São Paulo, segunda-feira, 05 de setembro de 2005

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TRANSPORTE

Pesquisa aponta que 66% dos passageiros acham muito ruim ou ruim a prevenção contra as investidas nos vagões

Assédio sexual no metrô incomoda usuário

Flávio Florido/Folha Imagem
Usuários lotam plataforma do metrô de São Paulo no horário de pico da tarde da última quinta-feira


ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL

Francisca Chaves Rodrigues, 52, já estava acostumada a dar cotoveladas e empurrões para afastar os homens que se encostavam em seu corpo com má intenção, aproveitando-se dos momentos de superlotação no transporte coletivo.
Neste ano, ela passou a carregar na bolsa um objeto pontiagudo, "como se fosse um alfinete contra alguns homens safados", diz.
A nova estratégia de defesa foi adotada depois de uma cena traumática que Francisca viveu na linha 3-vermelha (Leste/Oeste) do Metrô no final de 2004, entre as estações Sé e Pedro 2.
Após livrar-se de um rapaz que a incomodava pelas costas, viu que ele, de pé, passou a se esfregar de forma intencional em uma menina de uns dez anso sentada à frente. "Ela se encostou na mãe e começou a chorar. Quando vi, ele já tinha molhado a calça", conta Francisca, que, indignada, começou a agredi-lo e xingá-lo, dando bolsadas no rosto dele. A mãe e a filha, tímidas, agradeceram, mas não quiseram registrar queixa.
O caso presenciado por Francisca, fundadora da Associação dos Nordestinos de São Paulo, mostra um problema comum sofrido por mulheres não só no metrô mas também nos ônibus e nos trens.
As reclamações formais nunca foram significativas, devido ao constrangimento das vítimas, mas a insatisfação dos passageiros com essa situação pôde ser dimensionada por uma pesquisa do Metrô realizada no final de 2004.
Depois de uma seleção de temas a partir de pesquisas qualitativas, foram entrevistados 800 usuários.
Boa parte das ações do Metrô tiveram avaliações positivas, mas não as de prevenção ao assédio sexual -21% reclamavam que nada era feito, padrão de serviço considerado inaceitável, e 45%, que só havia alguma atitude da companhia quando a vítima informava um empregado, nível considerado inadequado, totalizando 66% de muito ruim e ruim.
Para 82% dos passageiros, deveria haver vigilância constante do metrô e orientação contra esse problema -ações que só 23% acreditavam que eram feitas.
A taxa de insatisfação só ficou mais baixa, entre os principais itens, do que a das filas nas bilheterias (74% de muito ruim e ruim) e a da lotação nos vagões (70%).
O trabalho inédito de Vera Lúcia Massa, analista de pesquisas do Metrô, foi apresentado no 15 Congresso Brasileiro de Trânsito e Transportes, realizado no mês passado em Goiânia.

Queixas
As queixas femininas mais comuns envolvem as "encoxadas" e a "mão-boba" -mas elas dificilmente são formalizadas, até por vergonha das vítimas e medo de se transformarem em vilãs.
"O que meu marido vai pensar de mim?", justificou à Folha uma empregada doméstica de 25 anos, depois de relatar um caso de abuso que sofreu dentro do ônibus.
"Vão pensar mal, que provoquei, que foi sem-vergonhice", afirmou a secretária Vaniza Tasdaldi, 61, ao explicar por que não fez reclamação formal quando foi vítima de um homem no metrô.
Esses casos são registrados pela Delegacia de Polícia do Metropolitano como importunação ofensiva ao pudor - foram 21 registros entre janeiro e agosto.
No Orkut (rede virtual de relacionamentos), há comunidades que até mesmo exaltam as "encoxadas" no transporte coletivo.
O delegado Valdir de Oliveira Rosa diz que "a maioria das mulheres não quer publicidade". Já os acusados alegam inocência. "Sempre dizem que encostaram porque estava lotado." Segundo Rosa, a punição pode variar de três a seis meses de detenção, mas quase sempre os responsáveis fazem acordos na Justiça para fornecer cestas básicas ou prestar serviços comunitários.
O delegado já registrou denúncia inclusive de homem contra homem no metrô -um deles teve seu zíper da calça aberto pelo outro. As acusações contra um cego foram as mais surpreendentes. Ele foi alvo de duas queixas de mulheres, em dias diferentes, ambas dizendo terem sofrido um forte apertão nas nádegas.
Esse problema é facilitado pela superlotação porque, "quando está como uma sardinha em lata, a pessoa se sente anônima, ninguém vê nada e não tem nem como reagir", avalia Cláudio de Senna Frederico, ex-secretário dos Transportes Metropolitanos.
A linha 3-vermelha do Metrô e a linha A de trem (Francisco Morato-Brás) chegam a índices de, respectivamente, 8,2 e 7,4 passageiros por m2. O confortável é haver até quatro usuários por m2. O nível "suportável", conforme referências internacionais, é de até seis por m2.
A doméstica Maria Aurineide Pereira das Chagas, 30, viu num ônibus da linha Terminal Bandeira-Capelinha, há quase três meses, um homem de uns 40 anos com seu pênis para fora da calça encostando em uma amiga dela. "Comecei a rir, de tão surpresa, enquanto ela gritava. Ele foi expulso do ônibus."


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