São Paulo, Domingo, 28 de Novembro de 1999


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Piloto que leva cocaína ao Suriname joga a droga no mar

ELVIRA LOBATO
enviada especial a Belém

Os pilotos brasileiros que transportam cocaína da Colômbia para o Suriname usam uma técnica de abastecimento dos garimpos da região amazônica para entregar a droga no local de destino: lançam a carga na água.
Quando estão próximos da costa do Suriname, os pilotos fazem vôo rasante sobre o mar e jogam a droga em um ponto previamente acertado com os compradores. A carga é recolhida por barco.
Para abastecer os garimpos no meio da selva, quando não há pista de pouso, os aviões jogam a carga -como alimentos e combustível- no rio mais próximo e ela é recolhida pelos garimpeiros. Pilotos que prestam serviços aos garimpeiros também são contratados pelos traficantes.
Os métodos de trabalho usados no transporte da droga foram descritos em detalhes pelo piloto Osmar Anastácio, 47, em depoimento dado à Polícia Federal do Pará, no último dia 19.
Ele foi preso na cabeceira de uma pista de pouso clandestina na fazenda Adãozinho, em São Félix do Xingu, quando esperava uma aeronave que levaria cocaína da Colômbia para o Suriname.
Com base no depoimento de Anastácio, a PF prendeu, há uma semana, o empresário Leonardo Dias Mendonça. Ele está preso na PF em Belém e é apontado como líder de uma organização que transporta cocaína da Colômbia para o Suriname, usando pilotos e aeronaves brasileiros.
Anastácio contou em seu depoimento -ao qual a Folha teve acesso- que os pilotos recebem US$ 15 mil por missão. Nos vôos em que há co-piloto, o dinheiro é dividido: US$ 5 mil para o co-piloto e US$ 10 mil para o piloto.
Proprietário de um avião Cessna, ele disse que trabalha há dez anos como piloto na região. Embora negue que tenha transportado droga em seu avião, admitiu sua participação no esquema como fornecedor de combustível e também está preso em Belém.
Em cada vôo eram transportados, em média, 200 kg de cocaína. Segundo o piloto, os aviões partiam de Goiânia e faziam escala para abastecimento na fazenda Adãozinho. Lá, os bancos eram arrancados para dar lugar a tambores com combustível extra.
De acordo com o relato de Anastácio, os aviões partiam em direção à Colômbia por volta das 14h e à noite estavam de volta, com a droga. Na madrugada, abastecidos, seguiam para o Suriname, voltando no mesmo dia.
Os aviões aterrizavam na fazenda sem uma das portas, que era arrancada para facilitar o lançamento da droga no mar. A porta e os bancos eram recolocados em seus lugares por Juarez de Souza Silva, empregado de Anastácio, que também prestou depoimento na PF e confirmou as informações dadas por seu patrão.
A pista começou a ser usada para o narcotráfico sem o conhecimento do dono da fazenda, mas, logo depois, ele foi informado sobre o que ocorria. Ao depor, o fazendeiro Adão Martins de Assunção disse que foi procurado pelo piloto em junho, que lhe propôs reformar a pista da fazenda em troca de poder usá-la para prestar serviço às madeireiras da região. Ele admitiu ter recebido apenas R$ 1.000 dos traficantes.


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