São Paulo, sábado, 04 de novembro de 2006

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Lula é criticado por ausência em cúpula

Meios de comunicação no Uruguai e na Argentina afirmam que presidente se omitiu num momento crítico para o Mercosul

Presidentes Tabaré Vázquez e Néstor Kirchner sustaram conversas sobre instalação de uma indústria de celulose nas margens do rio Uruguai

BRUNO LIMA
ENVIADO ESPECIAL A MONTEVIDÉU

"Por que Lula não veio?" A mesma pergunta foi feita à reportagem da Folha por jornalistas da Espanha, da Argentina, da Venezuela e do Uruguai no primeiro dia da 16 Cúpula de Chefes de Estado e de Governo dos Países Ibero-americanos, que acontece até domingo, em Montevidéu.
Em um momento crítico da crise entre Uruguai e Argentina, exatamente quando os dois países anunciam que foi interrompido o diálogo, Lula, presidente "pro tempore" do Mercosul, tornou-se motivo de piadas e críticas na televisão e nos jornais uruguaios por ter sido fotografado de sunga, descansando em uma praia.
O questionamento estava também nos corredores da cúpula, segundo contaram diplomatas, e se tornou um dos principais assuntos do encontro. O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, afirmou ter recebido telefonema de Lula em que ele teria alegado indicação médica para descansar, após o desgaste das eleições, e prometido uma visita ao Uruguai em um mês.
Na imprensa uruguaia e argentina, porém, analistas afirmaram ontem que a ausência traria um custo político ao presidente, que teria "fugido a suas responsabilidades" e, assim, beneficiaria a Argentina. A revista uruguaia "Caras e Caretas", que tem um viés mais sensacionalista, colocou Lula em sua capa. O título: "Macaco velho não sobe em galho podre".
Ao anúncio de que Lula não compareceria se seguiu uma cascata de outros comunicados de cancelamento, culminando com a desistência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de ir a Montevidéu. Com a ausência de 8 dos 22 governantes de países que integram a cúpula, esta se tornou a mais esvaziada edição em toda a história do encontro ibero-americano.
Nos dois dias anteriores ao evento, a relação entre os governos de Néstor Kirchner e de Tabaré Vázquez chegou a um ponto crítico, quando ambos afirmaram que estavam suspensas as conversas.
Ambientalistas e grupos comunitários que protestam contra a instalação da indústria de celulose finlandesa Botnia do lado uruguaio das margens do rio Uruguai voltaram ontem a cortar a passagem na principal rota comercial entre os dois países e construíram um muro simbólico na fronteira. Também houve vários protestos em Montevidéu. O Uruguai desejava uma ação de Kirchner para conter os bloqueios; a Argentina, porém, age para boicotar a instalação da "papeleira" e até incentiva os protestos.
O presidente espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, afirmou ontem que faria o possível para viabilizar o "entendimento e o diálogo" entre Kirchner e Vázquez durante o evento.
Até o fechamento desta edição, não estava previsto encontro entre os dois presidentes. Kirchner chegou ontem à noite a Montevidéu e não foi ao evento de abertura em que discursou o presidente uruguaio.

"Nada a ver"
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou ontem que a ausência de Lula "não teve nada a ver" com o impasse entre os dois vizinhos, mas sim com o "cansaço" e a "pressão" sofridas durante a campanha eleitoral. "O presidente Lula deve ter tido muito desejo de vir", disse.
Segundo o chanceler, somente o Uruguai pediu que o Brasil atuasse como mediador do conflito, o que, para ele, exige mais cautela brasileira. Amorim disse ainda que o assunto não é necessariamente um problema do Mercosul: "O Mercosul está num momento ótimo", disse. Ele citou a criação do Parlamento do Mercosul e a incorporação da Venezuela, entre outras medidas, para justificar o argumento.


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