São Paulo, segunda-feira, 26 de setembro de 2005

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ESTAÇÃO DESPERDÍCIO

São Paulo tem paradas feitas há mais de duas décadas que nunca foram usadas; uma virou depósito

Metrô vai demolir plataformas "fantasmas"

Eduardo Knapp/Folha Imagem
Plataformas construídas no segundo nível da estação República e que serão demolidas para a passagem de máquina de escavação


MARCOS SERGIO SILVA
DA REDAÇÃO

Duas estações "fantasmas" de metrô, construídas há mais de duas décadas na região central de São Paulo, estão escondidas atrás de tapumes nas cores marrom e laranja. Nunca foram utilizadas.
Uma delas, localizada junto à estação República, será demolida para a implantação da linha 4. A outra, sob a Pedro 2, virou um simples depósito de material e assim deve continuar por anos.
O governo paulista de Geraldo Alckmin (PSDB) afirma não possuir cálculos sobre dinheiro público desperdiçado nessas obras -atualmente uma estação completa de metrô chega a custar cerca de R$ 110 milhões.
Na República, a "estação fantasma" tem três plataformas abandonadas, erguidas na gestão de Paulo Maluf (1979-1982). Representam 30% das obras previstas. Já a administração de Paulo Egydio (1975-1979) construiu a da Pedro 2, onde existem duas plataformas que nunca foram usadas.
As duas estações foram feitas porque ambos os governos quiseram antecipar as obras para uma futura integração com a então chamada linha Sudeste-Sudoeste, prevista pelo consórcio HMD, que ganhou a concorrência em 1968 para planejar todo o metrô paulistano. A linha, no entanto, nunca saiu do papel.
Agora, com a linha 4, parte desse trajeto (Vila Sônia-Luz) será recuperado. A gestão Alckmin, porém, afirma que não dá para aproveitar as plataformas da República em razão de mudanças no método construtivo. E vai destruí-las para erguer a nova estação.
Segundo o governo, na época das obras, as máquinas utilizadas para escavação só conseguiam cavar túneis menores, de seis metros de diâmetro, com capacidade para receber um trem. Ou seja, eram necessários dois túneis para abrigar os trens de ida e de volta.
Atualmente, as máquinas fazem túneis mais largos, com 9,5 metros de diâmetro, por onde passam os dois trens (ida e volta), o que torna a obra bem mais barata.
"[As plataformas atuais] vão ser demolidas. Serão preservadas as paredes de contenção, lajes de cobertura e tudo mais. Mas as plataformas, que antes eram previstas para serem três, serão transformadas em duas", afirma Sergio Favero Salvadori, diretor de engenharia e construções do Metrô.
Adaptar o que foi feito por Maluf ao projeto atual, na avaliação do atual governo, custaria mais caro do que fazer tudo de novo.
Segundo o Metrô, foram gastos R$ 450 milhões na construção dos quatro níveis da estação República em 1982. Para a República da linha 4, a previsão é desembolsar cerca de R$ 110 milhões.
É possível espiar o lado "fantasma" da República nos fundos do primeiro nível da estação, logo após as catracas. Um tapume laranja e marrom cobre a escada que dá a acesso às três plataformas -uma central e duas laterais. Descendo esses degraus, avista-se os 50 metros da plataforma, sem acabamento e coberta pelo pó acumulado em 23 anos.
O lugar vive às escuras. Entulho, latas, placas inutilizadas e carrinhos de mão complementam essa "decoração" do desperdício.

Depósito de luxo
As plataformas abandonadas da Pedro 2 estão dois níveis abaixo das em operação na linha 3-vermelha (Itaquera-Barra Funda).
O futuro do lugar é mais sombrio que o espaço "fantasma" da República: continuará sem planos de uso, a não ser como depósito.
Segundo o Metrô, o projeto da linha 4 deve parar na estação Luz, a um quilômetro da Pedro 2. Diz que não há demanda que justifique levar os trilhos dessa linha até lá. Além disso, diz a companhia, o Fura-Fila (atual Corredor Expresso) e uma linha da CPTM (trens metropolitanos) já cobrem a área.
"Pedro 2 foi pensada naquela época. Foi um custo? Foi. Mas ficaria mais caro viabilizar uma nova linha [para utilizá-la]", afirma o coordenador de projeto de infra-estrutura de transporte do Metrô, Irineu Mangilli Filho.
"A estação não está lá às moscas. Eu uso aquilo lá como guarda de equipamentos que vou montar nas estações", aponta o diretor de engenharia e construções do Metrô, Sergio Favero Salvadori.
Na Pedro 2, a construção abandonada é ainda mais escancarada. Está poucos metros depois das catracas, em um espaço subterrâneo de 140 metros de comprimento por 35 de largura semelhante ao em operação na estação. Lá dentro, mesas de madeira, serrotes e tapumes ocupam o espaço projetado para os passageiros.


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