"Nara Leão já ouvia jazz aos 12 anos"; veja Roberto Menescal
VIVIAN RETZ LUCCI
Editora de Multimídia da Folha Online
Roberto Menescal completaria 15 anos, no início da década de 50. A festa estava programada para ser realizada no apartamento de alguns amigos, localizado na praia de Copacabana. Porém aconteceu o que a maioria dos rapazes dessa idade mais temem: entre os convidados, 30 meninos e apenas cinco meninas. "Eu disse que sairia convidando as meninas pelo meio da rua quando vi a Nara passar do outro lado da avenida com mais uma amiga."
Acompanhe neste videocast entrevista com Roberto Menescal. Ele conta sobre o episódio com Nara Leão e a formação de um grupo de jovens músicos que fez história no cenário musical do Brasil. Veja também as entrevistas com Carlos Lyra e Susana Moraes, filha de Vinicius.
Menescal conta que Nara chegou deslumbrante à festa. Ele estava acostumado a vê-la com uniforme de colégio e se espantou ao saber que ela, na época, tinha apenas 12 anos. Ao conversar com Nara, o compositor disse ter notado que a menina destoava dos outros adolescentes, já que ouvia jazz, música considerada chique e moderna. "Eu mesmo nunca havia ouvido falar."
Dois anos se passaram e Menescal e Nara começaram a freqüentar aulas de violão. Logo um "time" de amigos foi formado, mas eles tocavam músicas da época, canções folclóricas e sambas-canção, com letras pesadas que pouco tinham a ver com aquele grupo de jovens da classe média carioca. "A gente adorava, mas seríamos uma geração que cantaria músicas que diziam 'ninguém me ama, ninguém me quer', e a gente já estava se acostumando com aquilo."
Menescal conheceu então Carlos Lyra no colégio e, no primeiro dia, já mataram aula. Lyra já tinha uma música gravada e era uma espécie de herói da garotada da escola. Ronaldo Boscoli e Oscar Castro Neves também se juntaram à turma e os amigos começam a compor. "Era um grupo de amadores e profissionais que se reuniam na casa da Nara, na avenida Atlântica, 15 metros de vista para o mar. Então os nossos temas começam a nascer do mar."
O Barquinho
Menescal praticava pesca submarina e, nos finais de semana, deixava a música para se dedicar ao esporte. Em certa oportunidade, Nara, Boscoli e mais oito pessoas foram passear de barco em Cabo Frio com o amigo mergulhador. O barco enguiçou e a manivela passou a ser rodada na mão, pois acabou a bateria. Todos ficaram apavorados.
Para acalmar os ânimos, Menescal passou a brincar com o barulho que a manivela fazia. Quando começou a escurecer, o barco estava longe da costa. Enfim chegou uma embarcação que deu carona ao grupo. Neste momento, Menescal e Ronaldo começam a cantar "o barquinho vai, a tardinha cai". No dia seguinte, a dupla lembrou os versos e criou "O Barquinho".
Bossa Nova
Silvia Teles, uma jovem cantora promissora, se apresentava regularmente no Clube da Hebraica, no bairro de Laranjeiras. Menescal comparecia às apresentações da Silvinha semanalmente e eles se tornaram amigos. Em pouco tempo, a cantora convidaria o grupo de jovens compositores para participar de uma das apresentações.
No cartaz estava escrito: "Hoje: Silvia Teles e um grupo bossa nova". Quando chegou ao local, Menescal achou que se tratava de uma banda que já existia. O organizador do show explicou que como eles não tinham um nome, inventou um para a apresentação. "Então a gente saiu de lá com esse nome", conta o cantor.
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