São Paulo, domingo, 25 de janeiro de 1998.



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DEGRADAÇÃO
Restauração do Martinelli consumiria R$ 3,2 milhões
Primeiro arranha-céu de SP aguarda reforma desde 1995

da Reportagem Local

Um dos símbolo do crescimento de São Paulo, o edifício Martinelli, considerado o primeiro arranha-céu da cidade, aguarda desde 1995 uma reforma total de sua fachada frontal.
A pintura rosa dos detalhes esculpidos nas paredes, uma de suas principais marcas, está coberta pelo cinza da fumaça dos carros. A maior parte dos adornos, feitos de uma argamassa italiana, está quebrada e descolando.
Para a restauração do Martinelli são necessários R$ 3,2 milhões, verba que o administrador do edifício, o economista Agostinho Amadeu Antônio Denti, diz ser impossível arrecadar. "A prefeitura (que ocupa com diversas secretarias municipais a maior parte dos 29 andares) está sem dinheiro e nós não conseguimos patrocínio. Infelizmente, o Martinelli dos meus sonhos depende de muito dinheiro e acho que talvez eu nunca o veja arrumado", afirma Denti.
Mas não é de hoje que o Martinelli perdeu a majestade da época em que foi construído, nos anos 20, quando São Paulo ainda era comandada pelos barões do café e recebia de braços abertos milhares de imigrantes a cada ano.
Um deles foi o conde italiano Giuseppe Martinelli, que aqui chegou fazendo barulho ao anunciar que construiria um prédio de 14 andares no centro da cidade.
Quando decidiu elevar seu prédio para 29 andares, a sociedade paulistana ficou chocada.
Só depois de um teste de carga nos alicerces e a decisão do conde de construir sua casa no topo do prédio -para provar que era seguro- a situação se acalmou. Os jornais estamparam, então, manchetes como a publicada em "A Gazeta": "O arranha-céo Martinelli não cae".
Em 1928, na fase final de conclusão da obra, o Martinelli recebeu seu primeiro morador: o italiano Arturo Patrizi, professor de dança que abriu uma concorrida escola em uma das salas de sua casa, no quarto andar. No início dos anos 50, o prédio já perdia seu caráter residencial. Pela cidade, o ecletismo e o art decó cediam lugar à arquitetura moderna, funcional.
O centro de São Paulo, superpopuloso e com seu comércio em ascensão, começou a atrair os moradores da periferia, o que provocou a vulgarização da região.
O Martinelli mergulhou em duas décadas de decadência e os luxuosos apartamentos que acomodaram turistas estrangeiros na década de 30 eram então ocupados por marginais e prostitutas. A reforma dos anos 70 transformou o prédio em uma grande repartição pública, por onde circulam 3.000 pessoas diariamente.
Do passado, ficam as histórias de fantasmas, como a narrada pela copeira Cecília Caetano, 57. "Era meia-noite e ouvi barulho de gente datilografando em uma sala escura. Entrei e não tinha ninguém. Saí correndo e nunca mais voltei para o 25 andar." (FABIO SCHIVARTCHE)


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