São Paulo, domingo, 17 de setembro de 2006

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Meirelles tem o apoio de Palocci para ocupar comando da Fazenda

Ex-ministro atua nos bastidores e defende mudança num segundo mandato de Lula

SHEILA D'AMORIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

À medida que aumentam as chances de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser reeleito, crescem também as disputas internas no governo pelo comando da equipe econômica.
Alvo número um dos petistas desde 2003 e, até três meses atrás, tido como carta fora do baralho num eventual segundo mandato, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ganhou um importante aliado que já lançou seu nome para o Ministério da Fazenda, se Lula vencer as eleições. Trata-se de ninguém menos do que Antonio Palocci Filho.
Depois de alguns meses de reclusão, o ex-ministro da Fazenda, afastado do cargo após a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, voltou à carga nos bastidores e tem atuado fortemente no mercado financeiro, defendendo prioridades para a economia e, especialmente, a ascensão de Meirelles à Fazenda.
Para fazer valer, na prática, o status de ministro que Meirelles já tem no papel, porém, é preciso assegurar que o presidente esteja disposto a se desfazer de Guido Mantega, que ocupa o cargo atualmente. Companheiro fiel de Lula, Mantega tem tido uma participação importante na campanha à reeleição, gerando sucessivos fatos positivos que rendem dividendos políticos a Lula.
Com isso, ganha ainda mais confiança do presidente e tenta se manter no cargo. Uma das estratégias do ministro tem sido deixar na conta do BC a principal crítica à política econômica: os juros elevados.
Enquanto isso, ganha pontos com a elaboração de medidas para estimular o crescimento e que agradam a Lula, banqueiros, empresários e boa parte do eleitorado. Mas sabe que ainda tem pontos frágeis e tenta revertê-los. O principal deles é a dúvida do mercado com relação à sua gestão fiscal.

Encontro em SP
Segundo a Folha apurou, a substituição de Mantega por Meirelles foi colocada pelo "cabo eleitoral" Palocci durante encontro com banqueiros e analistas do mercado, em São Paulo, no início de agosto.
Numa roda de conversa, Palocci insinuou que não há a menor chance de Mantega permanecer no cargo. Disse que as pessoas ali presentes teriam "surpresas positivas" nessa área e, quando questionado se Meirelles poderia ir para a Fazenda, respondeu dizendo que "essas chances são crescentes".
Normalmente mais discreto e contido nas disputas de bastidores, o presidente do BC tem mudado sutilmente seu discurso. Em vez de se restringir à política monetária e a assuntos relacionados ao BC, prática adotada desde que Mantega assumiu a Fazenda, ele tem falado com mais desenvoltura sobre as reformas prioritárias para o Brasil crescer, tema que soa como música aos ouvidos do mercado financeiro.
Na semana passada, ao desembarcar na Basiléia, Suíça, Meirelles enfatizou que o crescimento maior da economia nos próximos anos está vinculado à aceleração de reformas e disse que essa deve ser a prioridade na economia no próximo governo.
O discurso, que em parte serve para desviar o foco do debate atual sobre o baixo crescimento brasileiro e a alta taxa de juros praticada no país, coincide com a palestra que Palocci vem fazendo para diretores de instituições financeiras e analistas do mercado nos últimos dois meses.
A apresentação do ex-ministro, com o título de "Desempenho Econômico Recente, Propostas para 2007-2010", inclui 12 slides com gráficos e tabelas que mostram a evolução de indicadores da economia, como superávit primário, dívida pública interna e externa, gastos correntes do governo federal, inflação e balança comercial. Alguns comparam os dados da gestão Palocci com a do governo anterior.
No final, o ex-ministro traça as perspectivas para a política econômica e aponta as prioridades para o próximo governo. A primeira da lista é o compromisso fiscal de longo prazo, proposta lançada quando Palocci ainda era ministro e que perdeu força em meio à crise política e às insatisfações que a idéia gerou dentro do PT, sobretudo para a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).
O ex-ministro toca ainda em pontos importantes sobre os quais técnicos da Fazenda, por exemplo, têm evitado se manifestar para não criar atritos no PT, já que o tema é polêmico: uma nova reforma para reduzir o déficit da Previdência.
Segundo fontes do governo, a movimentação política de Palocci nos bastidores, que inicialmente tinha como justificativa reforçar sua candidatura à Câmara dos Deputados, inclui chapa fechada. O atual diretor de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Vieira da Cunha, é apontado como um provável sucessor de Meirelles no comando do BC, caso os planos do ex-ministro avancem.
Atualmente, numa diretoria que ficou quase esvaziada, Paulo Vieira é visto pelos técnicos do governo como uma pessoa com um perfil mais político que técnico.
Recentemente vem acompanhando Meirelles em vários eventos e, em alguns deles, tem reforçado o discurso das reformas prioritárias no próximo governo.


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