São Paulo, domingo, 29 de junho de 2008

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Wallace, o herói esquecido da evolução

NATURALISTA GALÊS INTUIU A SELEÇÃO NATURAL MAIS RÁPIDO, MAS FOI RELEGADO AO RODAPÉ DA HISTÓRIA; SEU BIÓGRAFO ACUSA "INDÚSTRIA ACADÊMICA" SOBRE DARWIN

"Se você olha para as publicações da Sociedade Lineana, é muito claro que a teoria de Wallace é a afirmação mais lapidada. Muita gente dizia a Wallace: "Por que você fica falando na teoria de Darwin? A teoria é tão sua quanto dele!'"

DA REDAÇÃO

No dia 18 de junho de 1858, Charles Darwin recebeu em sua casa uma carta vinda da ilha de Ternate, atual Indonésia.
Seu autor era um jovem naturalista galês de 35 anos, Alfred Russel Wallace. Recuperando-se de uma crise de malária, Wallace mandou a Darwin o manuscrito intitulado "Sobre a Tendência das Variedades de se Diferenciarem Indefinidamente do Tipo Original", no qual enunciava o princípio da "sobrevivência do mais apto".
A esperança de Wallace era que Darwin, famoso já naquela época, gostasse da teoria e lhe ajudasse a arrumar um emprego quando voltasse à Europa.
Darwin quase caiu para trás ao ler o manuscrito. Ali, em cerca de cinco páginas, Wallace enunciava os princípios que Darwin vinha ruminando desde 1844 em seu "grande livro sobre as espécies". Darwin, no entanto, nunca considerou o livro completo o suficiente para publicação. Além disso, reza a lenda, temia ferir os brios cristãos de sua mulher, Emma -e do resto da Inglaterra.
Desesperado diante da perspectiva de perder a prioridade sobre a teoria, Darwin escreveu a Charles Lyell, pai da geologia moderna (e correspondente de Wallace), e a seu amigo Joseph Hooker em busca de orientação. Lyell e Hooker, então, tiveram a idéia de organizar uma leitura conjunta dos dois trabalhos na Sociedade Lineana. Depois dela, Darwin correu para preparar um "resumo" de sua obra para publicação, no ano seguinte: surgia a "Origem".
Wallace (1823-1914) chegou a ser considerado o maior cientista britânico. Diferentemente de Darwin, era um polímata: seus interesses iam da história natural ao manejo florestal, passando pela política de saúde pública (foi opositor das vacinas) e pelo espiritismo -fato que o distanciou de Darwin. No entanto, esse outro pai da seleção natural acabou relativamente esquecido. Tanto que as comemorações a Wallace acontecerão em novembro deste ano, com a publicação do livro "Natural Selection and Beyond: The Intellectual Legacy of Alfred Russel Wallace", editado por Charles Smith e George Beccaloni.
"Está saindo deliberadamente neste ano e não no próximo", ri o britânico Peter Raby. Professor de literatura em Cambridge, Raby é autor da biografia do naturalista, "Alfred Russel Wallace: A Life" (2002). Em entrevista à Folha, Raby comenta o legado de Wallace e acusa a existência de uma "indústria acadêmica" de Darwin em sua universidade. (CA)

FOLHA - Por que Wallace ficou relegado a uma nota de rodapé, quando aparentemente ele intuiu a seleção natural mais rápido que Darwin?
RABY
- Tem havido uma enorme indústria acadêmica em torno de Darwin emanando de Cambridge nos últimos 20 ou 25 anos. O Projeto Darwin, que publicou toda a correspondência dele, após um enorme esforço de pesquisa, é um exemplo.
A outra faceta disso é que a "Origem das Espécies" foi publicada quando Wallace ainda estava no exterior. E Wallace, embora tenha publicado diversos livros famosos, nunca teve a oportunidade de preencher o esqueleto da teoria com o mesmo tipo de exposições detalhadas que Darwin apresentou.
Quando Wallace voltou para casa, a "Origem das Espécies" havia ocupado a proeminência.
Wallace planejou, sim, um grande livro...

FOLHA - ...mas ele estava ocupado demais ganhando a vida.
RABY
- Sim, e estava longe de bibliotecas, vivendo uma vida de naturalista coletor independente. Ele não teve a oportunidade de se sentar e escrever e fazer as pesquisas detalhadas que Darwin teve tempo de fazer. Mas, mesmo assim, é estranho que Wallace tenha se dissipado do imaginário popular. Se você olha para as publicações da Sociedade Lineana, é muito claro que a teoria de Wallace é a afirmação mais lapidada, enquanto os documentos de Darwin não têm a mesma completude. Muita gente, naquela época, dizia a Wallace: "Por que você fica falando na teoria de Darwin? A teoria é tão sua quanto dele!" [Charles] Lyell era uma dessas pessoas; ele dizia a Wallace: "Você é modesto demais"! Sim, ele era.
A outra razão pela qual ele acabou apartado da doutrina foram suas reservas posteriores quanto à seleção natural e a origem do homem. Darwin ficou chocado com aquilo que ele chamou de "apostasia" de Wallace. Embora Wallace tenha desposado o darwinismo muito entusiasticamente, ele mesmo fez essa grande ressalva. Acho que essa é uma razão mais compreensível para Wallace ter sido jogado de escanteio.

