São Paulo, sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

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ANÁLISE

Falta colocar dinheiro no bolso dos chineses

RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM

A maior razão para o crescimento de 8,7% do PIB na China em 2009 é: o governo chinês quis. Se o Partido Comunista consegue produzir chuvas e nevascas artificiais para mudar o clima em Pequim, o crescimento econômico em meio à recessão global não parece algo tão sobrenatural.
A China está construindo 1.000 km de metrô em 15 cidades e aprovou novos 2.500 km em outras 22 (São Paulo e Rio juntas têm 110 km). Obras tiveram o prazo de entrega encurtado de quatro para dois anos apenas para obrigar empreiteiras a contratarem mais gente e gastar mais.
O governo nacional baixou os impostos dos automóveis, para a alegria da nova classe média, que só andava de bicicleta, e obrigou centenas de prefeituras e governos provinciais a renovarem suas frotas. Foram vendidos 12,3 milhões de carros, volume suficiente para ultrapassar os Estados Unidos como maior mercado automotivo do mundo.
Bancos estatais tiveram que emprestar o equivalente a 90% do PIB brasileiro a empresas estatais e a governos provinciais que dificilmente quitarão suas dívidas, assunto empurrado para depois.
Dinheiro não falta. Com sua moeda artificialmente colada ao desvalorizado dólar e mão de obra barata, o superavit comercial do país varia entre US$ 200 bilhões e US$ 300 bilhões ao ano.
Os investimentos estrangeiros diretos no país variaram de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões anualmente nas últimas duas décadas.
O país possui US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais, mais que os PIBs de Brasil, Argentina e Chile juntos.
Por isso a overdose de estimulantes econômicos. No mês passado, foi inaugurada a linha de trem de alta velocidade entre as metrópoles de Wuhan e Guangzhou, de 960 km de extensão, praticamente a distância entre São Paulo e Brasília.
A viagem é feita em três horas (antes durava dez), e as passagens custam entre 490 yuans e 780 yuans (R$ 122,5 e R$ 195). Nas três primeiras semanas de operação, a ocupação foi de 30%. Os chineses só conseguem pagar as passagens baratas da viagem mais longa. A obra custou o equivalente a R$ 29 bilhões.
O setor privado chinês, com investimento externo de sobra, segue a mesma toada. No bairro onde moro em Pequim estão em construção três novos shoppings. Já existem na região outros dez -há cem shoppings em Pequim, quase todos construídos na última década. Ao contrário dos abarrotados mercados populares, suas lojas vivem vazias. Assim como as dezenas de edifícios comerciais e residenciais fantasmas espalhados por Pequim ou Xangai, fruto de dinheiro em excesso na mão de especuladores estatais e privados.
O consumo doméstico equivale a 30% do PIB, metade do que é no Brasil ou na Índia, enquanto os investimentos equivalem à metade do PIB. As estatísticas que apontam grande alta das vendas no varejo incluem marotamente as compras governamentais.
A aposta é no futuro. Ainda vivem no campo 53% da população chinesa (no Brasil, só 18%), e o êxodo rural continuará a promover o crescimento da economia. Cuida-se hoje que não faltem empregos, e amanhã esses prédios, esses shoppings e esses assentos nos trens estarão ocupados. Falta colocar dinheiro no bolso do cidadão chinês, mas por enquanto ele só está sobrando na mão do governo e das empresas estatais.


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