São Paulo, quarta-feira, 01 de julho de 2009

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ANÁLISE

Percepção sobre gorjeta pode mudar

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Por que damos gorjeta? A resposta a esse problema não é trivial e já mobilizou diferentes escolas de economistas.
Diz a lenda que, originalmente, clientes satisfeitos com os serviços oferecidos recompensavam o prestador saindo com ele para juntos molharem a garganta -daí que, em português, "gorjeta" vem de "gorge", o termo francês para "garganta". A mesma ideia se repete nas palavras francesa e alemã para designar a prática: "pourboire" (para beber) e "Trinkgeld" (dinheiro da bebida).
Partindo do pressuposto de que apenas hábitos que promovem a eficiência são conservados, economistas de correntes mais clássicas como Kenneth Arrow (Stanford) postularam a tese de que a gorjeta é uma excelente forma de os patrões controlarem a qualidade dos serviços prestados por seus funcionários: se estes obtêm boas gratificações é porque estão agradando aos clientes.
Essas teorias, entretanto, apresentam dificuldades. Para começar, elas não explicam diferenças entre países. Enquanto nos EUA a gorjeta é uma instituição fortíssima -um negócio de US$ 5 bilhões anuais-, na Austrália e na Nova Zelândia ela é vista com desconfiança, como "coisa de americano".
As abordagens clássicas tampouco explicam por que o freguês deixaria voluntariamente a gratificação -em especial quando ele sabe que nunca mais vai voltar ao local.
Esses e outros problemas levaram economistas comportamentais como Ted O'Donoughue (Cornell) e Ofer Azar (Ben-Gurion) a propor um modelo alternativo, no qual a gorjeta é descrita também como uma norma social. O freguês pagaria um preço ao infringi-la.
Quando o cliente sai de barriga cheia do restaurante sem deixar a caixinha, não apenas prejudica sua reputação externa (todos gostamos de parecer generosos), como também perde pontos na autoimagem. A atitude é vista como uma violação a conceitos que já internalizamos, em especial o de justiça.
O risco de propostas como a que agora tramita no Congresso é que elas provoquem mudanças de percepção. Se as pessoas passarem a ver a gorjeta como menos justa -o projeto explicita a apropriação de parte dela pelos patrões-, poderão simplesmente abandonar a prática. Eu, pelo menos, só deixava a caixinha devido à crença, ingênua, agora eu sei, de que os empregados ficavam com tudo.


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