Vinicius de Moraes não era um bom partido; ouça filha do poeta
VIVIAN RETZ LUCCI
Editora de Multimídia da Folha Online
Sua paixão era tanta que sua primeira união foi realizada por meio de uma procuração, pois como ele próprio dizia, "o tempo do amor é irrecuperável". Durante sua trajetória, foram nada mais nada menos do que oito casamentos, quatro filhos, cerca de 400 poemas, 13 livros e dezenas de discos.
A primeira filha do poeta Vinicius de Moraes (1913-1980), Susana Moraes, 68, sentencia logo no começo da entrevista: "Vinicius não era um bom partido". Em seguida ela minimiza e explica que ele amou muitas vezes e brinca ao dizer que o poeta sempre se relacionou com uma mulher de cada vez. Acompanhe, neste videocast especial de Bossa Nova , entrevista com Susana. Veja também as entrevistas com Carlos Lyra e Roberto Menescal.
A família de classe média se esforçou para que Vinicius freqüentasse as melhores escolas do Rio de Janeiro. A composição começou de forma amadora aos 15 anos. Em 1938, após publicar um livro de poesias, ele ganhou uma bolsa para Oxford, na Inglaterra, e nesse ínterim ele conheceu a paulistana Beatriz Azevedo de Mello. Tati, como era conhecida, também foi a musa inspiradora de Monteiro Lobato para criar a personagem Narizinho.
"Tati, minha mãe, era uma moça rica de São Paulo, de uma família tradicional. Ela era noiva, mas quando conheceu Vinicius foi uma paixão instantânea. Ela desfez o noivado, mas era uma época em que não era possível partir, simplesmente. Então teve uma briga terrível de família, ela vendeu as jóias, eles casaram por procuração e ela foi."
Apesar de o casal estar em um país distante e longe da família, nesta época o relacionamento era escondido de todos, pois o poeta poderia perder a bolsa, caso descobrissem sua união.
Quando os dois retornaram para o Brasil, Tati engravidou de Susana. "Eu fui feita no mar, pois os submarinos alemães paravam os navios brasileiros."
De volta ao solo brasileiro, o poeta precisava de um emprego, afinal, agora tinha uma família para sustentar. Com a ajuda de seus amigos ligados ao Itamaraty, Vinicius se tornou diplomata.
Após seis anos no Itamaraty, o poeta foi para Los Angeles. "Ele descolou essa viagem porque, paralelo a isso, ele se interessava muito por cinema. Foi fundador de um cineclube importante aqui no Rio, ficou amigo de Orson Welles e era a favor do cinema mudo, um purista da imagem", explica.
Durante os cerca de quatro anos em solo americano, Vinicius se apaixonou pelo jazz, que futuramente seria uma das raízes fundamentais para a Bossa Nova. Tom Jobim teve uma formação semelhante e João Gilberto, no interior da Bahia, também se interessava pelo mesmo estilo musical e, coincidentemente, teve as mesmas influências dos músicos cariocas.
Susana diz que com 15 anos, quando ouviu a Bossa Nova pela primeira vez, tinha a sensação de que era ela que estava cantando. "João Gilberto era a minha dicção, ele era como eu e como a minha geração. Aquela música era a nossa expressão."
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