São Paulo, terça-feira, 16 de junho de 2009

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CECILIA GIANNETTI

As longas pernas da mentira


Tão bem feitas parecem essas pernas em público; às vezes têm extensão de vários mandatos consecutivos

A BOIZ, adulteração, andrômina, arapuca, ardileza, armadilha, arola, arriosca, arteirice, artifício, artimanha, astúcia, baldroca, blefe, borla. Sinônimos do ardil que leva imprudentes a um desconfortável lugar no tal jogo social em que todos estamos metidos até o pescoço -crianças, adultos, vizinhos, família, amigos, pobres e ricos-, mesmo aqueles que não querem ou não sabem jogar.
Quem se dá bem no jogo é o grupo que naturalmente demonstra charme convincente e simpatia protocolar com facilidade; não raro, têm inteligência acima da média, com a qual conseguem disfarçar boa parte das falhas acaso pescadas em suas mentiras.
Esta é quase a definição clássica de "sociopata". Quase a definição de um candidato político mal-intencionado ou pau-mandado (desconsiderando, neste último caso específico, a supracitada probabilidade de uma inteligência acima da média) em época de campanha eleitoral.
Brete, burla, cábula, cachimanha, cambapé, caxixe, conluio, defraudação, deslisura, dolo, embaçamento, patifaria, perfídia, raposice, ratoeira...
Os dicionários contêm imensa variedade de verbetes que definem a habilidade de se criar solércia (taí outro sinônimo), dentre eles contei mais de cem. Não se preocupem, não listarei todos -pois me parecem daqueles parentes indesejáveis, que chegam à casa do léxico sem convite e já vão logo sentando-se na poltrona reclinável do anfitrião e pondo os pés sobre a mesinha de centro; antônimos de vocábulos sinceros e de coração puro.
"Finura", no entanto, é preciso analisar em destaque, por significar o mesmo que patifaria e cia., e, por outro lado, dissimular-se em si mesma, significando também "fineza". Não à toa remete às maneiras agradáveis que o sociopata leva consigo feito cartão de visitas.
Todo mundo mente, vez ou outra na vida, alguns mais, outros menos. Para se proteger, para proteger alguém -a lista de justificativas é certamente mais longa que a de sinônimos de "ardil".
Já o prolongamento calculado de uma fraude com a finalidade de manter as aparências no jogo social, tal tipo de dissimulação é hábito mórbido: é maquiar o cadáver de uma relação; de uma promessa política não cumprida; é o orgulho sem-vergonha de sustentar a máscara; são as longas pernas de uma mentira. As quais vemos serpentear a nossa frente e receamos objetar a elas, tão bem feitas, compridas e macias se parecem em público, sustentando manequim atraente que se move com gestos cordiais, acenos e sorrisos estudados.
Essas pernas às vezes têm a extensão de vários mandatos e eleições consecutivas. Também podem dançar uma noite inteira sobre brasas, sem demonstrar cansaço ou alteração em seu ânimo falso, apenas para sustentar um aspecto externo de normalidade. Manequins são ocos; desse jeito parecem leves por fora, indiferentes ao peso da fantasia que emulam.
Também vez ou outra na vida somos acometidos pelo discernimento. Sabemos que a política em todo lugar sempre terá manequins ardilosos e pinóquios. Passeatas e protestos não surtem efeito contra as malas-artes de quem elegemos sem o devido cuidado.
Sugiro treinar o olhar para que se mantenha o bom discernimento nas eleições de 2010, observando, desde já e sob lupa implacável, elementos de seu convívio. Não incito o cinismo, encorajo a precaução. Quando somos aptos a descobrir um jogador oco em nosso círculo social, mais fácil é reconhecer um outro num palanque.


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