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Mulher de 72 anos terá que indenizar negros ofendidos

Além de prisão em semiaberto, ela pagará R$ 29 mil por xingá-los de macacos

Aposentada negou ofensa relatada em shopping na Paulista; vítima diz que polícia só agiu após 'carteirada'

MARIO CESAR CARVALHO DE SÃO PAULO

"Macaca, eu não gosto de negro; negro é imundo; a entrada de negros no shopping deveria ser proibida; odeio negros, negros são favelados."

A aposentada Davina Castelli, 72, foi condenada na quarta-feira a quatro anos de prisão em regime semiaberto por despejar essa série de injúrias raciais sobre três negros que estavam no Top Center, um shopping da av. Paulista, em novembro de 2012.

Cada um dos três vai receber R$ 28.960 por danos morais. Os injuriados foram a corretora Karina Chiaretti, 36, a vendedora Suelen Meirelles e o supervisor predial Alex Marques da Silva, 23.

A juíza Giovana de Oliveira determinou que ela seja presa imediatamente, o que não é comum, por "descaso e desrespeito à Justiça". Ela não foi presa ainda. A Folha não conseguiu localizá-la.

A aposentada não recebeu o oficial que foi intimá-la nem contratou advogado de defesa, apesar de ser de classe média --trabalhou na área jurídica da Aeronáutica.

Ao oficial, disse que não ia responder processo algum nem falar com juiz. Ela só depôs na delegacia, onde negou ter ofendido os negros.

A Defensoria Pública, que a defendeu, entrou anteontem com habeas corpus para suspender a prisão imediata.

Castelli é conhecida na avenida Paulista. Caminha com um andador e, segundo frequentadores, são comuns os xingamentos dela contra negros e nordestinos.

Na farmácia onde ocorreu o crime no shopping, ela pediu para "ser atendida por alguém da minha cor". Na portaria do seu prédio, colado ao cine Gazeta, um porteiro negro diz ter ouvido dela : "Macaco! Volta para a selva?".

Há até mesmo um vídeo no YouTube com o título "Racista da Paulista", no qual ela ofende um policial.

Um dos porteiros do seu prédio diz que ela é lúcida. É a mesma impressão da advogada Carmen Ferreira, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

"Ela deveria ter sido levada para a delegacia por um PM, mas disse que precisava tomar um remédio e se trancou no apartamento. Isso não é comportamento de louca", diz a representante da OAB.

POLÍCIA

Karina Chiaretti, que estava com a filha de 8 anos quando foi ofendida, diz que tão grave quanto as injúrias foi o comportamento da polícia.

"A polícia não está preparada para crimes raciais. A escrivã não queria registrar o caso. Ela disse: Vai embora que isso não vai dar em nada. Já tem seis BOs [boletins de ocorrência] por racismo contra essa mulher'", diz.

Chiaretti conta que a polícia só passou a tratá-la melhor, quando voltou à delegacia três dias depois, porque seu tio, o militante negro Hélio Santos, ligou para o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e reclamou.

"Sem carteirada', esse caso não teria andado", afirma.

Marques da Silva, outro ofendido, afirma que os policiais diziam: "Por que vocês não deixam isso pra lá?' Eu precisava voltar para o meu trabalho, mas pensei melhor: não vou aceitar esse tipo de humilhação. É demais".

Chiaretti e Marques da Silva criticam o comportamento do shopping, que, para eles, foi omisso. "Essa mulher xingou todo mundo no shopping por mais de cinco anos e ninguém fez nada", diz Marques da Silva. O shopping não quis se pronunciar.


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