São Paulo, terça-feira, 11 de março de 2008

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CECILIA GIANNETTI

Meninos e meninas


O meninismo sempre existiu como o lado doméstico, escondido e até mesmo lúdico do machismo

"TÁ CADA VEZ mais fácil ser homem", dizia com desdém de cuspe, e depois mandava o "rerere" grave emprestado dos velhos da última geração de boêmios cariocas. Aí repetia a sentença, afogando as sílabas finais da pretendida afronta num gole que matava 300 ml de chope. Eu não dava bola à provocação embutida na fanfarra do palestrante. A amizade entre sexos opostos demanda certo grau de surdez voluntária para que desentendimentos sejam evitados.
Estava longe de ser das coisas mais irritantes que o amigo -agora desaparecido- costumava dizer. A explicação que engrenava após a frase de efeito ("Tem mulher demais no mundo! Desesperadas! Sem filtro! Engolem qualquer porcaria!" etc.) não chegava a ser a sua contribuição menos graciosa a uma conversa de bar em que havia -comprovando, em alguma instância, sua precária tese- mais mulheres do que homens.
Nem mesmo podia ser considerada uma postura machista. Tal pecha já caducou. Impossível encaixá-la -sem forçar a barra- em qualquer padrão de comportamento vigente desde o final do século passado; não serve para qualificar as teorias e piadas do meu amigo desaparecido. E não foi só ele que sumiu. O próprio machismo tem estado ausente. Ou assumiu outras formas: como o meninismo, por exemplo, que de inédito nada tem.
O meninismo sempre existiu, por baixo de pêlos viris e ternos bem ou malcortados, como o lado doméstico, escondido e até lúdico do machismo. Bem traduzido no tom imperativo com que o homem-menino da casa pergunta se a sua refeição ou a roupa está pronta, entre outras questões práticas que cabem à governanta, secretária, faxineira, mãe e amante de cada moleque. Ao menos é assim que ouço falarem de seus ex-maridos uma e outra amiga descasadas.
Há ainda o depoimento da vizinha gay que, separada da mulher, notou que suas roupas já não flanavam elegantemente, sozinhas, da máquina de lavar ao varal e do varal até que se recolhessem ao armário. Mas que alguém deveria lavá-las e levá-las de um canto ao outro. Na ausência da ex-mulher -que sempre cuidara de tudo enquanto ela trabalhava no escritório, longe da área de serviço-, quem teria de assumir as tarefas domésticas era ela mesma. O que não foi capaz de fazer ainda, enfraquecendo assim argumentos sexistas que nunca foram lá grande coisa.
Neste mês das mulheres, coincidentemente, faz quatro semanas o sumiço do frasista em questão (meu amigo meninista, autor do clássico pensamento alcoolizado: "Tá cada vez mais fácil ser homem"). Por isso lembrei do repertório moderno de vantagens masculinas das quais ele se gabava -não por machismo, mas por saudades do tempo em que ser machista ainda significava alguma coisa. Ainda que fosse apenas chamar a Betty Friedan de "sapatão".
Mas onde se enfiou esse meu amigo gaiato, menino de 11 anos em corpo de 30, com suas verdades masculinas supostamente inapeláveis, que sem querer transformava em piadas? Dedico-lhe uma anedota, para não perder o hábito:
Pane de homem não se dá durante o vôo, mas quando ele se vê obrigado a pôr os pés no chão. Se, por outro lado, consegue voar, vai embora feito folha de papel solta, Guido em 8 e 1/2, cada vez mais alto. As letras que formam seu nome despencam entre Paris e Madri, desabam como chuva sobre capitais frias as páginas de sua história pregressa, de quando teve chão. E agora, onde pousar, renascerá menino.

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