São Paulo, quinta-feira, 21 de junho de 2001

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

PASQUALE CIPRO NETO

O plural de "médico-legal"

Pouca gente resiste ao "Show do Milhão". E muita gente me bombardeia com perguntas apresentadas no programa de Sílvio Santos.
Recentemente, a "banca" do programa pediu a um participante o plural de "médico-legal". Pelo que me relataram as pessoas que me escreveram, a questão era seca, curta e grossa: "Qual é o plural de "médico-legal'?".
De início, é bom lembrar que o médico que se especializa em medicina legal é chamado de "médico-legista". Esse termo é, pois, um substantivo composto, formado por um substantivo ("médico") e um adjetivo ("legista").
O plural de substantivos compostos que têm essa formação é feito com a flexão dos dois elementos. No caso de "médico-legista", portanto, temos "médicos-legistas" ("Os médicos-legistas ainda não analisaram o caso").
E "médico-legal"? Encaixa-se no mesmo caso? Não. Agora, a história é outra. Temos aí um adjetivo composto ("O laudo médico-legal é confuso"; "Trata-se de um problema médico-legal"). Esse adjetivo é formado por dois adjetivos. Sim, dois adjetivos! "Médico", agora, é adjetivo, tanto quanto o é em "serviço médico", "atendimento médico" etc.
Nos adjetivos compostos formados por dois adjetivos, flexiona-se apenas o segundo elemento. O plural de "laudo médico-legal", por exemplo, é "laudos médico-legais"; o de "problema médico-legal" é "problemas médico-legais".
O participante do programa de Santos, portanto, deveria ter dito "médico-legais", mas respondeu "médicos-legais", o que faria sentido se o termo tivesse aplicação como substantivo composto.
O senão da história fica por conta do modelo do programa. Como se trata de pergunta e resposta -sempre desprovidas de contexto-, o candidato precisa ter jogo de cintura e raciocínio afiados para não sucumbir.
Por falar em adjetivos compostos formados por dois adjetivos, é bom lembrar que, nesses casos, o primeiro elemento também não sofre flexão de gênero, ou seja, fica sempre no masculino.
É por isso que se devem usar formas como "questão político-partidária" ou "questão político-econômica", em vez de "questão política-partidária" ou "questão política-econômica", como muitas vezes se ouve ou lê nos meios de comunicação. O plural dessas expressões é "questões político-partidárias" e "questões político-econômicas", respectivamente.
Também é bom lembrar que entram nesse padrão de formação adjetivos compostos como "vermelho-escuro", "amarelo-claro" etc. Como se trata de dois adjetivos, flexiona-se apenas o segundo elemento. Assim, pela norma, o plural de "carro vermelho-escuro" é "carros vermelho-escuros"; o de "camisa amarelo-clara" é "camisas amarelo-claras".
No caso específico das cores, os falantes parecem ver a coisa por outro ângulo. O que mais se ouve é "camisa(s) amarelo-claro", o que prova que o falante quer marcar o tom do amarelo, e não o da camisa. Preocupadas em padronizar, as gramáticas ainda não registram essa importante distinção que os falantes fazem.
Moral da história: se você fizer um concurso, diga que a camisa é amarelo-clara e que as camisas são amarelo-claras. É isso.


Pasquale Cipro Neto escreve nesta coluna às quintas-feiras.
E-mail - inculta@uol.com.br


Texto Anterior: Marta chama oposição de irresponsável
Próximo Texto: Há 50 anos
Índice


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.