São Paulo, domingo, 05 de março de 2000


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+ ciência Evolução
Estudo que mede agressividade de insetos indica que grilos têm mecanismo de reabilitação instantânea após ser derrotados por seres da mesma espécie
Insetos duros na queda

Divulgação
Griloes da espécie Gryllus bimaculatus lutam durante experiência científica


Marcelo Valletta
da Reportagem Local

As pessoas que assistiram ao filme "O Último Imperador" (1988), do cineasta italiano Bernardo Bertolucci, devem se lembrar de uma cena em que um velho soldado chinês entrega um pote de vidro com um grilo ao futuro soberano. Na China, esses insetos são colocados para lutar em competições semelhantes às rinhas de galo no Brasil.
Inspirados nas técnicas dos donos desses insetos para fazer seus campeões disputarem repetidos confrontos em um curto espaço de tempo, dois cientistas do Instituto Zoológico da Universidade de Leipzig, na Alemanha, descobriram que grilos derrotados têm sua agressividade estimulada após voarem por alguns segundos. Normalmente, grilos que perdem um combate demoram até 24 horas para voltar a lutar.
"A influência do vôo nos níveis de agressividade dos grilos pode ser uma adaptação provocada pela seleção natural durante a evolução dessa espécie", disse à Folha o biólogo Hans Hofmann, atualmente professor da Universidade Stanford, nos EUA. Hofmann e seu colega Paul Stevenson publicaram os resultados de suas experiências na revista "Nature" de 10 de fevereiro.
O mecanismo que causa esse curioso fenômeno ainda é desconhecido pelos cientistas. Segundo Hofmann, "a retomada da agressividade por meio do vôo em grilos é o único exemplo conhecido de ativação de um movimento que afeta um comportamento subsequente".
Essas brigas de grilos, que ocorrem apenas entre machos, seguem um padrão ditado pela natureza. Os cientistas dividiram a luta em seis níveis. No primeiro deles, a batalha pode chegar ao fim com a rendição de um dos oponentes. Caso isso não aconteça, chega-se ao nível dois: os grilos "praticam esgrima" com suas antenas, como se elas fossem floretes.
No nível seguinte, um dos insetos exibe suas mandíbulas bastante abertas. Com a réplica do outro grilo, tem-se o próximo estágio. Depois, os combatentes se atracam (nível cinco) e, finalmente, lutam. A briga pode ser interrompida em qualquer um desses estágios, com a rendição de um dos insetos.
Quando um grilo é derrotado, ele evita outros combates por cerca de 24 horas, segundo os cientistas. Hofmann e Stevenson, seguindo as instruções da sabedoria popular, experimentaram chacoalhar os perdedores nas mãos fechadas em forma de concha e jogá-los para o alto repetidas vezes. Eles observaram que 56,5% dos insetos recuperaram sua agressividade após esse tratamento.
Mas os pesquisadores conseguiram encontrar uma maneira mais eficiente: eles estimularam os grilos a voar com uma corrente de ar. No final da experiência, 80% dos insetos recuperaram o nível de agressividade e voltaram a lutar com o oponente anterior.
O tempo de vôo não afetou os resultados. "Um vôo de dez segundos foi tão eficaz quanto um vôo de 15 minutos, e a influência de um vôo de um minuto ainda era evidente horas depois", escreveram os cientistas na "Nature". O "tratamento de vôo" pode ser repetido inúmeras vezes, sempre que um grilo é derrotado, sem perder a eficácia.
Testes com os grilos sendo estimulados a correr ou expostos à corrente de ar, porém presos ao chão, não surtiram efeitos tão expressivos, pois não incluíam vôo.
"Manipulação, estimulação sensorial e locomoção podem causar a liberação de aminas (compostos orgânicos à base de amônia), o que afeta o comportamento agressivo de artrópodes", escreveram. Segundo Hofmann, injeções de serotonina tornam os animais mais agressivos, enquanto octopamina os deixam em postura defensiva.
A agressão é comandada pelo cérebro, e o vôo em grilos é produzido por uma espécie de "gerador" localizado no tórax desses insetos. Ambos os órgãos são ligados por dois dutos. Os cientistas cortaram essas ligaduras e observaram que os insetos ainda voavam e mostravam sinais de hostilidade, mas o vôo não mais restaurava esses sinais após uma derrota. A secção de apenas uma ligadura não surtia nenhum efeito.
O próximo passo dos pesquisadores é entender o mecanismo que controla esse fenômeno. Eles pretendem induzir a retomada da agressividade dos grilos sem submetê-los ao vôo, por meio da estimulação de neurônios. "Também vamos analisar os sinais que vêm das asas e dos músculos para descobrir como eles podem afetar esse fenômeno", concluiu Hofmann.


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