache feio o que está em Capivari. Só que é uma mentira, até porque adota uma arquitetura do século 19. A Suíça de hoje não é essa. Bariloche [Argentina", que teve efetiva ocupação alemã, não cai nesse simulacro".
INSPIRAÇÃO CAIPIRA - "Em toda a serra da Mantiqueira, inclusive em Campos, ignorou-se solenemente toda a inspiração que poderia vir da arquitetura colonial e até da caipira, que é de uma beleza e simplicidade enormes."
A POÉTICA DO ESPAÇO - "O filósofo francês Gaston" Bachelard foi um dos que perceberam que o espaço tem uma poética. Mas aonde o turismo vai ele está estragando essa poética. Daí que, no Brasil de hoje, quando descobrimos um lugar e falamos dele para outrem, começamos a estragar esse lugar."
Globalização ameaça "poesia" geográfica em Campos do Jordão
da Folha de S. PauloNem só de palavras se faz uma poesia, mas também de espaços. E os versos de um lugar estão sobretudo na sua geografia física, naquilo que distingue, por exemplo, a quietude de uma montanha da sensualidade de uma praia, e que faz de cada local povoado pelo homem uma combinação única de natureza e cultura.
É com base nessas idéias que o urbanista Eduardo Yázigi, 60, faz críticas vorazes ao "lado perverso da globalização" -a padronização dos gostos e estilos, que levaria todas as cidades a "terem a mesma cara".
O turismo, para o professor do departamento de geografia da Universidade de São Paulo (USP), só pode fazer sentido como encontro das diferenças: "Se vou a Paris, é porque é diferente de São Paulo", afirma.
E o exemplo não é gratuito.
A capital francesa, para Yázigi, é exemplo de cidade "feita para o cidadão, e não para o turismo, e que por isso mesmo se tornou atração turística".
Já Campos do Jordão, ao seu ver, é um caso oposto. Estudioso da cidade, que investigou em livros como "A Alma do Lugar" (editora Contexto), Yázigi ataca a linhagem recente de prefeitos e vereadores locais por compactuarem com o que ele considera a "mentira da Suíça brasileira" -mentira dupla, por imitar traços culturais alheios e por escamotear disparidades sociais inexistentes na "matriz".
Leia, a seguir, os principais tópicos da entrevista concedida por Yázigi à Folha.
A ALMA DO LUGAR - "Todo lugar tem sua alma. Essa alma é feita por todo o mundo físico e pelo que não aparece no físico, mas que faz, por exemplo, que uma catedral e um prédio da Bolsa de Valores com um mesmo estilo neoclássico despertem sentimentos diferentes. O que faz a alma do lugar é a paixão do homem por ele, de geração em geração. As periferias das grandes cidades são lugares sem alma. Não há condições para que seus moradores tenham vínculo afetivo com o lugar em que vivem."
GLOBALIZAÇÃO - "Você não consegue modificar Paris com a globalização como você modifica São Paulo. A densidade histórica e a resistência cultural da primeira é muito maior. Nós estamos nos modificando pelo lado perverso da globalização. Destruímos toda nossa herança cultural e arquitetônica. O que sobrou como identidade? É a geografia física. Não "globalizo" a serra do Mar; ela continuará diferente da Floresta Negra alemã."
CONTRADIÇÕES DO TURISMO - "Turismo é incompatível com miséria. Não adianta você ter um hotel cinco estrelas e o turista sair à rua e ser assaltado, assassinado ou dar de cara com uma favela, que, no caso de Campos, já está virando as montanhas. Quando você sai do bairro de Abernéssia em direção ao Palácio do Governo, vê um mar de favelas."
SUBSERVIÊNCIA - "Não acho que a arquitetura deva imitar o resto do mundo com uma subserviência cultural. O bairro de Capivari, em Campos, por exemplo, é escandalosamente uma tentativa de imitar a Suíça. Isso é uma mentira. Os turistas europeus que vêm aqui são muito discretos em não debochar da nossa cara."
CIDADE DO FRIO - "A verdadeira identidade de Campos está nos bairros de Abernéssia e Jaguaribe. Já em Capivari, as pessoas têm de pôr madeirame nas fachadas para que estas pareçam suíças. Começaram a cultuar tanto a imagem de "lugar do frio" que, quando não tem frio, as pessoas não vão lá, ao contrário das montanhas da Europa. Então começam a inventar festivais de tudo no resto do ano porque os hotéis fecham."
SUÍÇA BRASILEIRA - "Quisera Deus Campos tivesse os padrões da Suíça. Suíça brasileira com favela, com lixo acumulado na rua, sem escolas nem hospitais?"
BELEZA JORDANENSE - "Campos do Jordão ainda tem lugares de uma beleza excepcional, sobretudo na área rural. Não que eu ache feio o que está em Capivari. Só que é uma mentira, até porque adota uma arquitetura do século 19. A Suíça de hoje não é essa. Bariloche [Argentina", que teve efetiva ocupação alemã, não cai nesse simulacro".
INSPIRAÇÃO CAIPIRA - "Em toda a serra da Mantiqueira, inclusive em Campos, ignorou-se solenemente toda a inspiração que poderia vir da arquitetura colonial e até da caipira, que é de uma beleza e simplicidade enormes."
A POÉTICA DO ESPAÇO - "O filósofo francês Gaston" Bachelard foi um dos que perceberam que o espaço tem uma poética. Mas aonde o turismo vai ele está estragando essa poética. Daí que, no Brasil de hoje, quando descobrimos um lugar e falamos dele para outrem, começamos a estragar esse lugar."

