Machado usa recursos que mantêm leitor distante da narração; veja
da Folha Online
O centenário da morte de Machado de Assis (1839-1908) cria mais uma oportunidade de lembrar a obra desse que é o grande autor clássico da literatura brasileira. No romance "Dom Casmurro", o escritor fez uso dos capítulos curtos e digressivos, bem como da técnica da metalinguagem, recursos que obrigam o leitor a manter certo distanciamento da matéria narrada.
Neste videocast, a consultora de língua portuguesa e colunista da Folha, Thaís Nicoleti, faz comentário sobre as obras do escritor.
Substitui-se a leitura emotiva (aquela que envolvia o leitor com os personagens a ponto de passar a impressão de que realidade e ficção pertenciam a um mesmo plano) por uma leitura racional, orientada pelo pessimismo do narrador também personagem principal.
O tema do romance é o adultério --de resto, um tema comum ao naturalismo (vejam-se obras como "O Cortiço", de Aluísio Azevedo, ou "O Crime do Padre Amaro", de Eça de Queirós, entre outras)--, porém tratado de forma diferente.
Ainda que a visão determinista possa estar subjacente à história de Bentinho, Capitu e Escobar ("Se te lembras bem de Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca", diz o narrador), o romance nada tem dos traços esquemáticos dos romances naturalistas. O autor não está a serviço da defesa da tese determinista.
Mas quem ainda não leu Machado pode começar pelos seus contos da chamada fase realista. Na coletânea "Histórias sem Data", por exemplo, está uma das preciosidades do Bruxo do Cosme Velho, o conto "A Igreja do Diabo", um dos mais bem-acabados textos da lavra machadiana.
O Diabo, com sua fala retórica, desenvolve uma engenhosa parábola, em que transforma os antigos vícios a soberba, a luxúria, a gula etc. em virtudes. A avareza é a "mãe da economia", a inveja é a "virtude primordial", segundo ele.
A demonstração mais eloqüente de sua teoria aparece na defesa da venalidade: "Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório".
Ocorre que, embora o Diabo angarie muitas adesões à sua cínica doutrina, os seus "fiéis", pouco a pouco, passam a contrariar os princípios da nova igreja, fazendo boas ações às escondidas.
Aparentemente, existe um degrau entre os valores institucionais e os individuais. Impõe-se, dessa maneira, a fraude --que o Diabo definia como "o braço esquerdo do homem" para, depois, concluir que "muitos homens são canhotos".
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