FOLHA - Nós temos alguma razão para imaginar que Darwin tenha se aproveitado do artigo de Wallace para escrever seu capítulo sobre seleção natural?
RABY
- (Pausa) Bem, há versões diferentes dessa história.
Um livro acaba de ser publicado por Roy Davis chamado "Darwin Conspiracy" ("A Conspiração de Darwin"). Há algumas perguntas sem resposta sobre como Darwin agiu. Eu diria que foi Hooker o responsável por assegurar que Darwin tenha obtido o maior crédito possível pela publicação conjunta. O próprio Darwin ficou ligeiramente surpreso ao ver que seus documentos acabaram sendo mais do que apêndices ou notas de rodapé aos de Wallace. Quanto à sugestão de a carta de Wallace ter chegado antes do que Darwin disse que ela chegou, portanto dando a Darwin tempo de escrever e pensar a respeito, é um cenário perfeitamente plausível. Só que eu não acho que haja nenhuma evidência concreta disso.
O argumento de Roy Davis é que o sistema de correios da Holanda [a Malásia e a Indonésia eram colônias holandesas quando Wallace estava no Pacífico] eram extremamente eficientes, e se tudo corresse conforme planejado, a carta deveria ter chegado antes de 1º de junho de 1858. É uma hipótese interessante, mas, a meu ver, especulativa. A questão continua em aberto. Fato é que Wallace não recebeu todo o crédito que deveria ter recebido.

FOLHA - O sr. esteve no Brasil durante as pesquisas da biografia de Wallace?
RABY
- Infelizmente não. Eu tinha pouco tempo e pouco dinheiro na época. Fui a Cingapura e a Sarawak [Malásia], porque eu queria ver pelo menos um lugar onde Wallace pesquisou. Espero poder ir ao Brasil, porque há outras pessoas nas quais eu sou extremamente interessado que viajaram pela Amazônia. Meu livro anterior, "Bright Paradise", era sobre viajantes científicos vitorianos.
Eu escrevi sobre Wallace, mas também sobre Richard Spruce e Henry Walter Bates.

FOLHA - O quão importante foi a Amazônia na formatação da mente científica de Wallace? O sr. escreveu que, quando ele chegou ao Brasil, ele era um coletor mercenário, e quando foi para as Índias, era um cientista em formação.
RABY
- Aqueles quatro anos na Amazônia moldaram a mente e a vida de Wallace. Foi em parte o ambiente da Amazônia e como ele respondia a ele. Mas também todas as reflexões que aconteceram. Claro que ele não conseguiu explorar essas reflexões da maneira como ele planejava, por causa da perda de parte de seu material [num navio que pegou fogo a caminho da Inglaterra], mas não obstante isso deu a ele a amplitude de visão e o tempo de reflexão de que ele precisava para ser mais do que um colecionador. Eu sinto muito fortemente que não a teoria final, mas seu instinto sobre as espécies, que seria esclarecido no arquipélago malaio, os alicerces disso foram construídos na Amazônia.
Quando Bates escreve para ele, após ter lido o artigo de Sarawak sobre variedades de espécies-que você pode chamar de estágio 1 da seleção natural-, Bates disse mais ou menos assim: "Eu fiquei surpreso ao vê-lo se posicionando tão assertivamente sobre a teoria. Uma teoria que, como você sabe, foi minha também". O que me sugere uma ligeira censura, mas sugere também que Bates e Wallace, e talvez Spruce também, já haviam discutido essas coisas na Amazônia.

FOLHA - Mesmo após a evolução, Wallace passou o resto da vida meio deslocado depois que voltou para a Europa. É verdade que ele nunca arrumou um emprego decente?
RABY
- Acho que escrever se tornou o emprego decente dele.
Ele escrevia muito fluentemente, num estilo muito claro.
Ele achava que poderia ganhar dinheiro escrevendo livros, além de artigos. Ele se candidatou a vários outros trabalhos e não conseguiu nenhum. Ele se virava para viver. Algumas vezes ele estava bem de vida, outras vezes ele parecia apertado.
Mas ele vivia muito feliz, e eu acho que essas duas grandes expedições, à Amazônia e ao arquipélago malaio, tornaram-no irrequieto psicologicamente.
Ele se candidatou ao cargo de secretário-assistente da Royal Geographical Society, e não conseguiu, embora Bates, quando voltou, tenha visto no cargo uma oportunidade de se reintegrar ao "establishment" científico. Acho que Wallace curtia não seu isolamento, mas sua independência.

FOLHA - Sr. vai fazer alguma coisa no dia 1º de julho? RABY - Vou erguer um brinde a Wallace.


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