São Paulo, domingo, 05 de março de 2000


Envie esta notícia por e-mail para
assinantes do UOL ou da Folha
Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

GILBERTO DIMENSTEIN

A mulher é o sexo forte


A mulher que trabalha na região metropolitana de São Paulo é mais instruída do que os homens: 44% têm ensino médio contra 37% dos homens.
Essa informação está contida num relatório divulgado semana passada pela Fundação Seade sobre mercado de trabalho, anunciando que a taxa de ocupação feminina bateu recorde histórico. São cinco anos de crescimento ininterrupto.
A ocupação masculina se mantém estabilizada. Traduzindo: são elas que vêm ocupando majoritariamente as novas vagas.
Por exemplo: no setor serviços, de cada 10 novos postos, 7 (isso mesmo, 7) são levados pelo ex-sexo frágil.
A evolução é ainda mais expressiva, segundo o Seade, para as mulheres com diploma de ensino superior.
Apenas a leitura de dois documentos divulgados semana passada - os relatórios da Seade e da Unesco sobre educação - mostra que esse fortalecimento vai explodir ainda mais.
Apesar da persistência óbvia da discriminação, o sexo chamado frágil está e vai ficar cada vez mais forte, remodelando as estruturas de poder da sociedade brasileira no mercado de trabalho, na política e na mídia. É ótima notícia para os homens.



Mais significativo do que o avanço no mercado de trabalho para medir as perspectivas de poder da mulher é o avanço no conhecimento.
Comparando indicadores educacionais de vários países, o texto da Unesco informa que os níveis de escolaridade melhoram para toda a sociedade brasileira. Muito mais para as mulheres.
Em 1998, elas já eram 61,4% dos que se formavam nas faculdades.
Essa estatística se traduz em dinheiro. No Brasil, quem tem diploma de ensino superior dispõe de renda até seis vezes maior do que aquele com ensino fundamental.
Óbvio: como a mulher estuda mais, ganha mais.
Os homens deveriam se sentir ameaçados?
Depende. Se for do tipo ainda preso a preconceitos, provavelmente vai se sentir humilhado, cada vez mais cercado de chefes mulheres.
A tendência é, porém, favorável aos homens.



Para começo de conversa, a nova composição ajuda o aumento da renda familiar - afinal, é mais gente trazendo dinheiro para casa.
Claro que, como contrapartida, nós (o que, vamos reconhecer, não é fácil de engolir, por absoluta falta de treinamento) vamos ter de assumir mais e mais tarefas domésticas.
Estão contados os dias em que a mulher se esfalfava no trabalho e, depois, em casa, se conformava em nos ver de chinelos, lendo um livro, tomando uma cerveja gelada.
A principal consequência para a sociedade brasileira não está aí - mas na agenda política que a força feminina acaba produzindo, forçando até um novo olhar da mídia.



Por ser mãe, a mulher tende a carregar um olhar mais social.
Não é por acaso que governos em várias partes do mundo consideram investir na formação da mulher como o melhor investimento social - ela é que acaba cuidando da família.
Também não é à toa que, no Brasil, entregava-se o ticket-leite para a mulher. Muito daquele benefício, como se viu mais tarde, transformou-se em cachaça nas mãos dos homens.
É várias vezes mais provável um homem do que uma mulher abandonar o filho.
Temáticas relativas à família, como educação, saúde, juventude, flexibilização do horário do trabalho, vão ocupar mais espaço - e sensibilizar os políticos. Podem apostar que, em breve, vai ser assunto da moda compatibilizar trabalho e família, obrigando as empresas a repensar sua organização.
Esse é um dos ingredientes que está, por exemplo, no favoritismo até agora de Marta Suplicy, com uma agenda social ancorada na visão feminina. Ela diz que sua prioridade vai ser infância e adolescência, algo incomum para um candidato a prefeito que, em geral, fala em obras.
Se está certo ou errado, se vai agir com competência, é outro problema.



Se as perspectivas são boas para a democratização das relações entre homem e mulher, a discriminação ainda persiste - e com muita força.
Os dados do Seade informam que não apenas a mulher ganha menos do que os homens, mesmo em cargos que exigem alta escolaridade, mas ficam mais tempo desempregadas.
Dificilmente, porém, com essa nova estrutura de poder, essa injustiça se manterá como está.


PS- Os dados sobre o avanço da mulher ajudam a desmontar o que chamo de "babaquice dos bons tempos". Sempre ouvimos alguém resmungando que o passado era melhor. No passado, mulher estava trancada em casa, os pais achavam que era seu direito indiscutível bater nos filhos, dificilmente víamos um negro comprando num shopping center.
E, mais importante, não tínhamos tanta gente estudando.


E-mail:gdimen@uol.com.br


Texto Anterior: Violência: Campinas registra aumento de 7% no número de assassinatos
Próximo Texto: Estradas: Viagem deve ser feita após as 12h hoje
Índice

Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Agência Folha.