São Paulo, segunda-feira, 23 de julho de 2007

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

ENTREVISTAS DA 2ª/TRAGÉDIA EM CONGONHAS/MÃES

CARMEM CABALLERO

Professora perdeu a mãe e duas das três filhas no acidente com o Airbus da TAM

"Foi tudo junto, fiquei órfã e sem as minhas filhas"

Carmem, 39, quer ler para as filhas Júlia, 14, e Mimi, 10, o novo livro do Harry Potter. "Assim elas vão poder ouvir lá do céu." Neusa, 57, defende o fechamento de Congonhas, onde morreu seu filho, Denilson, 29. "Não quero nem chegar perto dali." Glória, 55, pede que autoridades e empresas repensem a aviação após a tragédia que levou sua filha, Lina, 28. "Houve uma série de erros, de negligência." Mães de vítimas do maior acidente aéreo do país expressam dor e revolta.

DANIELA TÓFOLI
DA REPORTAGEM LOCAL

A professora Carmem Caballero, 39, assistiu firme às cenas ao vivo do acidente da TAM, na terça-feira, Tinha esperança de que a mãe, Maria Elizabete Silva Caballero, 65, e duas filhas, Júlia, 14, e Maria Izabel, a Mimi, 10, não estivessem ali.
Quando ouviu a confirmação do mesmo número do vôo em que estava parte de sua família, desabou. "Acho que só estou de pé agora por causa da única filha que me restou, a Lilian, de três anos. E das orações de amigos, de parentes e de pessoas que nem conheço, mas que me param na rua para dar um abraço." Júlia, Mimi e a avó voltavam de férias no sul para São José do Rio Preto (interior de São Paulo), onde moravam.
Nesta entrevista à Folha, Carmem conta que lerá um livro muito especial para as filhas, que pensou em se mudar do Brasil por causa dos governantes e que está sofrendo pelo amor materno em duas situações diferentes. Fala também do pior momento do dia em sua nova rotina e lembra da última vez em que falou com as filhas. Leia abaixo:  

FOLHA - Como a senhora ficou sabendo do acidente?
CARMEM CABALLERO
- Vi na TV, mas não tinha certeza de que era o vôo delas. Estava tranqüila, não tive nenhum pressentimento. Acho que Deus estava me preparando para o pior. Fui procurar as reservas para ver o número de vôo. Primeiro, divulgaram um número errado, e fiquei aliviada. Quando corrigiram, e vi que era o mesmo, eu caí de joelhos, comecei a gritar, dizia que eu não acreditava. Meu marido teve que me segurar, mas eu só repetia: "Era o vôo delas, era o vôo delas...".

FOLHA - Qual foi a última vez que falou com as meninas?
CARMEM
- Foi no sábado. Viajei domingo e só conversamos antes. Eu tinha ido assistir ao novo filme do Harry Potter, que elas adoravam, e ficaram me perguntando o que acontecia.
Para não estragar a surpresa, porque elas iam ver assim que chegassem, não contei muitos detalhes... Elas não vão poder mais ver. Nem ler o último livro. Lemos os outros seis juntas e discutimos várias vezes se Harry Potter ia morrer no final ou não. Júlia tinha certeza que sim, Mimi [Maria Izabel] dizia que não, que não era justo...
Vou comprar o último livro e ler em voz alta, assim pelo menos minhas filhas vão poder ouvir lá do céu...

FOLHA - Qual é o momento mais difícil do dia para a senhora?
CARMEM
- É de manhãzinha. Agora não tenho ninguém mais para acordar cedinho... O quarto da Júlia, a mais velha, fica bem em frente ao meu... Não sei o que vou fazer com ele. Nós tínhamos planejado mudar a decoração e, enquanto ela estava viajando, eu já tinha escolhido algumas cores, os motivos...
Ela faz dança do ventre e queria uma decoração indiana. Íamos começar as mudanças nesta semana.
Tenho tanta saudade da voz delas, daquele falatório que ficava aqui em casa. Eu não tinha tempo para nada. E agora sei que era feliz daquele jeito. Tudo que eu fazia, elas iam junto, eram grandes companheiras, a gente brincava que eram meus carrapatozinhos. Agora, nada mais tem graça.

FOLHA - Além das suas filhas, sua mãe também estava no vôo...
CARMEM
- Foi tudo junto. Fiquei órfã e sem minhas filhas. Perdi o amor materno e estou sofrendo por causa desse mesmo amor. Minha mãe não era melosa, de beijar, de abraçar, mas ela era atenciosa, prática, resolvia tudo. Era a alma da nossa família.

FOLHA - A senhora acompanhou os desdobramentos pela TV?
CARMEM
- Não assisti a muita coisa, mas vi aqueles dois energúmenos fazendo aquele gesto [o assessor da presidência, Marco Aurélio Garcia, flagrado por câmeras ao lado do assessor Bruno Gaspar fazendo gestos obscenos após assistir à reportagem sobre defeito no avião da TAM]. Foi uma pouca vergonha e pior ainda foi o presidente Lula não ter sido homem o suficiente para demiti-los. Achei uma infâmia o Lula demorar tanto tempo para falar.
Como homem, ele devia ter entrado no ar cinco minutos depois para dar as condolências, naquela hora, eu não queria nenhuma explicação, só precisava de palavra de consolo, de solidariedade... Pensei em me mudar do Brasil, não pelas pessoas, mas pelos governantes.

FOLHA - Quem a senhora acha que é o responsável pelo acidente?
CARMEM
- A última pessoa que eu responsabilizaria é o piloto. Acho que foi falha humana, mas dos altos escalões. Tem muito irresponsável dirigindo este país. Dá até vergonha.

FOLHA - Se pudesse, o que gostaria de dizer para elas agora?
CARMEM
- Eu sempre falava que as amava muito. Elas sabiam disso, mas queria que você escrevesse, por favor, como uma última homenagem, que eu amo minhas filhas demais...


Texto Anterior: Toda Mídia - Nelson de Sá: "Eu não volto tão cedo"
Próximo Texto: Frases
Índice



Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.